DUAS >> Carla Dias

Imagem: Dos Mujeres © Diego Rivera

São apenas alguns anos de diferença, habilmente estreitados pela necessidade de dividirem quarto, cama e faltas, assim como as gargalhadas e berros, que sempre foram passionais em suas determinações.

Havia um mundo inteiro lá fora que elas ainda não conheciam. Ainda não sabiam quantas vezes seus corações seriam partidos ou que a vida as faria imensamente felizes. Nasceram em lugar e condições difíceis, mas ainda assim se perdiam pelo quintal e dividiam brincadeiras. Eram sucos inventados e desfiles improvisados sobre a terra batida de um quintal que era o mundo que conheciam. A conexão entre elas vivia da profundidade estabelecida no primeiro encontro.

Então, as portas do mundo se abriram.

Conheceram tantas pessoas, amaram algumas e se deram mal com outras, porque nunca tiveram problema em admitir que não gostavam daquilo ou daquele. Sentaram-se à mesa – um dia na casa de uma, outro dia na de outra – e durante horas falaram sobre quem eram, o que desejavam, o que sentiam que faltava ou excedia. Fizeram planos que sabiam que jamais colocariam em prática, mas que as ajudaram a compreender os caminhos que deveriam trilhar, a fim de se aproximarem ao máximo da realização dos seus desejos.

Trilharam vários caminhos equivocados, como cabe a qualquer ser humano. Colecionaram dores, compartilharam muitas delas... e as alegrias. Vieram os filhos, aquelas criaturas que ambas desejaram conhecer, e que, ao conhecê-las, encheram suas vidas de significado.

O amor entre elas nunca foi tranquilo, mas nem por isso menos gentil. É justamente a capacidade de discordarem que às vezes as leva aos rompantes e aos rompimentos: dizem o que nunca desejaram dizer. Afastam-se como se nunca mais fossem se encontrar. Então, vem o tempo e os acontecimentos e as colocam novamente ali: à mesa, servindo-se de café, envolvidas em uma conversa que vai do mais leve entretenimento às confissões sobre contundentes dores. Observando filhos e netos e pensando em como chegaram ali, acolhedoras daqueles milagres.

Do passado recente, as últimas punhaladas da dor foram extremamente cruéis para ambas, quase que ao mesmo tempo. Mais uma vez, tornaram-se tempestades e se manifestaram simultaneamente. Esqueceram de todas as vezes em que, ainda crianças, dormiram uma no abraço da outra. Não conseguem pensar no que aprenderam juntas, dispostas a mudar a própria caminhada pela realidade. Nublaram-se as gargalhadas, o sempre trocado amparo, as longas conversas capazes de as fazerem sentir leves.

Passionais... Tempestades.

Se houvesse como voltar no tempo para observá-las sem pressa, seria possível compreender que nasceram uma para a outra. Uma nasceu para ser a pessoa da outra. Há uma beleza inquestionável ali, que define a conexão genuína entre dois seres humanos. Genuína, porém desafiadora, que às vezes funciona somente aos berros e lágrimas.

Não é apenas na contemplação e na suavidade que o amor existe e se fortalece.

Se elas pudessem observar a si mesmas pelo olhar do observador, saberiam que ambas estão feridas, desalentadas e nunca precisaram tanto uma da outra. E que talvez seja melhor diminuir as pausas entre as tempestades que as afastam. 

Porque elas sabem, ainda que tentem se convencer que não, que nasceram irmãs, mas não apenas irmãs. Nasceram para ser a pessoa uma da outra. 

Que se abracem.


Imagem: Dos Mujeres © Diego Rivera

carladias.com


Comentários

Zoraya Cesar disse…
Que belo texto fraterno, Carla! E que saudades do Observador! Mas elogiar você tá virando um exercício, pois vc tá sempre melhor.
Albir disse…
Além de belo, Carla, seu texto parece traduzir todos os amores.
Carla Dias disse…
Obrigada Zoraya e Albir! Beijos pra vocês!
Paulo Barguil disse…
As palavras da sua crônica, Carla, são como as irmãs relatadas. :-)
Carla Dias disse…
Paulo, obrigada por querer conhecê-las. :)

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