sábado, 23 de maio de 2009

O CASARÃO [Carla Cintia Conteiro]

Ouvi tanto a vida inteira sobre a responsabilidade na escolha do par com quem se irá dividir a vida. Alguns falam de amor, paixão, companheirismo. Outros, nem um pouco românticos, destacam que importante mesmo é ter a seu lado alguém cujos defeitos se possa tolerar. Sabido é que não se pode ser estabanado no momento da decisão, pois há também que se considerar o pacote que pode vir junto, com ex-esposas rancorosas, filhos chatinhos, sogra intragável, cunhados abusados, enfim, uma família que não é sua, mas vai ser bastante familiar. Com sorte e boa estratégia de colocação, vão estar todos a uma distância confortável que não dá para vencer até sua casa de chinelo, nem precisarão vir de mala. Entretanto poucos levam em consideração as pessoas com quem provavelmente vão conviver e de quem, quando se aproximam, normalmente sabem pouquíssimo ou nada a respeito: os vizinhos. Na loteria de convivência, diria que esta é a aposta mais cega. Os meus, por exemplo, eram péssimos.

Quando mudei para cá, muitos já estavam. Na verdade, soube nome de poucos deles, mas ouvia seus gritos, suas gargalhadas, seus urros que importunavam a todos ao redor esfregando nas nossas caras classe média o que a falta de educação e cultura pode ocasionar no senso de cidadania. Bebiam, brigavam, produziam lixo, alimentavam cães sarnentos, criavam os filhos, atraiam roedores e insetos e festejavam nuns casarões abandonados aqui perto. Eles tinham fuso horário diferente do meu e do da maioria trabalhadora da humanidade. Estavam sempre mais ativos nas tardes de domingo em que eu queria sossego ou competiam com os morcegos nas madrugadas.

Alguns se diferenciavam por pouco de mendigos, uns trabalhavam como ambulantes, quebravam galho lavando ou fazendo pequenos consertos em carros ou qualquer outro sub-emprego. A nobreza daquela ralé era composta por alguns porteiros da vizinhança. Assim, esses vira-latas humanos ocupavam um enorme espaço no meu dia-a-dia, numa representação bastante viva e inevitável de O Cortiço, de Aloísio de Azevedo.

Uma noite, acordei com gritos diferentes dos usuais e, ainda enrolada no sono, farejei fumaça. Abri as cortinas e pela primeira vez testemunhei in loco os horrores de um incêndio. Fiquei tão perplexa com o desespero alheio que custei a entender que meu lar também estava ameaçado pelo fogo. O sentimento de solidariedade por aquelas pessoas que me irritavam tanto era inédito, mas real. Felizmente ninguém morreu ou se feriu. Durante dias, fui envolvida por seus dramas: bebês sem fralda ou mamadeira, menina sem caderno, ninguém tinha o que vestir. Como é duro ter quase nada e ficar com a roupa do corpo.

As coisas, mesmo as mais terríveis, se ajeitam, foi o que aprendi com aquele episódio. Aos poucos, alguns dos antigos vizinhos recolhidos em abrigos municipais ou em casas de parentes foram voltando e transformando os casarões em um acampamento, um arremedo tétrico de lar. Na parte mais frágil, mais devastada pelo incêndio, era pior. Acomodou-se por lá uma gente estranha, ainda mais barraqueira, dizem até que capazes de crimes. Não sei, não vi.

Foi durante minhas férias que bateu a fiscalização. Soube de ouvir dizer que mandaram todo mundo embora e todos, claro, fizeram ouvidos moucos. Contudo, na última semana, fui novamente despertada por um movimento incomum bem cedinho. Da janela, vi o quase sempre tímido poder público mostrar o que pode quando quer. Polícia militar, guarda municipal, assistência social, defesa civil, fiscalização sanitária, conselho tutelar, Comlurb, Light, todos de uma vez chegaram para acabar com a ocupação ilegal dos prédios condenados. Foi uma correria entre os moradores para salvar seus poucos tesouros. O restante foi parar nas caçambas nas dezenas de caminhões de lixo que se revezavam.

No segundo dia, começou a demolição. Em pouco menos de quatro horas, os três casarões estavam no chão. Trabalhando 24 horas por dia, antes do final da semana tinham retirado todo o entulho e cercado o terreno. Paz, enfim.

Agora, que diabos faço com esta preocupação sobre o que há de acontecer com aquelas pessoas? Por que não consigo esquecer daquela mulher grávida, a mesma quebra-barraco que me agredia com seus escândalos sem hora, subindo desesperada no caminhão de lixo para tentar recuperar roupas e brinquedos da filha, agarrada por PMs e guardas, carregada para o carro do SAMU?

Então, é preciso louvar as iniciativas para finalmente colocar a cidade nos eixos, linda e tinindo como ela merece, mas não podemos deixar de pensar nas pessoas. Não podemos nos contentar em apenas tirá-las de debaixo de nossas vistas. Precisamos de um plano para tentar recuperar o que nunca tiveram e oferecer alguma perspectiva para o futuro. Porque, mesmo habitando buracos inacreditáveis, são gente, e quero crer que quem decide pensa neles diferentemente do que nos ratos que correram para todos os lados enquanto aquelas paredes se desfaziam em pó.

Fotos da autora.

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2 comentários:

Debora Bottcher disse...

CC, querida,
Vc fez uma incrível reflexão sobre a sociedade. Realmente, é muito difícil organizar uma cidade sem ferir os 'excluídos' por ela. A mim soa como um dilema sem solução...

Beijo, bonita.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Bela crônica-reportagem, Carla Cíntia!