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Mostrando postagens de Maio, 2009

A VÍTIMA É O CULPADO >> Eduardo Loureiro Jr.

E eu que pensava que era o mordomo. Nossa cultura falante e extrovertida sempre desconfia dos calados e misteriosos. Mas o culpado, vejam só, era a própria vítima. Por trás daquela carinha triste -- de dar dó -- estavam as mais perversas intenções, desconhecidas até dela própria.

Hoje as vítimas não me dão mais pena, mas me fazem achar graça. E quando a vítima não é sonsa -- e nem lhe passa pela cabeça que ela é que é a culpada -- aí rio a valer. É como uma daquelas comédias antigas em que o palhaço flerta inconsciente e desajeitado com o perigo.

Quando alguém faz carinha de pobre coitado, eu já começo a armar meu sorriso. Quebrou o pé porque pisou num buraco? Perdeu o emprego numa demissão coletiva? Foi largada pelo marido ingrato? Tá com vontade de processar a prefeitura, pedir indenização, exigir pensão? Chega, gente. Eu não posso rir demais senão me dói a barriga.

Parei de assistir aos telejornais porque prefiro outro tipo de comédia -- mais positiva. E, mesmo rindo, a exposição cons…

INQUIETAÇÕES [Sandra Paes]

Me pego tamborilando os dedos sem melodia ou ritmo. Não há um pensamento sequer que justifique essa arritmia. Não, não procuro uma música pra justificar o tamborilar. Tem gente que rói as unhas, olhares fixos na batida de falta diante do gol, à espera de uma vitória para seu time de futebol. Nem isso... Não me treinei pra ser torcedora, daquele tipo que anda pra lá e pra cá, fala alto com o locutor ao longe e diz palavrões para o técnico que do lado de fora também anda pra lá pra cá - e berra: “Seu ****!”

Também não é esse o contexto. A televisão pode estar ligada com qualquer um falando sobre o tema de sempre: tragédias, queda da bolsa, queda do dólar, justificativas diversas pra abandono, fome, perda total de casas, não importa se por devastação de águas, bombardeios, tornados ou outros desastres provocados pela briga incessante entre os países. Também não é isso...

Descubro que há uma água que corre desmedidamente no banheiro, vinda de algum lugar. De novo? Deixaram a descarga vazand…

ME ENTERREM COMO RIMBAUD >> Leonardo Marona

Hoje eu li um sonho. Ontem à noite eu vi um sonho. Hoje eu vou escrever um sonho. Começar dizendo que os sonhos são tão inúteis quanto um tostão nas mãos de um bêbado. Ou uma abóbora aos pés de uma Cinderela. Ou um livro na frente de um intelectual de esquerda dos 20 aos 30 anos. Os melhores sonhos escritos duram uma eternidade, sempre além de quem os sonhou. Leiam algumas histórias fantásticas de algum velho barbudo fantástico e vocês vão entender. Ou então não vão entender. Meu último sonho eu não me lembro. O que me lembro não foi o último e só sei que estava grávido. O lado bom era o barrigão. O lado ruim, as palpitações, os chutes no céu da boca, as tripas torcidas e os jatos de merda pelos poros. Noutro sonho, que me lembro vagamente, era comido por crocodilos famintos. Começaram pelas pernas. Atenderam aos meus suplícios. As pernas, as pernas! Se forem um dia me matar, comecem sempre pelas pernas, de modo que eu não possa fugir. Sempre que puder fugir vou fugir. Não tenho os pu…

UMA HEROÍNA MODERNA >> Kika Coutinho

Era um típico sábado de verão em São Paulo.

O cenário era a praça Vilaboim, um lugar de calma e tranqüilidade dos descolados da cidade. Lá, nas mesinhas que ficam na calçada, jovens e famílias conversaram, petiscando e cervejando alegremente até que, como um típico dia de verão, o sol deu lugar à chuva e, num instante, grandes pingos caíam do céu. Foi aquela correria, todo mundo entrando nos bares, garçons levando as mesinhas, mulheres protegendo a chapinha, homens protegendo as cervejas. Nesse imbróglio, um pai foi correndo buscar o carro para a esposa e os bebês – gêmeos – que ela tentava esconder sobre a capa do carrinho.

Foi aí que o fato se deu. O homem chegou com o carro e estacionou na frente do bar, um lugar proibido, apenas para abrir o porta-malas, guardar o carrinho, ajeitar as crianças nas cadeiras pregadas no banco de trás e, por fim, abrigar a esposa que, a essa altura, já estava encharcada. No entanto, nesses rápidos segundos, uma senhora de amarelo apareceu com um bloco …

URGÊNCIAS >> Carla Dias >>

Quando vários acontecimentos atropelam meu momento, chamo o evento de “tudo ao mesmo tempo agora”, que pode até ser título de livro que ainda não li, mas para mim também é a combinação de palavras que melhor expressa a urgência para a qual nem sempre estou preparada.

Eu estou acostumada às urgências do cotidiano. Consigo me adaptar ao tempo do mundo e cumprir meus horários, e apesar de não ir com a cara do calendário, aceito minha condição de gente e marco ponto. Raramente me atraso para os compromissos, acontece até, frequentemente, de eu chegar adiantada e ficar à toa, vendo a banda passar.

Descobre-se muito sobre a vida vendo a banda passar.

Mas como dizia, as urgências cotidianas não me cutucam, porque eu as executo no piloto automático, como acho que deve ser, senão as importâncias acabam sendo direcionadas para o que nada mais é do que uma ferramenta para a sobrevivência. E simplesmente sobreviver, sem seguir adiante e abraçar a vida, sem viver a vida, para mim é o mesmo que cair n…

À MODA DE UM TESTAMENTO
>>Eduardo Loureiro Jr.

E se esta não fosse apenas mais uma crônica de domingo? E se fosse a última? E se daqui a uma hora e meia eu perdesse completamente a memória, desaparecesse ou simplesmente morresse? O que eu deveria escrever se esse fosse meu último registro escrito, se fosse por meio deste texto que as pessoas compreenderiam minha partida inesperada e toda a minha vida?

Talvez fosse bom eu deixar um testamento. Mas eu tenho tão pouco... Os livros e os jogos -- eterna companhia e aprendizado -- para a sobrinha. Os escritos -- substitutos dos filhos que não tive -- para a família. Os computadores -- extensões do corpo e da mente -- para a mulher. As roupas e os órgãos -- incluindo os olhos castanho-esverdeados -- para doação. Mas os testamentos são muitas vezes uma tola tentativa de continuar participando quando não se pode mais participar, de compensar algo que ficou por ser feito. Ser a companhia, o aprendizado, os filhos, a extensão, o agasalho e o auxílio que não se quis ser em vida.

O que se pode d…

O CASARÃO [Carla Cintia Conteiro]

Ouvi tanto a vida inteira sobre a responsabilidade na escolha do par com quem se irá dividir a vida. Alguns falam de amor, paixão, companheirismo. Outros, nem um pouco românticos, destacam que importante mesmo é ter a seu lado alguém cujos defeitos se possa tolerar. Sabido é que não se pode ser estabanado no momento da decisão, pois há também que se considerar o pacote que pode vir junto, com ex-esposas rancorosas, filhos chatinhos, sogra intragável, cunhados abusados, enfim, uma família que não é sua, mas vai ser bastante familiar. Com sorte e boa estratégia de colocação, vão estar todos a uma distância confortável que não dá para vencer até sua casa de chinelo, nem precisarão vir de mala. Entretanto poucos levam em consideração as pessoas com quem provavelmente vão conviver e de quem, quando se aproximam, normalmente sabem pouquíssimo ou nada a respeito: os vizinhos. Na loteria de convivência, diria que esta é a aposta mais cega. Os meus, por exemplo, eram péssimos.

Quando mudei para…

HOMEM DE NEANDERTAL >> Leonardo Marona

O que se sabe é que o homem de neandertal foi extinto porque não tinha medo. Se jogava em qualquer buraco, abria espaço com os próprios punhos, tinha crença numa linha reta, inescapável. Todos morreram, invariavelmente, por não terem medo. E nos dizem diariamente: “Vamos, não tenha medo”. Repetimos diariamente os gestos do homem de neandertal. Primeiro abrimos as gavetas erradas, de lá tiramos a venda com que falece o nosso discernimento. Vestimos a venda e cuidamos da pele; para não envelhecer, vejam só! As carnes demoram em nossos estômagos, precisamos invadir as cavernas mais escuras, buscar uma ilusão de marfim e azul ciano. As frutas são sensações rápidas, beijos gelados na testa em chamas. Mas dos nossos corpos sumiram os pêlos, uma radioatividade secular enegrece os nossos pulmões e dá de comer a bactérias caninas. Nossa fome nos leva aos encontrões pelas ruas, rumamos pelo espaço curto em busca da distância comprida. Desempenhamos tarefas cotidianas que são como pular em burac…

ANTES DE NÓS HOJE >> Carla Dias >>

Domingo passado, uma amiga muito querida veio me visitar, e enveredamos por lembranças desde a época em que nos conhecemos. E aí já se contabilizam vinte e três anos.

Eu e a Fátima estudamos no mesmo colégio, em Santo André (SP), o Américo Brasiliense. Caímos na mesma classe no primeiro ano e - indo contra a minha total falta de capacidade de fazer amizades, que na época dava um banho na atual -, nos demos bem logo de cara. Daí para dividirmos a fileira das carteiras, os trabalhos, o lanche na hora do intervalo, as mágoas e as alegrias, enfim, foi um pulo.

Nossa amizade inclui algumas aventuras... No bate-papo domingueiro, a Fátima relembrou do dia em que a carreguei para o show do Bon Jovi, em janeiro de 1990. Veementemente, passional como sempre é, ela frisou que era o Hollywood Rock, não o show do Bon Jovi... E era mesmo, mas para mim era o show do Bon Jovi! Também disse que eu a usei... Que a escolhi porque ela sabia chegar ao estádio, pois assistia a jogos de futebol com o pai, e e…

CRÔNICA DE QUE NÃO LEMBREI INTEIRO
>> Eduardo Loureiro Jr.

Quando a Terra era pequena, quase nada, quando ainda estava na barriga, alguém lhe deu um forte abraço e ela ficou — nos pólos — achatada.

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Cresci juntando um tesouro: deveres de casa velozes, leitura dinâmica, frases curtas, longos longos silêncios... ... ... Meu tesouro de tempo.

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Maturidade é fruta madura no pé, não está ali pra se exibir — bonita — mas pra se comer.

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Quando a gente já tem muito, não pode mais se dar ao luxo de só receber.

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Neste mundo, onde tudo é pra ser visto, quanto mais me vejo eu, mais cego eu me sinto.

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Tesouro agora é brilho de olhar.

ELA ERA IMENSA [Ana Gonzalez]

A bandeira era imensa. Eu não poderia dizer seu tamanho nem metragem, porém imagine que o lugar onde ela deveria chegar era um mastro de concreto de dezenas de metros de altura no meio de uma pequena praça no centro de São Paulo. Imaginei seu vôo lá no alto.

Uma fotógrafa acompanhava sua lenta subida. Descobria ângulos especiais enquanto uma dúzia de pessoas, entre as quais alguns soldados de alguma corporação, lhe fazia companhia. Havia também um carro de bombeiros e o seu pessoal. E uma ou outra pessoa em janelas dos prédios à volta, como eu, espiavam a tarefa de colocá-la nesse lugar tão alto.

Eu havia parado na passarela de pedestres que liga o canto do Vale do Anhangabaú ao terminal de ônibus da Praça das Bandeiras. Recostei o antebraço no parapeito e me debrucei um pouco para ver até onde ia o mastro por onde ela começava a subir. Vai demorar, pensei. Içá-la não vai ser fácil. Fiquei. Acomodei melhor o braço para descansar do peso da bolsa grande e cheia de papéis e outras coisas,…

MA VIE EN ROSE >> Leonardo Marona

Este é seu, você que me chama de branco. Você que fala com o sol e tem milhões de protetores cósmicos, você redoma viva do meu bom-senso, este aqui é todo seu, minhas lágrimas que escorrem, e todas as lágrimas são de alegria e tristeza, sem distinção, mas este aqui é só para você, essência duradoura do meu rasgar de pele. Quero ouvir por muitos dias suas rezas sentada feito Buda com a janela aberta e o vento nas cortinas. Quero, sim, dormir de conchinha porque é quando somos todos os casais. Quero também te entregar meu discernimento raso, meu copo tão cheio de peso tão morto. Nós somos os carbornários, meu amor, as avalanches usam braços invisíveis para nos arrastar sem olhos. Mas agradeço, agradeço pela nossa comunhão de corpos, nervos e dores. Agradeço por cada pedaço arrancado na tentativa absurda de querer estudar o inqualificável. Agradeço por La Vie en Rose na versão de Grace Jones. Obrigado pelas noites dignas de Henry Miller e pelos ataques súbitos de emoção, por mergulhar co…

Das irritações cotidianas >> Kika Coutinho

Você está lá, comendo o seu pão de queijo delicioso, talvez recheado de requeijão, talvez puro, mas o momento é de absoluto prazer. Chega alguém. Um amigo, um parente, um inimigo. Você, gentilmente, oferece um pedaço. Pausa. Parem a cena um instante e avaliem, qual a pior resposta que podem receber, desse visitante incômodo que veio só lhe dizer um “oi”? “Aceito, claro”, seguido de um esticar de mãos e uma babada no que sobrar do seu quitute. Pode parecer ruim, mas, o meu mais profundo pavor não é esse. O que me gela o coração, nessas horas, é se a pessoa pegar o pão de queijo e disser, quase que solidária, “Ah, você não quer mais?”. Pronto. Você terá de dizer: “Não, não, eu quero sim, te ofereci só um pedaço.” Ou, se for mais tímido e resignado, aceitará: “É, não queria mais mesmo”, e terá seu dia arrasado por perder o melhor pedaço dele.

Mas o sol nasceu para todos e, um dia, você experimentará o contrário. Saia para jantar com o marido, com um amigo, ou amiga, tanto faz. A noite est…

DO OUTRO LADO DA PORTA >> Carla Dias >>

Um amigo, certa vez, mostrou-me um roteiro de um curta que escreveu. O que me lembro dele é da incapacidade de o personagem girar a chave, abrir a porta e sair daquele universo que criou para si mesmo. O tempo todo, o personagem acha que aquela chave não existe, percebe-se numa prisão, mas ela está lá, ao alcance dele, enquanto o mesmo pede por socorro, para que alguém o tire dali.

Todos nós temos a capacidade de criarmos esse cenário de aprisionamento. Não é preciso ser infeliz para fazê-lo, basta se manter estático, não desejar sair do lugar, seja esse lugar abrigo para tristezas ou para alegrias. A falta de nuanças na vida da gente é das prisões mais receptivas, e nos recebe e acomoda sem mesmo percebermos entrar nelas.

Eu tenho uma coleção nada modesta de prisões, que acredito alimentar diariamente apenas ignorando a versatilidade da vida. O que me permite sair para o sol diário, passar apenas algumas horas na solitária, é a certeza de que quando não conseguimos fazer um movimento q…

CRÉDITOS QUASE FINAIS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Olhar retrospectivamente costuma deixar as coisas mais claras, e nos vem a tentação de achar que tudo poderia ter sido diferente – melhor – se apenas tivéssemos feito isso ou aquilo. Dizemos para nós mesmos “se fosse hoje, eu faria assim” ou, o que é ainda pior, “da próxima vez, farei assim”.

Tem quem ainda vá além e se ache no direito de sugerir a outras pessoas – alegando conhecimento de causa – que procedam desta ou daquela maneira simplesmente porque seria assim que procederia agora. Por vezes não admitimos que os outros cometam nossos próprios erros. Dificilmente nos ocorre, ao recapitular qualquer coisa, que tudo pode ter ocorrido da melhor maneira possível, e isso inclui – às vezes, especialmente – aquilo que parece não ter dado certo.

Esta é a derradeira crônica que escrevo da Itália, após oito semanas de viagem, e, nesses dias, me peguei pensando...

Da próxima vez, permaneço somente um mês e em um único lugar. Faço escola apenas duas horas pela manhã, e aproveito mais a cidade. …

OUVIR CONTAR [Cristiane Magalhães]

Sabe aquelas amigas que a gente conhece no final da adolescência, mas que parece que foram nossas confidentes a vida toda? Tenho a alegria de ter uma amiga assim. Tempos atrás, ela estava começando um relacionamento e me revelou um temor que a assaltava sempre que novos amores se iniciavam. O medo dela não era que ele tivesse chulé, fosse grosseirão, falasse tudo errado, que tivesse uma mãe “naja”, uma ex-mulher psicopata ou filhos pestinhas, que fosse “mão-de-vaca”, conversasse com a boca cheia, enfiasse o dedo no nariz na frente dos outros ou que fosse covarde, medroso, alcoólatra, sadomasoquista... nada disso a assustava. O que ela temia de verdade era que o assunto acabasse.

Imagina: quatro, cinco, onze meses de namoro é tempo suficiente para contar das traquinagens da infância, dos amores da adolescência e das besteiras que fazemos na juventude. É tempo bastante para conhecer sogro, cunhada, cachorros e colegas de trabalho. Neste período, revela-se o passado e as pretensões do fut…

EFEITO DA SOMBRA DE UMA MARIPOSA >> Leonardo Marona

Estava pronto para – não estava pronto – escrever o que não havia conseguido presenciar com a devida entrega, quando reparou na sombra de uma mariposa pousada sobre seu travesseiro e aquilo era, só poderia ser uma anunciação de que algo cobriria novamente suas expectativas com gracejos e reduziria as teorias sobre a substância de deus e da ordem e da moralidade a doze balas de tédio no peito de uma senhora que carregava compras e foi coberta pelas cinzas as mesmas que fizeram com que sua substância transitória – agora que se lembrava da senhora na rua, além das ruas da senhora na rua, do seu tranqüilo desprezo e das suas unhas aquilinas – se encarregasse de tardes autenticamente vagas e fundas quando se pensa por quanto tempo os pregadores serão foices e os pacifistas o boca-boca das novas epidemias sociais e, nesse meio-tempo, entre a vontade e a necessidade no duto da liberdade limitada pelo amor que é chumbo e culpa e bem pouco liberdade, ora pensando no pó de vidro que sufocou Esp…

Ele me ensinou >> Kika Coutinho

Ele ensinou a gostar de salada, eu o ensinei a não recusar a sobremesa.
Ele me ensinou a usar tênis, eu o ensinei a usar camisa pólo.
Ele me ensinou a assoviar, eu o ensinei a gritar.
Ele me ensinou a ser forte, eu o ensinei a ser calmo.
Ele me ensinou a correr, eu o ensinei a andar um pouco mais devagar.
Ele me ensinou a achar todos os caminhos da cidade, eu o ensinei a perder-se um pucadinho...
Ele me ensinou a fazer musculação, eu o ensinei a dormir até mais tarde.
Ele me ensinou a persistir, eu o ensinei a boa prática de, vez outra, desistir.
Ele me ensinou a gostar de trabalhar, eu o ensinei a gostar de estudar.
Ele me ensinou a ser pontual, eu o ensinei a perder a hora.
Ele me ensinou a usar o excel, eu o ensinei a ler blogs.
Ele me ensinou a comer queijo trancinha, graviola e rúcula.
Mas eu o apresentei os sorvetes Rochinhas - e sei que ele será grato por isso até o fim dos tempos.
Eu o ensinei Fabio Jr. e ele me mostrou Jack Johnson.
Ele me ensinou toda a matemática que eu sei, mas eu o ens…

ORAÇÃO DO ANJO >> Carla Dias >>

Quando ouvi essa canção pela primeira vez, identifiquei-me com a letra logo de cara. Depois ela sumiu de mim, mas voltou e há dias reverbera no meu dentro, como se houvesse alguém cantando na sala de estar da minha alma, fazendo ecoar as minhas próprias buscas e fantasias. Embaçando o olhar acabrunhado de quem quer comer na mão das descobertas, mas se mantém inerte.
“Não permita, Deus, que eu morra/sem ter visto a terra toda/Sem tocar tudo que existe /Não permita, Deus, que eu morra triste”
A terra toda tem sido as notícias que chegam por e-mail, pela televisão, pelo jornal, pelo telefone, pela boca da vizinha fofoqueira. As conversas com as tias, irmãs, com mãe e amigas, durante um café, uma coca-cola, um bom vinho ou uma caipirinha de saquê com maracujá, durante a secura, a aridez da ausência de nem sei o que pode ser.
“Dai-me a graça/de viajar de graça/por essa esfera afora/de virar uma linda senhora /Uma linda lenda”

Conheço lindas senhoras... Algumas delas sorriem com o olhar, sile…

O Borogodó das Gordinhas >> Claudia Letti

Foi observando as amigas solteiras e insatisfeitas com a sua vida afetiva (ou melhor, com a falta dela), que comecei a abrir o leque do meu "observatório" para tentar entender por que pessoas tão bonitas quanto interessantes, e que buscam realmente alguém pra namorar, continuam sozinhas. E, enquanto fui listando mentalmente as solteiras e as namorantes, percebi que as amigas gordinhas parecem estar sempre acompanhadas. A bem da verdade, não é de hoje que tenho essa cisma, amplamente fortalecida pelos suspiros de algumas das magras que, a cada vez que enxergam uma roliça bem acompanhada, não escondem a frustração em frases brincalhonas do tipo "e eu aqui, com tudo em cima... sem ninguém".

Diante deste quadro de Renoir, fui buscar uma paleta de homens variados para dar mais consistência à minha pseudoteoria, "entrevistando" 14 rapazes de diferentes faixas etárias e estados civis. A pergunta bedelhuda e sem rodeios "você namorou/casou ou namoraria/casari…

E AGORA? >> Eduardo Loureiro Jr.

Já lhe aconteceu alguma vez acordar e não ter a obrigação de fazer nada durante o dia? Não ter que se levantar, não precisar fazer nada pra ninguém, não ter que trabalhar, não precisar encontrar pessoa alguma, não ter que consertar algo ou fazer compras pra casa... Um dia assim já lhe aconteceu?

Comigo tem acontecido com alguma frequência, e isso já antes de eu começar essa longa viagem. Tem dias que chego mesmo a pensar que a vida pode ser, cotidianamente, assim. Parece o paraíso. É como ganhar na loteria. E realmente há muita sorte e fortuna em viver assim.

A maior dificuldade -- e eu a tenho enfrentado algumas vezes -- é lidar com uma simples pergunta: "E agora?".

Sim, você acordou. E agora? Tudo bem: levantar, mijar, lavar o rosto, tomar café, escovar os dentes, cagar... mas e depois? O "e depois?" não é nada, acredite. A coisa fica realmente feia é quando o "depois" chega e vira "e agora?".

No princípio, a tendência é a gente repetir aquelas co…

ONDE ESTÁ A NOTA, VERDI? [Ana Gonzalez]

As ondas do rádio começam a falhar. Na sintonia do meu som, entra uma melodia estranha fora do esperado. Diminuo a velocidade do carro, dou um giro no dial. Um pastor fala a fiéis e tenta salvar-lhes a alma. Não seria má idéia salvar também minha alma dos pecados do mundo. Porém, não agora. Chegou a hora do CD.

Meu carro roda pela estrada quase vazia. A paisagem continua verde, ampla, embora o céu nublado me negue a luz do sol e o azul do infinito. Qual CD escolher dos que separei? Nesse tipo de escolha é preciso atentar para um desejo determinado. Não é qualquer tipo de música que servirá. Quero algo que combine com o momento. Uma ópera de Verdi poderá compor um acorde sonante. Suas notas irão fazer agora a sonoplastia da viagem.

Chegam as personagens com suas roupas de século dezenove, coloridas. Arma-se o cenário de pesadas cortinas, praças, salões. Tudo é chamado como companhia, no que tinha sido até agora a natureza em sua imensa e bela solidão. Violeta, Alfredo e seu sonho de amor…

PORTO ALEGRE >> leonardo marona

ah, esse passo a passo surdo-mudo,
essas ruas que são gavetas vazias,
ah, essa família em paz, silenciosa,
essa carência inútil de tocar a pele.
ah, que triste esse bar escuro, frio,
com homens apinhados em território
de madeira de lei e frases mortas.
ah, como sinto-me próximo desse
fechar e abrir de mandíbulas áridas,
enquanto gurias correm e gargalham,
passando azuis pelo parque infestado
de camisinhas usadas e lembranças
pela metade e, ah, elas vão nas ruas!
as meninas, para onde elas correm
tão rápido, meninas que gargalham?
ah, porto alegre! as meninas que mal
sabem mas, também elas, perderão
tudo isso algum dia, mesmo assim
elas correm, as meninas, a passo
firme, para frente elas seguem juntas
e para muito, muito longe de nós.http://www.omarona.blogspot.com/