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CRÉDITOS QUASE FINAIS
>> Eduardo Loureiro Jr.

Olhar retrospectivamente costuma deixar as coisas mais claras, e nos vem a tentação de achar que tudo poderia ter sido diferente – melhor – se apenas tivéssemos feito isso ou aquilo. Dizemos para nós mesmos “se fosse hoje, eu faria assim” ou, o que é ainda pior, “da próxima vez, farei assim”.

Tem quem ainda vá além e se ache no direito de sugerir a outras pessoas – alegando conhecimento de causa – que procedam desta ou daquela maneira simplesmente porque seria assim que procederia agora. Por vezes não admitimos que os outros cometam nossos próprios erros. Dificilmente nos ocorre, ao recapitular qualquer coisa, que tudo pode ter ocorrido da melhor maneira possível, e isso inclui – às vezes, especialmente – aquilo que parece não ter dado certo.

Esta é a derradeira crônica que escrevo da Itália, após oito semanas de viagem, e, nesses dias, me peguei pensando...

Da próxima vez, permaneço somente um mês e em um único lugar. Faço escola apenas duas horas pela manhã, e aproveito mais a cidade. No final de semana, visito outras cidades. Ficarei sempre em lugares com quarto e banheiro próprios, e, claro, com acesso à internet direto no quarto.

Quando percebo no que estou pensando, começo a rir de mim mesmo. Não porque esteja sendo exigente demais, mas porque estou menosprezando coisas importantes como surpresas, aprendizados e, principalmente, pessoas que só conheci porque eu não estava em uma situação ideal.

Claro que é bom ter conforto. É óbvio que devemos aprender com os erros e fazer melhor da próxima vez. Mas fazer melhor não é eliminar os erros, e sim aproveitá-los melhor na próxima oportunidade. Quer dizer, ser mais criativo, improvisar mais, rir mais de si mesmo, aceitar os desafios e, acima de tudo, agradecer:

- aos que ficaram em casa mas que viajaram junto nas fotos, nos vídeos, no blog de viagem, ou mais junto ainda, lhe emprestando um par de luvas, uma carteira, um casaco, um cachecol;
- aos novos amigos, verdadeiros mundos novos de olhares, gestos e sorrisos, por terem lhe aproximado um pouco mais do milhão de amigos a que Roberto, Erasmo e todos nós temos direito;
- àqueles que tinham a obrigação de lhe atender numa hospedagem ou num serviço, mas que o fizeram além de qualquer obrigação;
- àqueles que não lhe fizeram nenhuma concessão, e que lhe trataram como um deles, dando-lhe a honra – por vezes dolorosa ou desapontada – da igualdade;
- aos estranhos de que você não guardou ou nem mesmo perguntou o nome, mas que lhe deram a informação ou o auxílio salvador numa situação de perigo;
- e a toda a turma invisível que viaja no vento.

Daqui a pouco a viagem acaba, e eu gosto daqueles filmes que, depois dos créditos, mostram alguma coisa curiosa, engraçada, reveladora reviravolta. Que seja assim essa viagem. Que depois dos créditos desta crônica, ainda reste espaço nesses derradeiros dias para aqueles que só se levantam da poltrona quando a tela fica completamente branca.

A vida é uma longa viagem, tão longa que muitas vezes esquecemos de onde partimos e para onde devemos voltar.

Comentários

Mâe disse…
Ouvi muito de pais e mães comentando sobre os filhos: "As mulheres amadurecem mais rápido do que os homens."
Fico deveras impressionada com o seu amadurecimento, o seu aprendizado de vida, a sua maneira serena e eficaz de nos escrever, repassando as coisas tão sensatamente e com atitudes tão coerentes.
Fico pensando o quanto foi rápido o seu amadurecer e quanto tenho aprendido e amadurecido junto.
Deus seja louvado pelo que você é e representa para mim.

Beijos da Mãe
Tia Monca disse…
....agradecer:

- ao que nos permitiu viajar e aprender juntos :o)

Bj,

Tia Monca
r a c h e l disse…
Ah, delícia. E viagens costumam mesmo guardar o melhor pro final. Fora o reinventar. As memórias. As re-lembranças. Fique certo que voltará aí muitas vezes em pensamento - e que uma vez sequer vai ser igual à outra.

Uma beijoca,
Letti disse…
Caramba, o tempo voa... Você foi ontem.
Mas, nem desrruma a mala; já vem pra cá passear mais um pouco! :)
beijo grande!
Mãe, seu reconhecimento é muito importante. :)

De nada, Tia. :)

Rachel, gostei dessa história de reinventar. :)

Mas Claudia, mulher... deixa eu me aquietar um pouquinho. Tô precisando de um aconchego. :)
C. S. Muhammad disse…
Vou ficar com saudade da Itália!
Se preocupa não, Carla. Qualquer dia desses a gente volta. :)
Juliêta Barbosa disse…
Eduardo,

Bom regresso! E que alegria aprender por meio dos seus textos que a "universidade da vida" é o melhor professor que podemos ter.Seja bem-vindo!
Carla Dias disse…
Eduardo...
Eu acredito em timing! Que sempre haverá alguém que me dará um toque essencial e inesperado para bagunçar de surpresas a minha realidade.
Sua crônica é meu timing de hoje... A viagem de cada um pode até sofrer mudanças geográficas, mas ela nunca termina para quem tem sede de aprender, não? Para quem espera o depois dos créditos.
Eduardo, seja bem-vindo de volta! Engraçado...Tão longe que você está, vai voltar ainda para longe, considerando este nosso Brasil deveras grande, mas algo sempre fez com que eu sinta você, apesar de não nos conhecermos, alguém que está aqui do ladinho...:)
Grato, Juliêta. Não é à toa que, em Astrologia, a casa das grandes viagens é também a casa da universidade. :)

Carla que grande alegria musical ter sido o seu timing do dia. :)

Grato, Marisa. Puxa vida, estar longe e do ladinho ao mesmo tempo! Será alguma espécie de superpoder? :)
Ana disse…
"A vida é uma longa viagem, tão longa que muitas vezes esquecemos de onde partimos e para onde devemos voltar."
...e esquecemos que a vida é também o percurso, os descaminhos, as longas ladeiras e as vistas inesperadas.
Egoisticamente feliz por tê-lo de volta no Brasil. Ana

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