Pular para o conteúdo principal

EFEITO DA SOMBRA DE UMA MARIPOSA >> Leonardo Marona

Estava pronto para – não estava pronto – escrever o que não havia conseguido presenciar com a devida entrega, quando reparou na sombra de uma mariposa pousada sobre seu travesseiro e aquilo era, só poderia ser uma anunciação de que algo cobriria novamente suas expectativas com gracejos e reduziria as teorias sobre a substância de deus e da ordem e da moralidade a doze balas de tédio no peito de uma senhora que carregava compras e foi coberta pelas cinzas as mesmas que fizeram com que sua substância transitória – agora que se lembrava da senhora na rua, além das ruas da senhora na rua, do seu tranqüilo desprezo e das suas unhas aquilinas – se encarregasse de tardes autenticamente vagas e fundas quando se pensa por quanto tempo os pregadores serão foices e os pacifistas o boca-boca das novas epidemias sociais e, nesse meio-tempo, entre a vontade e a necessidade no duto da liberdade limitada pelo amor que é chumbo e culpa e bem pouco liberdade, ora pensando no pó de vidro que sufocou Espinosa, sentiu a carne lhe coçar e arder nas costas, e de repente (não mais que de repente: uma citação) penas ultrapassam-lhe os poros, penas brancas e úmidas da cor de uma alucinação pura, os olhos enchem-se de areia fina, farinha de tudo em volta às voltas com dunas e precipícios teletransportáveis e ele havia deixado de amar coisas importantes simplesmente porque tudo parecia importante e um começo precisava ser estabelecido com cuidado e urgência, ele havia odiado por puro capricho olhando para céus superestimados, ele havia tentado sussurrar timidamente no ouvido de deus o que nem mesmo os grandes poetas conseguiram ecoar de suas cachoeiras submersas, ele havia falado com sotaque carregado de impurezas a língua das nuvens – e havia se encharcado dos seus dias de sorte cinzenta, com sua essência universal e seu mistério pré-temporal – que o afastava dos homens sendo ele como nuvem, constante e vagarosamente distante, cada vez mais longe... E de longe ele poderia finalmente amar os homens, entender suas convenções e seu ódio, porque, encharcado de vendavais noturnos, já não havia ódio ou amor nas suas entranhas, já não havia entranhas, e também não era paz, era um estar de olhos arregalados no escuro, era o chumbo da passagem repleta de distrações e exaltações hesitantes, a linha bandida entre trincheiras habitadas por soldados expatriados que assinam as cartas das famosas garrafas perdidas em alto mar: era portanto cálido que ainda fosse possível pensar em sombras e solidão, era portanto um vício esse tal jeito de olhar inclinado para o céu, ele só tinha carinho e passagem para oferecer, pertencia às pedras que lhe bloqueavam o caminho, não era nada que se pudesse afixar em síndromes operacionais, nada que corresse para um determinado ponto de desencanto ou sorte, como nuvem ele era sobre-humano, como humano um fardo de lágrimas – com a leveza do mercúrio maquiava as estrelas com pó-de-arroz, essas rainhas de cabaré, agentes fúnebres da doença inaugural que, quando extinta (e é a favor da sua extinção que lutamos dia após dia pelo bem-estar social), será o fim de mais uma era apenas de passagem, num gigantesco rito cósmico de passagem substancial, fogo e amor e Carlos Drummond de Andrade, e ao reparar na sombra que alçava asas sobre as fibras trançadas do seu travesseiro molhado de guerras mitológicas, da sua atual posição de nuvem enclausurada por cordilheiras enfeitadas com fios desencapados, pensou em como a era das mariposas havia passado – pobres asas melancólicas de um mundo corroído por parasitas refinados e cegos bem-intencionados – sem que a esta incrível forma supra-histórica restasse qualquer rasto de ordem das coisas, a não ser essa ordem à prestação vendada com hipocrisia sob a forma de deuses com bigodes irados, então ele chorou como chora um ser humano diante da cruz noturna de cada dia a menos – onde estão os dias a mais, quem os monopolizou? – lágrimas nem salgadas nem doces, lágrimas neutras, infelizes mas conscientes – e de que adianta se, enquanto isso, alguns demônios vendem almas no atacado e outros hibernam ao som do tique-taque de todos os corações sedentos, desnorteados.


Aproveitando o espaço, faço também o convite a quem interessar:



Comentários

Breno disse…
Ola, gostaria muitíssimo de receber o email de todos os cronistas desse blog, e queria saber como faço para fazer parte desse grupo de cronistas pois sou um cronista...por favor...

Ah, e por favor, visitem meu blog, cronicasalheias.zip.net
Breno, o e-mail dos cronistas não é divulgado diretamente. Você pode fazer comentários nos textos de cada um e deixar seu e-mail nesses comentários, caso algum cronista possa e queira entrar em contato.

Quanto ao grupo de cronistas, ele é fixo. Antigamente, publicávamos crônicas avulsas no sábado. Atualmente, não fazemos isso. Talvez no futuro retomemos.

Grato pela visita e pelos comentários. Volte sempre.

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …