UMA HEROÍNA MODERNA >> Kika Coutinho

Era um típico sábado de verão em São Paulo.

O cenário era a praça Vilaboim, um lugar de calma e tranqüilidade dos descolados da cidade. Lá, nas mesinhas que ficam na calçada, jovens e famílias conversaram, petiscando e cervejando alegremente até que, como um típico dia de verão, o sol deu lugar à chuva e, num instante, grandes pingos caíam do céu. Foi aquela correria, todo mundo entrando nos bares, garçons levando as mesinhas, mulheres protegendo a chapinha, homens protegendo as cervejas. Nesse imbróglio, um pai foi correndo buscar o carro para a esposa e os bebês – gêmeos – que ela tentava esconder sobre a capa do carrinho.

Foi aí que o fato se deu. O homem chegou com o carro e estacionou na frente do bar, um lugar proibido, apenas para abrir o porta-malas, guardar o carrinho, ajeitar as crianças nas cadeiras pregadas no banco de trás e, por fim, abrigar a esposa que, a essa altura, já estava encharcada. No entanto, nesses rápidos segundos, uma senhora de amarelo apareceu com um bloco na mão. Sim, era a guarda do trânsito, uma CET, um amarelinho como dizemos nas bandas de cá. Ela começou a multar o carro do homem que, entre o carrinho e cadeirão, tentava explicar, ele estava só buscando a família, era um minuto, estava chovendo, as crianças estavam gripadas, rapidinho, já estava acabando. Mas a senhora estava irredutível e mantinha-se dizendo que lá era proibido e pronto, ele não poderia estacionar, nem por uns minutinhos, e ela ia multar sim, senhor.

Uma pequena multidão que se amontoava dentro dos bares começou a prestar atenção no assunto, alguns ousaram gritar, outros pediram paciência, a multidão estava definitivamente contra a lei e a favor da família, não importa o que a senhora dissesse. A coisa foi tomando proporções maiores, enquanto uma moça jovem, que se escondia da chuva embaixo de um orelhão, observava tudo com um olhar diferente. Ela cutucou um manobrista, murmurou qualquer coisa e decidiu agir. Foi rápida como um raio. Num instante, numa fração de segundo, correu em direção à senhora CET que, bem nessa hora, gesticulava com os braços para cima, empunhando seu bloco de multas maquiavélico. Não foi possível contar até três. Um, dois e pronto, a menina simplesmente arrancou o bloco da mão da senhora e continuou correndo, sumindo dentro das árvores da praça. A multidão, atônita, fez um segundo de silêncio e, antes que a dona do bloco conseguisse abaixar as mãos (já vazias), o público começou a aplaudir: “Uhu, boa, boa, é isso aí!”, gritavam, rindo, eufóricos, enquanto a senhora de amarelo saiu também correndo atrás da menina. Mas não havia mais jeito. A multidão já havia se manifestado e muitos correram juntos, no meio da chuva, confundindo a vilã e tornando-se cúmplices daquela desconhecida, cúmplices daqueles dois bebês e daquela pequena família que, a essa altura, ria com gosto, abrigada dentro do carro, ainda no lugar proibido.

Soube depois que a menina se escondeu em uma farmácia da praça. Parece que o farmacêutico levou a moça para aquela casinha da injeção e ela ficou lá, trancada, vendo todas aquelas multas que nunca se concretizariam, por quase uma hora.

Ainda hoje, ela continua a passear na praça e ficou famosa. Todo mundo a cumprimenta, pergunta o que houve com o tal bloco de notas, e ela jura que jogou no lixo, mas, claro, no lixo reciclável do Pão de Açúcar ali do lado. Porque, afinal de contas, ela é uma menina muito, muito correta e afeiçoada às boas práticas sociais. Ninguém discorda.

Comentários

Carla S.M. disse…
Ana, texto fantástico! Adoro seu humor.
Ana, essa heroína é mais deliciosamente inacreditável que a Mulher Maravilha! :-)
Ana, eu pude até ouvir aquela musiquinha que toca nos desenhos de super-heróis. Adorei!:)

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