INDISCERNÍVEL >> Carla Dias

© Tomasz Kowaluk por Pixabay

Percebe-se avizinhar da compreensão de que não mais conseguirá se inteirar dos objetos do mundo. Prédios de desafiar olhar de quem sofre de vertigem. Campos abertos para os adeptos da solidão acolhida. Comidas das quais não sabe dizer o nome. Roupas de proteger corpo do frio. Livros para esbarrar ao acordar de cochilo no sofá.

Lua de enfraquecer indiferença. 

Construiu-se com partes recolhidas do mundo. Histórias de desalinhar acertados. Fome de empanturrar o espírito com dúvidas. Sonhos para desfiar com a franqueza de quem identifica insignificâncias e se especializou em descartá-las.

Amua-se de gastar horas a qualificar tormentos. A diversidade a encanta como as crianças se permitem encantar por brincadeiras esmiuçadoras de verdades insolentes. Catequiza o próprio coração à especulação dos sentimentos. Nunca foi amada e isso a faz sentir estrangeira no próprio país que é a sua existência. Chora tanto, até cair na gargalhada de encantar apetites da ironia. 

Sobrevive a si, diariamente.

Imagem © Tomasz Kowaluk por Pixabay


Comentários

Albir disse…
A dolorosa vertigem de aturar-se.
Zoraya Cesar disse…
"Nunca foi amada e isso a faz sentir estrangeira no próprio país que é a sua existência." Um texto curto com a profundeza da dor de uma alma que se encontra perdida.
Carla Dias disse…
É isso, Albir. Nem sempre é fácil.

Sim, Zoraya. O que mais me fascina é que ela pode se encontrar, assim, sem querer.
Paulo Barguil disse…
Cada pessoa e a (não) busca de se (des)entender... Um relato incisivo e sutil.

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