ESTRELAS E TROVOADAS NO MONTE - 2ª parte >> Albir José Inácio da Silva

 

(Continuação de 13/12/2021)

 

SUBVERSÃO

 

A revolta de Emanuel contra a igreja não veio num bom momento. O dono do morro, recentemente convertido, não admitia rebeldias contra a fé. Ele trocou o nome da comunidade de Morro de São Cipriano para Morro de Israel e fincou uma bandeira com a estrela de Davi na parte mais alta. Trocou ainda seu próprio nome, de Onofre da Bala para Moisés.

 

Mas Emanuel não estava em busca de confusão nem de poder. Andava com uns tipos estranhos, gays, garotas de programa, desempregados e outros enjeitados que não encontravam acolhida entre os cidadãos de bem. O grupo arrecadava alimentos com os comerciantes e distribuía entre os famintos. Não fazia acepção de pessoas, segundo ele, porque aprendeu na escola dominical.

 

- Briguei com a igreja, não com o Cristo – dizia.

 

Num tempo em que Moisés tentava “moralizar” o morro, Emanuel pregava o perdão e não a punição aos pecadores. Pregava o amor e não as armas contra os inimigos. Diversidade, inclusão, acolhimento e outras blasfêmias passaram a ser discutidas na porta das escolas, nas quadras e nas esquinas. Alguma coisa precisava ser feita – reclamavam os anciãos.

 

Emanuel reunia no Monte das Bananeiras casais homoafetivos, garotas de programa, adúlteros e o pessoal de terreiro que ainda não tinha sido expulso. Alguns carregavam guias proibidas sob as roupas, acendiam charutos e praticavam outras heresias.

 

Emanuel fez amigos e seguidores nesse meio desregrado, mas fez inimigos entre as pessoas de bem, que viam nele uma ameaça à família tradicional, à fé e uma péssima influência para as crianças.

 

Ele nunca pregou o confronto porque sabia que isso colocaria em risco as vidas já ameaçadas do seu grupo. Eram reuniões pacíficas, sem armas, mas nem por isso incomodavam menos.

 

E os incomodados reclamaram providências de Moisés.

 

MOISÉS E OS DEZ MANDAMENTOS

 

A mudança de nome não transformou Moisés num santo, mas mudou seu estilo. Não queria mais parecer um assassino sanguinário, que torturava para se divertir e dançava funk em volta do *micro-ondas aceso. Agora queria ser justo, embora não fugisse às suas responsabilidades com o **movimento, a comunidade e a fé:

 

- Fuzil na mão direita e Bíblia na canhota! – sorria.

 

A nova fé exigia aparência de justiça e bondade para não escandalizar. “Ai daquele de quem vier o escândalo” – recitava Moisés. Por isso suportou a subversão de Emanuel por algum tempo, quando todos já diziam que ele estava endemoninhado.

 

Moisés falava o tempo todo em Deus, paz e amor, mas governava com mão de ferro. Expulsou pais e mães-de-santo, incendiou terreiros, destruiu utensílios e imagens de feitiçaria, proibiu o uso de roupas brancas e guias na comunidade, mas permitiu que ficassem aqueles que abjurassem a feitiçaria.

 

Implantou a cura gay, com exorcismos e castigos, como alternativa para a execução. Aboliu o batom vermelho e os trajes indecentes para as mulheres. Encontrou alguma resistência entre as varoas, mas os varões aplaudiram a maior sobriedade nas vestes femininas.

 

Havia cochichos indignados sobre a intensa vida amorosa de Moisés, mas ele se justificava com as setecentas esposas e trezentas concubinas do rei Salomão.

 

Uma comissão de homens de bem procurou Moisés na fortaleza. Não suportavam os desaforos de Emanuel, o desencaminhamento dos jovens e as pregações comunistas. As acusações foram se acumulando: calúnia e difamação contra os ungidos, desobediência e pregação contra os mandamentos de Moisés e as ordens do movimento, e contra o dízimo e as taxas de proteção.

 

Nessa sua nova fase, Moisés costumava atender pedidos de pastores, que chegavam acompanhados de mães descabeladas porque seus filhos seriam assados no micro-ondas sob a acusação de X9. ***Os traíras eram poupados mediante arrependimento, promessa de trabalhar na ****endolação e freqüência aos cultos. Agora os pedidos vinham em sentido contrário, pediam a punição do anticristo - como agora chamavam Emanuel - e não o perdão.

 

Pessoalmente Moisés não tinha nada contra Emanuel, mas precisava dar uma resposta à comunidade. Os anciãos tinham razão, aquela subversão podia se espalhar. O moleque não era um baderneiro qualquer, em quem ele mandasse aplicar uns bolos e devolver pra mãe. A transgressão agora tinha outra natureza.

 

Mandou trazer o herege.

 

(Continua em 10/01/2022 com a última parte)

 

*Micro-ondas: pilha de pneus encaixados no corpo da vítima e ensopados de gasolina.

**Movimento: atos de compra, transporte e venda de drogas numa comunidade.

***X9, traíra: traidor

****Endolação: preparo, mistura e embalagem da droga para distribuição.

 

Comentários

Zoraya Cesar disse…
ai ai ai, tô até vendo o final dessa história e já tô aqui roendo as unhas. E aprendendo termos interessantes. Só mesmo Dom Albir pra me dar calafrios por antecipação!
Albir disse…
Obrigado, Lady Tarantino!
Paulo Barguil disse…
Trama cada vez mais fascinante! Que venha o grande encontro... :-)

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