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E AGORA? >> Eduardo Loureiro Jr.

Lucas Cavalheiro -- Flickr.com
Já lhe aconteceu alguma vez acordar e não ter a obrigação de fazer nada durante o dia? Não ter que se levantar, não precisar fazer nada pra ninguém, não ter que trabalhar, não precisar encontrar pessoa alguma, não ter que consertar algo ou fazer compras pra casa... Um dia assim já lhe aconteceu?

Comigo tem acontecido com alguma frequência, e isso já antes de eu começar essa longa viagem. Tem dias que chego mesmo a pensar que a vida pode ser, cotidianamente, assim. Parece o paraíso. É como ganhar na loteria. E realmente há muita sorte e fortuna em viver assim.

A maior dificuldade -- e eu a tenho enfrentado algumas vezes -- é lidar com uma simples pergunta: "E agora?".

Sim, você acordou. E agora? Tudo bem: levantar, mijar, lavar o rosto, tomar café, escovar os dentes, cagar... mas e depois? O "e depois?" não é nada, acredite. A coisa fica realmente feia é quando o "depois" chega e vira "e agora?".

No princípio, a tendência é a gente repetir aquelas coisas que já faz -- desde que elas nos dêem algum tipo de satisfação: ler, caminhar, ouvir música, assistir filme, checar e responder e-mails, tocar violão, compor, escrever... Você faz várias combinações diferentes das mesmas coisas que gosta, mas a pergunta sempre vem: "E agora?"

Tudo bem, em parte é aquela culpinha básica de alguém inserido numa sociedade orientada para o trabalho. Mas mesmo depois que você toma consciência e se livra da culpa, ainda fica zoando a pergunta: "E agora?"

Tem horas que é aterrorizante ter "alguém", essa voz, lhe perguntando sempre a mesma coisa. Aí você descobre que pode, você mesmo, fazer a pergunta para a tal voz: "E agora, o que você sugere?" Dá um alívio, porque você passa a batata quente para a outra "pessoa". Você está, finalmente, livre da última coisa que lhe prendia, da sua única obrigação restante: o ter que decidir fazer alguma coisa, qualquer coisa de sua própria vontade.

Mas não é que a voz responde! Responde quase num sussurro, mas é um sussurro firme. Ela não diz "que tal se...". Ela afirma: "faça isso". E é mais aterrorizante ainda estar diante da resposta "faça isso" do que da pergunta "e agora?". Porque seria no mínimo indelicado da sua parte dizer que não, que não vai fazer aquilo. E você ainda tem medo. Medo não de desagradar a voz, ou de que ela o repreenda dizendo "mas, afinal, você perguntou pra que se, no fundo, não queria saber a resposta?". O maior medo é de que, se você não fizer o que a voz diz, você terá mais dificuldade para escutá-la da próxima vez que fizer a pergunta. Não porque a voz seja vingativa, mas porque você mesmo fechará um pouco mais os ouvidos da próxima vez.

E então você diz "tudo bem, eu faço". E faz, na esperança de que tudo se acalme em seguida. Mas o terror só aumenta, porque aquilo que a voz lhe disse parece ser a coisa certa e detona uma sequência de eventos que podem jogar você novamente naquele esquema de ter de fazer alguma coisa, não porque você seja obrigado, mas porque seria muito estranho chamar alguém pra dançar e ficar parado justamente quando a música começa.

No fundo é isso, uma questão de dança, de fluxo, de movimento.

A crônica já está escrita (com dois dias de antecedência).

E agora?

Comentários

Anônimo disse…
Penso que fazer algo porque "alguém", ou uma voz, disse pra fazer complica a vida de muitos em cadeia. Se a vontade de realizar não veio de você, é como uma mentira, chegará um momento em você se contradirá e sentirá o peso de defender uma idéia que não é sua. O que é nosso está em casa, não parecerá estranho qualquer parte do relacionamento com o outro, porque estamos no outro e ele está em nós: há compreensão porque há comunicação. Se não há conforto na escolha, melhor ficar sem nada pra fazer mesmo. Já que... já que estamos aqui, talvez simplifique sermos apenas humanos agora, com os humildes pilares da construção humana, sendo o trabalho uma delas. Querido, apesar de não ter o seu dom da escrita mas sendo sua leitora assídua, peço licença :) para justificar minhas palavras copiando parte de sua outra crônica: "Pois em verdade, em verdade, vos digo que nem mesmo esta crônica, esta mesmíssima, está livre da liberdade total que me dou quando escrevo." Alba.
mãe disse…
Por isso que o Criador, sabiamente, trabalhou seis dias e deixou um para descansar. Penso que o "fazer nada" quando não cansa, entedia. Que você seja inspirado e impulsionado a fazer algo que lhe dê satisfaçõo e, alegria aos que estão juntos nesta viagem.
Deus o abençoe.
Beijos da mãe
Querida Alba, e se a voz for nossa própria voz? E se esse "alguém" for a gente mesmo?

Mãe, gostei da bênção. :) Amém.
Alba Mircia disse…
Então, querido, que a MAGIA encontre espaço para sincronizar voz e desejo na mesma gente.Beijos.
Kika disse…
Aaaaaaaai que inveja!
Calma, Ana, calma. :)
Carla Dias disse…
Eduardo,
Ler sua crônica me despertou para alguns “e agora?”. É sempre muito mais fácil, mesmo quando é difícil, acompanhar o questionamento de outro sobre nós. Mas como gosto de uma boa interrogação... E agora? Café, meu caro... Não há quem possa lidar consigo mesmo sem uma boa xícara de café.
Cristiane disse…
Eduardo, estou nesta fase do: "e agora?". Trabalho entregue, salário garantido até o final do contrato, estou assim desde o final de semana: "e agora?". Obviamente já inventei afazeres... estou indo ali no SENAC me inscrever num curso, tenho os CDs do inglês aqui do meu lado cobrando a iniciativa, tem o projeto do doutorado para reajustar, ai, Jesus, tem visitas à mãe, à sogra, aos amigos! Preciso encontrar os amigos depois deste periodo enfurnada em casa trabalhando feito doida. Gente! e as gavetas para arrumar, consultas com oftalmologista e ginecologista atrasadas, saco! Vixe, tenho que marcar ortopedista para ver esta tendinite. Os armários da cozinha estão um caos, tem até teia de aranha. Dentista! preciso retornar ao dentista. Ai, esqueci que me inscrevi num Seminário sobre o Vale do Jequitinhonha esta semana... E o meu curso de francês largado pela metade?
Ontem, apaguei estas luzinhas e fiquei vendo Ameliè Poulain, pela enésima vez, curtindo o friozinho da tarde de Belzonte. Nem a roupa da máquina eu tirei. Deixei lá, no molho para hoje cedo.
E agora? Sei lá... vamos por partes, caro Jack!

Beijos
Eduardo, eu sempre tenho o costume de falar que a melhor coisa ( a "coisa" é algo impressionante, né?...rs) das férias é saber que você vai voltar delas.
Carla, lhe acompanho num cappuccino. :)

Cristiane, fiquei zonzo com sua lista, mas me recuperei quando você escolheu rever o fabuloso destino daquela encantadora francesinha. :)

Marisa, normalmente eu penso isso das viagens. :) Férias são uma coisa que faz tempo que não sei o que é. :))

Ah, há alguns anos fiz um poema sobre a "coisa", ou melhor, o "coisar":

Eu só queria conjugar o verbo coisar.
Eu só coisava coisar o verbo coisar.
Minha irmã diz que é o verbo que deveria existir,
o único.
Eu entendo como se a vida fosse só tomar sorvete.
Eu coiso como se a vida coisasse só coisar sorvete:
todo mundo entende.
O verbo coisar tira a roupa dos outros verbos
e deita na cama para não pensar,
apenas para dormir e sonhar com um substantivo
que avance coisa adentro e que solte um grito.
Apenas para coisar e coisar com um substantivo
que coise coisa adentro e que coise um grito.
Coisar: verbo que conjugado sozinho
é Deus que está em tudo e em nenhum lugar.
Minha irmã estava certa quando sorria
à medida que eu conjugava o verbo.
Sabrina coisava certa quando coisava
à medida que eu coisava o coisar.

(Eduardo Loureiro Jr.
C. S. Muhammad disse…
Mas Eduardo, seu poema é uma coisa boa demais de coisar!! Adorei... Lembrei-me que era chamada de "ô coisinha" por umas primas distantes meio coisadas e de "coisinha bonitinha do pai" pelo meu pai quando era criança. Que coisa, não?
Coisa boa é coisar, né? Coisemos coisando, ô Coisinha. :)
Ana disse…
O nada é o que te obriga a trazer-se de volta, a olhar para si...
Nada pra fazer, hora de se ver...
ou de se olhar pro lado, e enxergar alguém, que pode estar ali só esperando você se desatarefar pra poder se doar...
Pense nisso, meu caro. Com carinho...Ana.

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