sábado, 10 de outubro de 2009

PERDÃO, DIFÍCIL E INDISPENSÁVEL [Maria Rita Lemos]

Todo mundo sabe o que é perdoar. Não há ninguém que não tenha passado, ao menos uma vez na vida, por uma dessas duas necessidades: a de perdoar ou de ser perdoado. Mais do que diz a consulta ao dicionário, perdoar não é apenas relevar, desculpar ou aceitar: perdoar implica também em esquecer. Por isso é tão difícil, tão árduo, que para algumas pessoas parece impossível.

Conviver é sempre difícil, e os perdões exigidos para que as uniões funcionem são muitos e diários. Quando se trata de relacionamento afetivo, entre pessoas que se amam e querem juntar suas vidas, então, os problemas triplicam, bem como a necessidade do perdão (aliás, "dos perdões"...) As pessoas são diferentes, vêm de famílias e meios diferentes, e tudo pode ser motivo para desentendimento, desde o mau humor matinal, passando pela toalha molhada jogada na cama, até o fuso horário diferente na hora de dormir e/ou namorar. Se a gente prestar bem atenção, até perde a conta das vezes em que é necessário saber pedir desculpas, para manter a harmonia da relação.

Se é real a necessidade de perdoar nas pequenas coisas do dia-a-dia, o perdão é ainda mais difícil e fundamental nos momentos mais graves, importantes, desses que balançam qualquer relacionamento, como a traição, por exemplo. E aí, como fica, quando um dos dois se esquece, ou negligencia, a promessa mútua que inclue fidelidade? Tem gente que nem quer pensar no assunto: quando se trata de traição, já tem a sentença formulada na cabeça e no coração, e a resposta é sempre negativa. Para essas pessoas, traição não pode ter perdão, porque não dá para esquecer. Se aparentemente perdoam, ao primeiro sinal de que o assunto voltou à baila, já estão triturando o parceiro com o que ele fez, jogando para fora, em todas as oportunidades, a sua mágoa.

Conheço outras pessoas, e agora vou falar de minha amiga Sílvia, que se acha uma "perdoadora" confessa. Ela sentiu a traição na pele, já faz algum tempo, com direito a flagrante e tudo. Pediu a separação, foi morar sozinha com os filhos, houve aquele tempo de mágoa e dor, mas ele pediu perdão e ela acabou voltando para a vida a dois. Segundo Sílvia, a relação já não estava boa e poderia ser ela, e não ele, a embarcar nessa aventura. O melhor de tudo é que, depois desse episódio, o relacionamento dos dois melhorou, e muito. Silvia jura que perdoou e não joga na cara de seu companheiro o que aconteceu, como muitas vezes acontece com pessoas que dizem que perdoaram, mas não esquecem jamais. Concordo com Sílvia, quando ela diz que "não existe nada, neste mundo, que seja realmente imperdoável."

Quem não perdoa, fica sendo escravo de uma situação e não consegue se libertar da mágoa que ela causa. No entanto, essa rua tem que ter mão e contramão: quem é perdoado também tem uma dívida e não pode se tornar um reincidente, ou seja, sabendo da capacidade de perdão do outro, tornar a fazer a mesma coisa, sem qualquer escrúpulo, sempre que tiver oportunidade. Não é porque o parceiro(a) é compreensivo(a) que é possível abusar do seu dom de perdoar. O ato do perdão não pode ser vulgarizado: tem que haver muita conversa, a relação tem que ser discutida profundamente (a famosa D.R., que os homens odeiam). Enfim, tem que haver uma mudança ou uma revisão no "contrato" da união. Naquele contrato que não está em papel nenhum, mas que é o verdadeiro, o que sustenta a relação. Se aconteceu uma falha, tem que estar havendo um defeito ou mau funcionamento em alguém ou em algum lugar, e temos que procurar, juntos, onde está o vazamento, para que as coisas não se repitam.

De qualquer forma, o perdão é difícil, tanto para quem o pede como para quem o concede. Quem pede perdão está se humilhando, não no sentido depreciativo, mas está exercendo a virtude da humildade. Já quem nega o perdão guarda ressentimentos, o que pode comprometer inclusive sua saúde mental e física. Já está provado que a falta do perdão, para quem o nega, pode causar várias doenças, inclusive no sistema imunológico. Por outro lado, quem perdoa se liberta. A pessoa que é capaz de perdoar completamente, isto é, passar uma esponja no passado, mostra toda sua grandeza e generosidade, e faz mais bem a ela mesma que ao outro, que foi perdoado. Perdoar é uma arte, reservada aos nobres de sentimento. Quem ama perdoa, e, consequentemente, é muito mais feliz.

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Parabéns, Maria Rita, por tratar um assunto tão delicado de maneira tão ponderada.

Joana Luz disse...

Boa tarde!
Parabens pelo texto tão bem escrito e coerente. Me fez refletir sobre o assunto...mas me despertou uma dúvida também: como explicar a relação traição/perdão quando a traição isso acontece quando tudo vai perfeitamente bem no relacionamento? o "não ter" motivo ou explicação para a traição cometida (por parte do traidor inclusive) não dificulta o perdão?
Chamo para o debate e aguardo retorno ..rs