quinta-feira, 15 de outubro de 2009

AQUELA PROFESSORA >> Kika Coutinho

Ela tinha os cabelos lisos, acho que viviam puxados para trás, e usava óculos como toda professora que se preza (ou que se prezava, na época). Uma pele clara, uma voz macia, Tia Márcia foi a minha professora predileta. Na verdade, mal me lembro de ter tido outra, pelo menos não nessa primeira infância.

Uma vez resolvi fazer-lhe um presente, com toda a minha dedicação e carinho. E a minha idéia genial foi preencher um caderno em branco com beijos sem fim. Passei batom e iniciei a epopéia. Horas beijando as folhas em branco do caderno. Revezando algumas cores do batom, para ficar mais bonito. Limpava a boca do vermelho e passava o rosa, depois o vinho, virava a folha e continuava com o batom marrom, provavelmente tirado da gaveta de minha mãe. Depois de muito caprichar no biquinho, para que os beijos ficassem lindos e meio redondos, encapei com cuidado, escolhi uma folha bonita e escrevi o nome dela em letras garrafais: Tia Márcia. Pra finalizar, escrevi na capa qualquer coisa como “mil beijos para a professora que eu amo”, e entreguei a ela.

Hoje, tudo o que consigo pensar é que esse é o presente mais nojento que alguém pode receber. Imagine que as folhas ficaram grudentas, meio melecadas e, obviamente, deveriam estar cheia de bactérias, além de ser absolutamente inútil, é claro.

No entanto, a reação da tia Márcia foi surpreendente. Nem preciso fechar os meus olhos para lembrar-me daquele recreio, nós duas no pátio enorme da escola, eu lhe entregando, de forma singela — quase tímida — minha grande obra de arte. Tia Márcia recebeu, abriu e logo estava radiante. Sorriu e me abraçou como se ganhasse uma jóia preciosa. Ela folheava aquele caderno nojento e sorria felicíssima, repetindo que era lindo, que ela amara, demonstrando um encantamento que me encheu de alegria e orgulho. Meu presente fora um sucesso, eu tinha agradado afinal de contas. O que mais quer uma criança, a não ser agradar? Mesmo quando erra, e irrita, é agradar que elas querem.

Hoje, na minha memória, chego mesmo a achar que a tia Márcia tirou os óculos para enxugar uma lagriminha, que teimava em cair. Talvez isso seja um pouco demais, talvez seja fruto da minha memória poética, que guardou ali, naquele instante tão tolo e fugaz, um instante de completude e alegria. E disso, são capazes os professores.

Eu, na minha profissão, por mais que me empenhe, dificilmente darei a alguém esse pequeno presente de amor. Ninguém nunca falará: “Conheci uma consultora inesquecível”. Ou “A primeira analista de RH que conheci, mudou a minha vida”. Não, não existe. Essa possibilidade de cravar-se na memória do outro, tal qual uma prensa que nunca se solta, é um prêmio concedido apenas a alguns papeis. Alguns personagens que, afora todos os problemas e desânimos, são capazes de encantar-se com um caderno em branco, lotado não de só de marcas de batom, mas de amor e gratidão.

www.docerotina.blogspot.com
www.embuchada.blogspot.com

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4 comentários:

albir disse...

Ana,
vou encaminhar para algumas professoras que conheço. Principalmente para as desencantadas.

C. S. Muhammad disse...

Pois essa sua bela crônica foi um presente para esta professorinha aqui, que também guarda mil recordações dos professores inesquecíveis que marcaram sua vida.

Ah... e saiba que há também os alunos inesquecíveis, com seus lindos presentes (entre eles os cadernos com marca de batom) e carinho. Há também certas analistas de RH que, com suas ótimas crônicas, deixam de fato sua marca na memória dos leitores. :)

Luís Fernando D. Cardieri disse...

Pode ter certeza que a Tia Márcia adorou! Inclusive essa crônica!
Saudações sionenses!

Bia disse...

Pode ter certeza que a primeira analista de RH que eu conheci mudou a minha vida!
Gratidão é pouco o que eu tenho por vc, minha amiga!

Beijos e toda a felicidade do mundo!!!