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PANFLETOS >> Leonardo Marona

Eu sou quem dá os panfletos aos miseráveis que passam apressados, as cartas de suicidas aos que ficaram sem amor, eu sou quem respira o último presságio antes do atropelamento pelo bonde. No fundo, sou o mais frágil, o que espera bêbado e entrega no vazio as margens de uma loucura controlada. E agora, aqui, depois de tudo, o raciocínio lógico me foge um pouco, me fere um pouco não ter nada grandioso que dizer, a impressão é a de que fiz um grande mal – mas me parece equivocado este pensamento.

Amo: é fato. De maneira estúpida, peço: “Quero ver você soltar os cabelos”, e nem bem sou alguém para pedir isso. Parar de escrever, isso é fundamental. Sofro por coisas raras, que chamo de “coisa rara” para disfarçar minha sofrida mediocridade. Sofro de algo que poderia ser mentalmente tolhido como “busca por espaço”.

Não encontro muito. As ruas são selvagens e as pessoas andam por aí com alfinetes nos cotovelos. Difícil atrair um olhar tranquilo quando se vende alguma coisa que – todos sabemos – não vai realizar ou mesmo suavizar uma ausência funda que nos cala aos poucos, até que morremos. Morremos como um suplício, enfim.

Mas me agrada ficar por aí vagando pelas ruas, vendendo propriedades alheias. Ouro, prostitutas, jóias falsas: as bases de uma espécie em decadência. Assim, vejo-me como um bobo da corte, um alienado que, justamente por isso, não foi contaminado e pode ver com mais clareza a desgraça causada por sequências intermináveis de erros – em prol do “bem coletivo”, que é o mesmo caso da “coisa rara” supramencionada, algo que serve para disfarçar algo que nos incrimina.

Os carros param de passar com tanta frequência e eu me sinto um pouco, na solidão escura, como um pedaço de asfalto solto. No entanto, onde não posso oferecer presságios, topo com todo tipo de situação crônica e, no meio da miséria, sou um pouco mais de cada um. Ricos, pobres, famintos, aceitam meus panfletos apenas os que sofrem por mim, ou por si próprios.

Ao distribuidor de panfletos falta às vezes um rosto mais pronunciável, uma carga de tensão quixotesca como a que prevê o moinho. Mas sigo compartilhando minha solidão ambulante com outros tantos buracos vivos, feitos de carne crua e desejos vagos, carnes que reconhecem o tempo em sua forma mais imperdoável, em direção a algo que almejamos e tememos, mas que precisamos saber e alguns esticam o passo, e eu no fim do dia, carregado de tantos vazios e com o meu próprio a latejar lusitanamente num passo em transe sigo, carregado de realidade e miséria, com a estranha e ao mesmo tempo excitante sensação de que enganei muita gente a quem não poderia, e que, no entanto, eu mesmo, sabendo disso, sinto-me igualmente enganado.


http://www.omarona.blogspot.com/

Comentários

Anônimo disse…
Voce é um fingidor. Sem essa de solta os cabelos meu camarada. Tá enganando mais uma, só que desta vez voce é que está sendo enganado. Quem sabe quando parar de fazer xixi nas calças aprenda a ser homem.

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