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Mostrando postagens de Dezembro, 2021

BEM-TE-VI >> Paulo Meireles Barguil

  "Bem te vi, bem te vi Andar por um jardim em flor Chamando os bichos de amor." (Paulinho Pedra Azul, Jardim da Fantasia ) Não é sempre que vemos o bem. Há épocas e locais, em que ele é raro. Às vezes, só dá para escutar.  Precisa ter (muita) paciência e esperança. E ajustar o som no máximo . Enquanto houver tempo, cultive o bem: dentro e fora de você. O vento sopra em várias direções...

JINGLE BELLS E CALIBRAGEM NATALINA >>> Nádia Coldebella

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Desde que Eliseu acertara o dedo podre na escolha da quarta esposa , era pura jovialidade. Suas conquistas amorosas inspiraram o Clóvis, que deixou a peruca de lado e se afundou num tórrido romance com a estagiária.  Ser uma reconhecida fonte de inspiração deixava meu chefe e amigo muito feliz. (Dê o play e curta o clima natalino da história) Além de inspirador e feliz, Eliseu também se afogava na espontaneidade da quarta esposa, que, aproveitando o mote da época, encheu o teto, mesas e portas da empresa de enfeites natalinos. Também montou um grande pinheiro, bem no meio do escritório, e instalou alto falantes para que as músicas temáticas tocassem oito horas por dia, sem interrupções. Eliseu era puro orgulho. - Foi a Tchutchuca mesmo quem organizou t udo, Fernandinho. Confesso que há vinte anos trabalhando com Eliseu, nunca vi nada parecido. Ele sempre fora um homem bastante comedido: preocupava-se em usar rímel para os cabelos não ficarem brancos, alinhava perfeitamente a gravata

UM TALVEZ >> Carla Dias

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Nascemos aprisionados por senões que não semeamos. Herdamos as dúvidas dos que vieram antes de nós, suas mazelas e urgências. Nascemos repetindo o que nos serve, mas às vezes avistamos o adiante, banhando-nos de surpresas que éramos incapazes de imaginar possíveis. Éramos tantos na infância da nossa sabedoria, de quando revirávamos jardins em busca dos que se escondiam. E gargalhávamos indecorosamente como se o ato em si purgasse nosso futuro. Queríamos alcançá-los com a graça da pureza dos crédulos e esperançosos. Desejávamos eternizar o som da felicidade que ainda não tínhamos consciência de ser finita e com visitas intercaladas com consideráveis pausas. Não sabíamos daquilo que arrefecia durante o caminho, de quantas vezes morreríamos para renascer no capricho de quem não está pronto para sucumbir. E aprendemos tanto ao sermos obrigados a encarar o inimaginável: privação de importância, violência discreta, assédio continuado em pequenas e letais doses. Morrer todos os dias e renasce

O MUNDO É DOS CALANGOS >> Clara Braga

Se os calangos soubessem que nós temos mais medo deles do que eles de nós, já teriam dominado o mundo. Claro, quando digo “nós” estou falando de mim e dos outros integrantes do seleto grupo que eu costumo chamar de: clube dos cagões que não sabem explicar de onde tiram seus medos. Eu tenho mesmo uns medos inexplicáveis. Além de calangos, detesto baratas embora elas nunca tenham feito nada contra a minha pessoa. Cigarras nem se fala, se entra uma pela janela eu praticamente saio por onde ela entrou. Aranha das pernas finas e pequenas eu até encaro, e quando eu digo encaro estou sendo literal, fico encarando-a para não perder de vista até chegar alguém para tirar ela de lá. Poderia fazer uma lista mais extensa, mas esse não é o objetivo dessa crônica. O tema que eu queria abordar, para a surpresa de zero pessoas, é maternidade. Quando nossos filhos nascem é inevitável criarmos certas expectativas sobre a forma como vamos criá-los. E um dos meus objetivos quanto à educação do meu filho er

ESTRELAS E TROVOADAS NO MONTE - 2ª parte >> Albir José Inácio da Silva

  (Continuação de 13/12/2021)   SUBVERSÃO   A revolta de Emanuel contra a igreja não veio num bom momento. O dono do morro, recentemente convertido, não admitia rebeldias contra a fé. Ele trocou o nome da comunidade de Morro de São Cipriano para Morro de Israel e fincou uma bandeira com a estrela de Davi na parte mais alta. Trocou ainda seu próprio nome, de Onofre da Bala para Moisés.   Mas Emanuel não estava em busca de confusão nem de poder. Andava com uns tipos estranhos, gays, garotas de programa, desempregados e outros enjeitados que não encontravam acolhida entre os cidadãos de bem. O grupo arrecadava alimentos com os comerciantes e distribuía entre os famintos. Não fazia acepção de pessoas, segundo ele, porque aprendeu na escola dominical.   - Briguei com a igreja, não com o Cristo – dizia.   Num tempo em que Moisés tentava “moralizar” o morro, Emanuel pregava o perdão e não a punição aos pecadores. Pregava o amor e não as armas contra os inimigos. Diversidad

ROSA EM EDIÇÃO >> Sandra Modesto

Rosa estava fugindo de notícias ruins.   Acordou meio desanimada.   E num cansaço estranho voltou a dormir. Sonhou... Uma notícia boa num jornal. Arrumou um tempinho e se espalhou. Preferiu as rosas. Elas não falam, mas há o desmedido amor manso dos girassóis. Rosa não preteriu–se. Gritou. Havia silenciado por tantas vezes.  Quis inventar. Qualquer linha, qualquer embaraço alguns escritos. Lá fora, o mundo grita por mim? O despertar ofegante e o texto surgiram sem fuga.   Os minutos estão fragmentados. Pessoas morando nas ruas. Crianças trabalhando, governo sem planos de vacinação infantil. O que é isso Brasil! Difícil escrever. Insiste. Esquece o teclado. Usa bloquinhos de papel. Na imaginação fértil de um útero poético, Rosa imagina-se uma fotógrafa registrando as ruas por onde passa. As luas. O raio tão forte e o namoro de duas mulheres em praça pública.  Cenas de cinema. Porque na vida real, há tabus. Rosa adormece. Ao acordar enfrenta o noticiário. “Um nó no peito

O SEMPRE ESTRANHO NATAL DO VELHO PADRE E DO GATO PRETO >> Zoraya Cesar

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Era o interior de uma igreja, sem dúvida. O que faziam ali, no entanto, não sabiam. Mas, em véspera de Natal toda explicação é possível. ----------------- Mesmo sem lâmpadas ou luz natural, o ambiente estava inexplicavelmente claro como uma noite de lua cheia. E vazia. Nem fiéis, nem santos nos nichos, até o presépio estava, adivinhem? Vazio.  Ah, mas aquela não era uma igreja abandonada. Não mesmo.  -------------------- O homem chegou desconfiado. Não acreditava em Deus, não gostava de padres ou igrejas. Mas de bichos sim, e sentiu-se feliz quando um enorme gato preto pulou em seu colo. Criancinhas e animais sempre se aproximavam dele para brincar, era um ímã. Era também um forte, uma firmeza de viver absurda, a preguiça nunca levou a melhor sobre ele. Trabalhou duro, trabalhou muito e, ainda assim, aos 89 anos tinha aparência e vigor de jovens 60 anos. Seu lema era envelhecer sim, ficar velho jamais. Seu orgulho era não ter deixado dívidas, ter criado duas filhas em bons colégios, se

FÉRIAS

 O cronista Fred Fogaça está de férias.

PARA QUEM ACREDITA NO NOEL >> Sergio Geia

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  Era dezembro. Não um dezembro pandêmico como o atual (pós-pandêmico?). Era um dezembro suave, com as pessoas zanzando pelas ruas, sem máscaras, se abraçando e se beijando nas esquinas.  O menininho morava perto de uma loja de brinquedos. Ele brincava com amiguinhos quando de repente a enxergou. Foi amor à primeira vista. Eram muitas bicicletas enfileiradas, uma ao lado da outra. E todas iguais: quadro violeta, ultravioleta, pneus pretinhos e perfumados — perfume de pneu novo, claro; e as manoplas eram macias, ele até as tocou. Então, desde aquele instante, o menininho começou a sonhar.  Chegando em casa, imaginem qual foi a primeira coisa que o menininho disse à mãe e ao pai? Sim, isso mesmo que você pensou, afinal, estamos falando de uma criança, e o mês era dezembro. Ele disse que já sabia qual era o presente de Natal que iria pedir. Quando os pais ouviram o pedido ficaram tristes, pois sabiam que não tinham dinheiro para comprar. Mas não falaram nada, nem que sim, nem que não.  Di

E AGORA? >> Paulo Meireles Barguil

A situação pode ser trivial ou importante. O acontecimento pode ser no final, antes do esperado ou depois do combinado. Ele pode ser o desejado, o rejeitado ou o sequer imaginado. Para ele, não há hora adequada ou inconveniente. Também não interessam as peculiaridades do destinatário: escolaridade, saúde, etnia...   Apesar de todas estas variáveis, quando ele desponta, a reação da pessoa costuma ser a mesma: – E agora?

O SER >> Carla Dias

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O ser humano vive de criar formas de se proteger de si mesmo. Acredita que árvores ameaçam a rede elétrica e que a chuva causa tragédias. Confunde resiliência com abstinência de direitos básicos. É repetidor contumaz da declaração de que é preciso enfrentar todas as adversidades, quando muitas delas são de sua autoria. Ele tenta e quase sempre desiste, porque se ausenta das urgências para desfrutar de um punhado de prazeres. Qualquer coisa que consiga rotular como necessário, ainda que gerado no bojo do dispensável. Confunde amor com propriedade, afeto com violência, necessidade com futilidade. Gaba-se de ser capaz de enganar a ponto de não deixar rastro de veracidade na trama que tece. Aprecia impor culpas, constranger quando não entende, rotular para fazer de conta que se esforçou em compreender. O ser humano vive para evitar a morte, no entanto, não raro colabora para o aumento de emissões de atestados de óbito. Nega para não ter de lidar. Silencia para se afastar da culpa. Ignora p

ESTRELAS E TROVOADAS NO MONTE >> Albir José Inácio da Silva

  NASCIMENTO   A ambulância não veio, apesar das muitas ligações. Mariana desceu com a ajuda de um mototaxista, mas nem chegou no asfalto. O menino nasceu numa borracharia, aparado pela mulher do borracheiro, de unhas sujas e coração puro.   Quando amanheceu, Mariana estava sentada num pneu com a criança no colo. Estrangeiros, que subiam a favela em visita guiada, se encantaram com a cena – uma criança no colo da outra - e deram presentes porque era Natal.   Mariana desistiu do socorro médico e subiu cambaleante de volta para o barraco com ajuda da parteira.   Acamada, a mãe de Mariana se emocionou com o neto, apesar das vezes em que amaldiçoou a gravidez.   GRAVIDEZ   Educação sexual nas escolas é tema combatido pelos cidadãos de bem porque pode despertar precocemente os instintos pecaminosos das crianças. Segundo eles, é melhor que esse assunto fique por conta das mães para as meninas e dos pais para os meninos.   Mas a pobre mãe de Mariana não sabia nada

HISTORINHA >> Sandra Modesto

    Diga que não sou de nada Que não valho nada E que não há nada   Mas tenho você.   Diga que o amor se perde Que a paixão inunda Que o mundo é covarde...   Mas tenho você.   Diga que a lua esquenta Que o sol adormece... Que a dor aumenta   Mas tenho você.   Diga que o verbo se cala Que a fala estremece Que a vida se espalha.   Mas tenho você.   Diga que o coração medita Que a noite é pequena Que a alegria é esquisita   Mas tenho você.     Se depois de encantos Eu me fazendo de tonta Perceber que você é um aflito   Pode estender assim A paixão extermina Desenhar versos em mim.   Mas tenho você.   É um estranho querer... Mesmo sem rumores Talvez enterneça.   Preciso deitar-me na rede Enrolar meus sonhos Saciar minha sede.   Eu tenho você.   Sigo sem saber Com eterno sorriso Sentindo o surpreso prazer...   Mas tenho você...   Não vou querer camas unidas Muitos movimentos. No jogo de orgasmos.   Numa tarde que chama Na noite comprida. Espichando sonhos   Aquecer a calma. Afagar a alma. A