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Mostrando postagens de Maio, 2021

MAIS REAL QUE O REI - final >> Albir José Inácio da Silva

  (Continuação de 17/05/2021) No emprego seguinte encontrei mais uma história que reputo de moral parecida com a primeira. Ainda nos anos setenta, o palco foi um ambulatório de psiquiatria do INAMPS, recepção às oito horas da manhã, ou seja, o caos.   - Tá bom! O senhor é o presidente e eu sou a rainha Elizabeth! – reagiu Nanci, percebendo o perigo.   Aquele paciente chegou às oito da manhã, quando tudo ainda estava calmo e ela sorridente, se não para os usuários, pelo menos para os colegas.   - Próximo! – era ele - Qual o problema?   - Bom dia! – ele disse e, sem resposta, acrescentou:   - Eu queria uma consulta porque eu ando muito nervoso.   - Todo mundo aqui anda nervoso, meu senhor. Seu nome?   - João da Silva – ele improvisou, ela escreveu e ordenou:   - Aguarda a chamada.   - Vai demorar?   - Além de nervoso o senhor está com pressa?   Próximo! – chamou.   Duas horas depois ele foi ao banheiro e na volta reclamou com ela:   - Dona

PEDAÇOS DE MAIO > > Sandra Modesto

  Sozinha andava pela Rua Nua de gentes.    Observo mais adiante e a nudez se vestiu em Formatos humanos. Alguns buscavam sonhos. Talvez.    Meu tênis gasto já transformava meu caminhar. Hipérbole em meus pensamentos.    O moço comia o que sobrou da cesta básica, um senhor em busca dos restos dos dias. Eu percebi alguém ao meu lado. Tentei disfarçar. Uma linha fina separava o que eu senti. Mais uma dose da solidez.    Minha calcinha enfiada sob minha calça jeans. Minha camiseta transparente. Árvores secas rasgando o tempo. Sol triste.    Alguém me segue. Acelero.    — Não é nada, não, tia. Fui só buscar o pão e trombei com a senhora. Na minha casa, o pão é Sagrado.    Que burguesinha estúpida. Eu me prestei a desempenhar o papel de uma personagem que eu nunca fui.    Corri pra espantar meu próprio eu.   Uma mulher varre a rua.    Uma dor sem Nome.    Você precisa terminar uma história. Mas você está incompleta. O domingo anda tenso por aqui.    Se as águas de março fecham o verão... E

O LIVRO DOS CARREGADORES - 6a e última parte >> Zoraya Cesar (e Lucrécio Lucas)

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De um lado do Caminho ou do outro, todos cometem erros. Lucrécio caíra na armadilha como um iniciante qualquer. E agora? Não à toa Lucrécio Lucas temera enfrentar Sannara Qaww. Qualquer mago ou criatura da Luz ou das Trevas hesitaria.  Imprevisível, ardilosa, profunda conhecedora de magia negra de várias partes do mundo e absolutamente insensível ao mal ou à dor que pudesse causar para conseguir seus intentos. Ajudava ambos os lados do Caminho,  conforme sua conveniência.  E, naquele momento, era-lhe conveniente terminar a conjuração que destrancaria os segredos do livro que, suspeitava, faria de seu intérprete o ser mais poderoso daquela dimensão do Universo. Precisava abri-lo! Tinha de se concentrar. O livro estava protegido com a magia do Caecus oculi et anima – um contrafeitiço errado e ela ficaria cega dos olhos e da alma para todo o sempre.  Sannara Qaww olhou de soslaio para a figura gemente e vergada de seu oponente. Quem diria, o famoso Lucrécio Lucas abatido como um novato e

DUAS >> Carla Dias

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São apenas alguns anos de diferença, habilmente estreitados pela necessidade de dividirem quarto, cama e faltas, assim como as gargalhadas e berros, que sempre foram passionais em suas determinações. Havia um mundo inteiro lá fora que elas ainda não conheciam. Ainda não sabiam quantas vezes seus corações seriam partidos ou que a vida as faria imensamente felizes. Nasceram em lugar e condições difíceis, mas ainda assim se perdiam pelo quintal e dividiam brincadeiras. Eram sucos inventados e desfiles improvisados sobre a terra batida de um quintal que era o mundo que conheciam. A conexão entre elas vivia da profundidade estabelecida no primeiro encontro. Então, as portas do mundo se abriram. Conheceram tantas pessoas, amaram algumas e se deram mal com outras, porque nunca tiveram problema em admitir que não gostavam daquilo ou daquele. Sentaram-se à mesa – um dia na casa de uma, outro dia na de outra – e durante horas falaram sobre quem eram, o que desejavam, o que sentiam que faltava ou

A NOVIDADE >> Sergio Geia

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  Era uma quarta-feira triste e banal.    O sol já aparecera tímido às primeiras horas, havia uma corrente de vento tão fria que era quase um tapa, havia silêncio, incomum diante do vai e vem de carros e gente apressados; a manhã era estranha.    Quando parei e meus olhos bateram na fachada bela, senti algo esquisito, um aperto no peito acompanhado de sensação ruim embora estivesse decidido, afinal, se antes a fruta era verde, agora estava madura; se eu demorasse mais, talvez a perdesse.    Apertei a campainha e aguardei. Ao meu lado, um tio, velho tio, companheiro de todas as horas, especialmente as difíceis, esses momentos que a vida nos entrega, em contraponto às alegrias mundanas.    Entramos, respirei um ar puro, bom, fino.    Ouvi atentamente a explanação, depois corremos a casa toda pra conhecer o ambiente. Sala ampla, cozinha com cheirinho de comida no fogão, o quarto com a janela lateral, o banheiro, a ampla sala de tevê, o quintal ajardinado, a promessa de uma festa junina,

POSITIVIDADE TÓXICA >> Paulo Meireles Barguil

– Não aguento mais a sua positividade tóxica! – bradou a filha. O pai ficou duplamente surpreso, pois não esperava tais conteúdo e forma. O silêncio durou alguns segundos, aqueles que parecem uma eternidade. Os olhares se evitaram. Minutos antes dessa ruidosa manifestação, ela desabafara sobre o quanto estava cansada de estudar no contexto da pandemia. Ele, na intenção de apagar as primeiras chamas da angústia filial, discursara sobre a importância de se escolher uma perspectiva que não torne o cenário ainda pior. Enfatizara, ainda, que tal aprendizado não é fácil, mas que ele era um ingrediente essencial para tornar a vida mais prazerosa. Sentindo-se consternado, não sabia o que fazer ou dizer. Uma coisa é certa: até aquele momento, ele sempre acreditara que apenas a negatividade era tóxica!

SINAIS DE VIDA >>> Nádia Coldebella

Caros Leitores Hoje me delicio com uma proposta experimental, pelo menos para mim. Espero que vocês apreciem a experiencia de uma vídeo-poesia.  

DA MENTIRA BEM CONTADA >> Carla Dias

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Ela tem o hábito de nunca concordar plenamente. Consente, mas nunca sem apresentar dúvidas, daquelas possíveis de serem utilizadas, durante processos judiciais. Há quem chame essa habilidade de inteligência, mas se trata mesma é da falta dela aos que se permitem ser convencidos, porque dá trabalho lutar contra, principalmente quando é a favor de anônimos. No café da manhã, mente ao marido, apenas para treinar outra habilidade adquirida, com serenidade e desdém. Na hora do almoço, quando se encontra com o filho mais velho, aponta todos os defeitos dele, como se fizesse uma longa oração, garantindo assim que ele compreenda o poder que a mãe exerce no futuro sonhado por ele. São as conexões dela, criadas por ousadias que coram até os mais descarados déspotas, que o levarão ao lugar que ele acredita ser dele.  À noite, ainda no escritório, delicia-se com pequenos prazeres: manter o assistente até mais tarde, no dia em que ele tem aquele concerto para o qual comprou ingressos há meses. Pedi

FICA AQUI O MEU APELO >> Clara Braga

Sei que todo mundo já está meio de saco cheio de ouvir falar de pandemia, então, decidi mudar um pouco o foco da crônica de hoje.    Quer dizer, eu quase te enganei não é mesmo? Ainda vou falar sobre pandemia, já que nada de muito diferente acontece nessa minha vida de idiota que, tirando demandas de trabalho, ainda segue as recomendações de distanciamento social. Só não vou focar em seu aspecto trágico, mas sim em dois novos hábitos adquiridos nesse período que eu adoraria que fossem mantidos para sempre.  O primeiro, e mais simples deles, é tirar o sapato quando entra em certos locais. Desde que voltamos a levar o Theo para a casa dos avós ou nas raras vezes que fui fazer trabalho na casa de algum cliente, achei simplesmente libertador ficar lá com os pés descalços. Pode parecer besteira, mas para mim, casa e sapato sempre foram coisas que não combinaram muito. Então, se depois que a pandemia acabar, você me chamar para ir à sua casa, tudo bem se eu ficar descalça?  O segundo hábito

MAIS REAL QUE O REI >> Albir José Inácio da Silva

  O Ford Galaxie foi fechado pela joaninha num acinte que surpreendeu o diretor. A sirene estridente já o incomodava há dois quarteirões, mas, o que era isso agora?   - Abre a mala, Doutor! – aquele tratamento era por causa do carrão e do terno, mas eles estavam sérios – Documentos, por favor!   - Tá aqui o flagrante! – gritou de trás do carro o outro soldado.   Não sei se por vingança contra a tirania administrativa, a verdade é que grassam nos ambientes de trabalho muitas histórias sobre situações ridículas protagonizadas por diretores e presidentes.   Aquele era o primeiro emprego e eu, adolescente, fiquei encantado com a narrativa que alimentava meu rancor proletário, antes mesmo de saber o que é mais-valia. Mas voltemos ao caso.   Alguns minutos antes de ser fechado pela joaninha, o diretor, a caminho de casa, onde a patroa o esperava para o almoço, parou no sinal e olhou em torno com cara de diretor.     Na calçada à direita estavam alinhados oito medidore

DEIXA EU BAGUNÇAR VOCÊ >> Sandra Modesto

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  A solidão me desloca das palavras. Desloca Sara das palavras. Mas eu só preciso delas. Do abraço, do riso, da minha busca. O ruído esculpido nesse meu atravessar de não conquistas. É noite. O corpo flertando com o espelho. No espaço entre gavetas abandonadas, algumas lembranças, espartilho, rendas. Sem tesão pelos saltos dos sapatos. Enfio todos no vagão do armário. Só, percebo a mulher que um dia eu fui. Acaricio cada vírgula corrida, rímel seco, batom vencido, vaidade do avesso. Como o confronto com a libido dos sons  resistem? Sara, não sei se você sabe. Não, não, não vou contar. Abro a caixa de fotografias antigas. Minha avó, meu avô, meus tios. Descobri há pouco tempo histórias estranhas. Pensando bem... Jogo tudo dentro do peito. É no memorial dos sentimentos, que a gente recria que a gente esquenta água, passa um café, respira e mascara o dia. Um dia eu conto pra Sara. Deixa eu me bagunçar primeiro. (trecho de um conto do meu próximo livro. Imagem: Acervo

O LIVRO DOS CARREGADORES - 5a e talvez última parte > Zoraya Cesar

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Resumo dos capítulos anteriores -  Miguel Arcanjo – sim, ele mesmo – procurou a ajuda de um velho amigo, companheiro de muitas batalhas contra o Mal, para recuperar um objeto  e castigar o demônio que assassinara o Carregador.  Lucrécio Lucas chegou a uma conclusão bastante perturbadora, até para ele, acostumado ao medo, até para ele, respeitado e temido. Lutar contra o Mal era sua profissão. Seu modo de vida. Talvez de sua morte.  --------------------- Lucrécio Lucas sabia que o Arcanjo daria conta com tranquilidade da assassina, de resto, um demônio de casta inferior. O problema maior era o humano a quem o demônio entregaria o produto de seu roubo. - Fale, amigo, a quem você acha que a mulher demônio vai procurar? Havia poucos – pouquíssimos, na verdade - mortais que poderiam abrir um objeto carregado daquela espécie de magia de trancamento. Alguns pertenciam ao lado da Luz. Dentre os que pertenciam às Trevas, havia um, em especial, talentoso e audacioso o suficiente. Um adversário à

IGNORÂNCIA >> Carla Dias

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Como é eficaz a ignorância. Ela consegue manter um indivíduo no mesmo lugar, durante toda sua vida. Engessa a sua capacidade de fazer planos, define a hierarquia existencial desse alguém. Ignorância é produto caro aos doutores em manipulação. Não são somente as atrizes e os atores que oferecem ilusão. Na verdade, a ilusão é a roupa de domingo da ignorância. E ela, a ignorância, é bicho de estimação de muitos. Há quem se atraque à ignorância para encarar certa preguiça em lidar com o que há em comum entre os indivíduos. Acho muito curioso aquele que escolhe ignorar deveres básicos, adotando o comportamento que o coloca como centro do universo. Ignorância atrelada à prepotência é prato ainda mais apreciável aos que sabem tirar proveito de quem se nega a aprender com a vida, ou que, às vezes, não sabe nem por onde começar este processo. Acontece que ignorância é coisa maluca mesmo, um tipo de corrente que limita a liberdade, mas de um jeito que faz a pessoa acreditar ser acionista majorit

NOTÍCIAS DE OUTRO MUNDO >> Clara Braga

Os parques da Disney estão abertos. Você não pode abraçar o Mickey, mas se ele passar perto de você, você pode dar um tchau, mandar um beijo e ir brincar em algum brinquedo depois de passar álcool nas mãos.   Em Paris, tudo indica que os desfiles de moda voltarão a acontecer em breve. Imaginem a vontade que muita gente não está de comprar uma roupa nova e poder usar por aí, ao invés de guardar no armário e ficar um ano olhando para aquela roupa com etiqueta.  Em Nova York, quem é apreciador de musical já está comprando seu ingresso para alguma peça da Broadway. Que maravilha ver que, pelo menos em algum lugar desse mundão, o setor cultural começa a se movimentar novamente.  Na Inglaterra, 5 mil pessoas foram ao primeiro festival de música pós Covid. Ninguém de máscara e nada de distanciamento social, apenas muita felicidade em poder fazer um programa que parecia extinto. Confesso que o costume de viver uma pandemia já tomou conta de mim, quando vi as imagens do festival, fiquei apavora

5 x 1 >> Alfonsina Salomão

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  Hoje, excepcionalmente, é Nina Said, meu alter ego, quem escreve. Se vocês gostarem, tem mais histórias com a sogra lá no blog dela : www.minhasografrancesa.com Já faz algum tempo que não escrevo sobre a sogra francesa, por dois motivos: primeiro, pensava haver resolvido, ao menos na minha cabeça, nossa relação; segundo, porque o coronavírus nos forneceu uma razão legítima para não nos encontrarmos. A distância e o tempo quase me fizeram esquecer as maldades de Chantal. Nas vésperas do aniversário da minha filha, o Facebook propôs a lembrança de um lindo moisés de vime branco, enfeitado com uma renda alvíssima e laços de cetim. A sogra preparou este bercinho para Jasmim, assim como havia feito para seus filhos e netos que chegaram antes dela. Enternecida com a memória, postei a foto, dando-lhe os devidos créditos. Vários amigos comentaram, admirados com a beleza do moisés e o capricho da sogra. Até pensei mudar o nome do blog. Comentei com o marido, acrescentando que no final das con