segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A INDESEJADA >> Albir José da Silva

"Quando a indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável)
Talvez eu tenha medo".
Manuel Bandeira


A transferência para o CTI aconteceu há duas horas. Rostos compungidos, olhos vermelhos e narizes congestionados esperam, chegam e se encontram nos corredores. Mas as olheiras informam que já dura vários dias essa situação. A peregrinação ao hospital começou há semanas com a internação. Nesse tempo, sustos, ambulâncias, telefonemas de madrugada — "Ele não está nada bem!" —, faltas ao trabalho e noites sem dormir: "Vai para casa, tenta dormir, você já ficou ontem."

O médico trazia notícias a cada meia hora. Notícias que não diziam nada. Nada de melhoras: "O neurologista está chegando para fazer uma avaliação. Temos de esperar."

Esperar é ter esperança. E ontem ele estava tão tranqüilo. Ofegante mas tranqüilo. "É, tranqüilo até demais. Pediu pra trazer as crianças, mandou devolver um livro que pegou emprestado há anos. Não gostei nada daquela tranqüilidade."

Mais trinta minutos, que pareceram meses. E outros trinta. "Estão muito quietos. Onde está esse médico?"

Veio a assistente social. Quem é o responsável pelo paciente? Entre aqui, por favor. Na sala, o médico. "Sinto muito. Fizemos o possível."

A copeira, que acompanhou tudo, viu aquela movimentação e adivinhou. Circulou entre os suspiros, as lágrimas, o choro convulso, os abraços e até os abanos a alguém que passava mal. Parou na mesa da recepcionista e comentou:

— Que pena. Eu conversava muito com ele. Era tão simpático. Falava sempre com um sorriso. Mesmo quando começou a piorar. E deixa tanta gente triste. Devia ser muito querido. Sabe, eu trabalho aqui há três anos e nunca me acostumo com isso. A gente fala com a pessoa num dia e, no outro ... Bem, é a vida. Não sei por que que eu sou boba assim... — e limpou uma lágrima.

Talvez eu não mereça, mas é assim que eu queria a minha morte. Boba como essa lágrima.

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4 comentários:

Carla Dias disse...

É Albir... Há coisas bobas "como essa lágrima" que desejamos, sem mesmo saber se a merecemos. Somos bobos com desejos por coisas bobas que, no final do expediente da vida, se mostram as mais importantes.

Juliêta Barbosa disse...

Albir

Passar por essa vida deixando saudades é um dom que poucas pessoas possuem. Há excesso de espelhos no mercado, e, por conseguinte, desaprendemos a olhar para as laterais... Quem quer que seja o autor dessa lágrima boba, esse, sim, teve uma vida que valeu a pena. Garanto-lhe que não se chamava Narciso...

albir disse...

Carla,
que bela imagem: final do expediente da vida. A vida ser tão curta tem uma exigência - concentração; e um risco -desperdício.

Julieta,
é verdade. Para ter uma vida que valha a pena é preciso enxergar além do próprio umbigo. A criança sabe que não se basta, mas o adulto esquece.

Romeu disse...

Assim é a Vida, enquanto houver vida, viveremos...e tudo passa

rmsjac@gmail.com

Romeu de Jacareí