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Mostrando postagens de Dezembro, 2015

INVENÇÕES DE ANO NOVO>> Analu Faria

Deixei as resoluções de fim de ano para lá, desta vez. Não me pergunte por quê. Será que 2015 foi louco demais? Será que é isso? Ainda assim, fui feliz este ano (mas não gostaria de alongá-lo, obrigada, já deu). Gratidão? Ah, sim, claro, sempre!, mas 2015 já poderia ter terminado lá para outubro.

Em homenagem a este ano que mais pareceu uma novela mexicana, resolvi mexicanizar e, em vez de resoluções, pensei em invenções e medidas esdrúxulas que eu queria ver realizadas em 2016. Aí vão:

1) uma lei (talvez precisasse ser uma emenda constitucional) que permita que não haja data final fixa para nada. Dessa forma, teríamos o início de prazo para, por exemplo, a entrega da declaração do imposto de renda, mas o prazo final poderia ser anunciado pela autoridade competente uns dois dias antes. A vantagem disso é que a gente nunca faria nada em cima da hora. Ah, e correria menos risco de desistir dos projetos, tipo: “tô pensando em fazer aquele concurso, mas como o prazo de inscrição ainda não…

DESAPEGANDO DE 2015 >> Carla Dias >>

O ano vai acabar. Por mais que eu não dê muita bola para calendário, é ele quem rege a nossa existência. Vivemos à mercê do que ele define, lutando para que ele não nos defina também. Sendo assim, o ano vai acabar, e este quase acabou conosco durante o processo.

Acontece que, por mais complicado que 2015 tenha sido, aconteceram bons momentos. Foram mais raros? Talvez. Mas os dias deste ano que vai acabar daqui a pouco, nem todos foram tiranizados pelas tragédias, pelas ações inconsequentes, pela insanidade de quem empobrece o povo no dinheiro, nos direitos e no respeito.

Para mim, 2015 tem sido uma corda bamba coletiva. Muitos pensaram que fossem se espatifar no chão, sem direito a socorro. E se sentiram tão desolados por conta da sensação de que não havia o que ser feito para iluminar um tantinho que fosse tal íngreme caminho. Muitos se espatifaram mesmo. Alguns abraçaram a ousadia de não permitir que esse tombo os definisse. Outros escolheram aceitar a condição de levado à lona e so…

RETROSPECTIVA 2015 A.D. >> Albir José Inácio da Silva

Este foi mais um ano em que bárbaros atacaram a civilização em bandos famintos e raivosos.
No início com paus e pedras contra as lanças, escudos, flechas e catapultas dos gregos e romanos. Mas, ao longo das eras, as traições de aliados e os equívocos dos líderes facilitaram a aquisição de armas pela barbárie, que agora ostenta mísseis e fuzis.
O combate a essas hordas tem se mostrado ineficaz. Morrem aos milhares, mas brotam da terra como se feitos dela, com sua cor e abundância, surgem de todos os lados, indignados, como se fosse nossa a culpa pela miséria. E não se acabam por mais que os naufraguemos, escravizemos ou crucifiquemos.
A civilização luta para incutir a fé e civilizar o gentio, mas encontra resistência dos bárbaros e incompreensão de seus pares na hora de dividir despojos e territórios.
Foi assim no século passado quando nos arrependemos dos séculos de pogroms contra os "assassinos de Jesus" e saímos em defesa de nossos irmãos judeus que morriam aos milhões n…

CARTA A PAPAI >> Paulo Meireles Barguil

 Fortaleza, 24 de dezembro de 2015.
Querido Papai,

Sei que o senhor é da época em que escrevia carta para a Miloca usando a gloriosa Olivetti Lettera 82 verde.
Desde o último quarto do século XX, a missiva foi sendo lentamente tragada por outras modalidades síncronas, que têm a reputação de facilitar a comunicação entre as pessoas.

Naufragaram também as práticas românticas a ela vinculadas: colocar perfume no papel, colar cuidadosamente o envelope, comprar o selo lançado recentemente...

A diminuição progressiva do custo das maravilhas eletrônicas permitiu o acesso de grande parte da população mundial a tais novidades, o que é algo importante.

O teste de datilografia, outrora requisito obrigatório em vários concursos, foi dissipado.

Na maioria das vezes, não usamos mais os 10 dedos para digitar, pois o tamanho do teclado encolheu, mas poucos o fazem tão bem como o senhor, que era um ás nesse ofício.

O corretivo agora é automático e, por vezes, funciona como erradivo, pois altera o qu…

ENTÃO É NATAL? >> Mariana Scherma

Menos amigos secretos furados. Menos amigos falsos. Menos gente falando mal da sua ceia. Menos desespero pra comer (como se no dia 26 não existisse comida, tem sempre as sobras do peru, gente). Menos desespero pra tomar a cerveja boa que o parente mais afortunado levou pra ceia. Menos olhos críticos para sua roupa escolhida há dois meses para ceiar com a família. Menos gente que diz que vai e não vai. Menos fofocas sobre o fulano ao lado em plena noite de Jesus. Menos adolescentes com cara emburrada, como se existisse alguma balada nessa noite.

Mais histórias engraçadas do tio figura, mesmo que essas histórias sejam repetidas. Mais abraços demorados do que presentes. Mais olho no olho do que olho na tela do celular. Mais piadas do que fofocas. Mais tias que perguntam do namoradinho na sua cara do que tias que falam mal da sua vida por trás. Mais caipirinhas divididas do que porres solitários. Mais piadas de pavê ou pacumê do que conversas indiferentes. Mais momentos micos em família d…

ESQUISITO >> Carla Dias >>

But I'm a creep, I'm a weirdo, What the hell am I doing here? I don't belong here. Da canção Creep, de Radiohead

Não, meu caro... Que essa coisa de sonhar alto, verbalizando querenças e planos, como se contasse uma história que jamais será a sua, não vai dar certo, não. Vão pensar que você é maluco, que merece uma vaga no hospício ou receita sem prazo de validade para usufruir tarja preta em ascensão. Haverá até os que oferecerão longas declamações de conselhos decorados durante uma vida sob a batuta da austeridade e da intolerância. Conselhos que seguiram à risca e os levaram a lugar nenhum... Ao menos no que diz respeito à felicidade.

Seu caminho pode se tornar mais tortuoso, menino, se você escolher alternativas que não constam nos testes de múltipla escolha. Com tantas escolhas disponíveis, por que escolher aquela que não está lá? Irão rotulá-lo ignorante por isso, pessoinha sem noção, intelectualmente preguiçosa, incapaz de compreender que um mais um é dois e pronto e ac…

EM BUSCA DA BATIDA PERFEITA >> Clara Braga

Sou daquelas que, quando gosta de uma música, escuta repetidas vezes até cansar. Mas para cansar são dias e dias e dias ouvindo a mesma música repetidas vezes.

Nesse ponto a tecnologia ajudou muito. Qualquer Youtube, ou aplicativo do tipo, alimenta seu vício, é só colocar a música para repetir e pronto, não tem erro, só internet ruim pode acabar com seu momento.

Mas confesso que quando não estou com o espírito de um teletubby dentro de mim, e não quero repetir nenhuma música, gosto mesmo de ficar passando as estações de rádio em busca de uma música que eu goste. Não sei explicar exatamente o que é, mas algo nessa situação de surpresa me faz ficar animada, e quando encontro a música em alguma rádio, pode até ser uma música que eu tenha no meu celular e possa ouvir a qualquer momento, mas ouvir assim inesperadamente mexe comigo, parece até que deixa a música melhor. Já abro as janelas do carro, passo para a faixa da direita e preparo a voz para cantar junto em alto e bom som.

Melhor do …

24 DE DEZEMBRO DE UM ANO QUALQUER
>> Sergio Geia

Pelas frestas da janela, os sons que não se calam penetram no quarto escuro: o cachorro latindo longe; o gorjeio de aves em festa; um ou outro carro que passa; o atrito de pratos e garfos no preparo da ceia. A cidade está ansiosa: mais um Natal. O silêncio amistoso vai sendo quebrado aos poucos pelas aves, pelos cães, pelos pratos, pelos carros. E agora, pelo sino da igreja.

Levanto apenas para abrir a janela e me deixo cair com vontade de não sair, de chumbar os olhos no travesseiro ainda quente, como se magicamente ele pudesse desligar a vida por algum tempo e fazê-la ressuscitar num outro dia qualquer, quem sabe no ano que vem. Da janela, a beleza de um afresco de final de tarde me surpreende: a Mantiqueira poderosa, as casinhas misturadas aos arranha-céus, a mangueira esverdeada sendo esbofeteada pra lá e pra cá por um vento anunciando chuva. Perco-me na visão até me afundar de vez no travesseiro, os ouvidos ligados aos rojões das seis, às notícias de estradas congestionadas, de …

OUTRO NATAL DEVERAS ESTRANHO >> Zoraya Cesar

O homem, extenuado pela viagem longa, colocou a mala no chão. Olhou, apreciando, os últimos raios do ocaso que entravam pelos vitrais, multicolorindo o salão. Um enorme gato preto, que passeava entre os bancos, aproximou-se do homem, ronronando inquisitivamente.
— Eu sei, amiguinho, ainda não tem nada pronto. Mas não se preocupe. Em datas extraordinárias coisas extraordinárias acontecem.
Dito isso, o homem sumiu pela porta dos fundos. Precisava descansar. Seu rosto, meigo e antigo, era enfeitado por rugas que sumiam, misteriosamente, quando ele sorria. O que acontecia amiúde, justificando, assim, que não se percebesse, à primeira vista, o quão entrado em anos estava o Velho Padre.
A Igreja ficou vazia até, exatamente, às seis da tarde, quando entrou um casal negro, a aparência mais que humilde, tão ou mais idosos que o Velho Padre, vestidos da cabeça aos pés de imaculado branco. Nas mãos dela, havia um enorme rosário feito de lágrima-de-nossa-senhora; nas dele, um chapéu, colocado, resp…

A ZOEIRA NÃO TEM FIM >> Analu Faria

Há algum tempo, deixei de falar tanto de política. No bar, com os amigos, eu quero dizer. Porque em redes sociais, eu já havia desistido há mais tempo. Eu até fazia meus desabafos sobre isso no Twitter, no Facebook etc., mas percebi que era não só bobo como eu não sabia muito de política mesmo, para falar dela assim para muita gente. Depois vi que nem com meu círculo mais íntimo eu conseguia discutir direito sobre o assunto.

Agora, a zoeira… a zoeira é outra história. Na semana passada, o Brasil viveu, na política, emoções de novela mexicana — teve cartinha de amor e pancadaria (a carta do Temer e os golpes trocados entre deputados federais, na Câmara) e a Internet não perdoou. Digite #CartadoTemer na barra de endereços do seu navegador e divirta-se. Sobre a confusão da Câmara, menos zoeira, ainda assim, teve gente juntando as duas coisas para fazer piada, como a internauta que disse, no Twitter, algo como “o roteirista da política brasileira tá de parabéns: essa season finale tá chei…

EVITE ACIDENTES >> Carla Dias >>

Tudo se intensifica nessa época do ano. Como sou da laia dos que não se importam muito com as comemorações, observo a correria como atenta espectadora.

Nas ruas, as pessoas andam mais afobadas e os carros cometem infrações ridículas que abrem espaço para acidentes nada ridículos. Ainda outro dia, eu aguardava o sinal ficar verde para atravessar a rua, e acabei assistindo a uma cena inusitada. O sinal ficou verde para os pedestres e dois policiais atravessavam na faixa, quando uma senhora deu três “soquinhos” com o carro neles. No primeiro, eles pararam em frente ao carro e pediram para que ela aguardasse sua vez. Então, vieram os outros dois. Eles a abordaram e a conclusão foi que ela simplesmente nem entendeu o que havia acontecido, de tão distraída que estava com outras coisas.

Vocês sabem que outras coisas não combinam com o volante, certo? O celular, por exemplo. A distração era tamanha que a senhora nem se deu conta de que o sinal estava fechado para ela e que duas pessoas, os po…

DAS COISAS QUE EU NÃO SEI >> Clara Braga

Sempre quis saber o que os âncoras dos jornais conversam ao final do jornal, naquele momento em que aquelas letrinhas já estão subindo mas eles ainda aparecem no enquadramento conversando e rindo horrores com o microfone já cortado, sabe?
E quando a bancada não é de vidro e eles não têm que ficar em pé para dar nenhuma notícia, será que ficam arrumadinhos ou só mesmo uma boa bermuda com o chinelo?

E naquele The Voice, quando os jurados viram a cadeira para um participante que foi eliminado na edição anterior e eles dizem que lembram do cara, será que lembram mesmo ou já foram previamente avisados de tudo?
E sabe aquela banda que atrasa mais de uma hora pra entrar no palco? Pois é, está bebendo no camarim e rindo da cara de quem chegou cedo ou realmente são motivos de força maior, tipo: pegaram muito trânsito para chegarem ao local do show?
E logo depois do show, para onde eles vão? Saem para badalar ou só aguentam mesmo dormir?
E os fãs, como descobrem o horário do voo, o hotel onde …

O REI >> Eduardo Loureiro Jr.

O Natal está chegando. Nos últimos dias, tenho recebido as mais estranhas notícias: separações, reprovações, internações... e isso para mencionar apenas as notícias pessoais, sem falar das notícias políticas que, pelo menos hoje, não me vêm ao caso.

Mas o Natal está chegando. O comércio tem esperanças de que seja um bom final de ano. As pessoas têm esperança de que o 13º salário renda. E eu tenho esperança de que Papai Noel, após distribuir os presentes, não volte com o saco vazio e aproveite para colher um tanto do lixo que ficará dos papéis de embrulho e das embalagens plásticas.

O Natal está chegando e mais um ano acabando. Eu olho para trás e me pergunto: Foi um bom ano? Sem conseguir uma resposta simples, tipo sim ou não, penso que talvez exijamos muito de nossos anos. Por que ele haveria de ser bom? Melhor pergunta talvez fosse: Fui bom este ano? Não sei se fui bom. Não tenho parâmetros para avaliar isso.

O Natal está chegando. É a culminância do anúncio de um anjo: "Conceb…

ANIVERSÁRIOS >> Mariana Scherma

Ficar mais velha não é bom. A não ser que você seja adolescente e queira logo completar os 18 anos pra tirar carta de motorista e blablablá. Depois que passa dos 18, sei lá, fica meio normal. Mas dia de aniversário é uma delícia, nem tô falando dos presentes porque, na maioria das vezes, logo mais você mal se lembra do que ganhou. A coisa física é o de menos. Pra mim, o que mais conta é o impalpável. O carinho, as palavras doces, os abraços de urso, as surpresinhas... Por esses, eu faria aniversário quase todo mês (se não aumentasse a idade, que fique claro).
Eu sou das que prefere cartão a presente. E guardo os cartões pra reler. E quando releio sempre choro, é inevitável. Algumas pessoas até saem da nossa vida por diversas circunstâncias, mas aquele recadinho com letra semi-garrancho vai sempre estar na gaveta, pronto pra ser lido quando bater saudade ou quando a autoestima der uma descida ladeira abaixo. Porque é fato: as pessoas destacam suas peculiaridades e suas melhores qualida…

CORRENTES >> Carla Dias >>

Durante anos, vem se dedicando a não quebrar correntes. Não importa o ganho, mas evitar a consequência: se não passar adiante, para tantos amigos, vai acontecer algo de terrível a você; reze tantas Ave-Marias e tantas Salve Rainha, senão você passará por longos tantos  anos de miséria, e por aí seguia.

Quase todas as correntes que recebe são religiosas. As religiosas, ela nunca pensou em quebrar, que tem horror à ideia de Deus a achar espiritualmente preguiçosa. Já as que parecem mais uma ameaça do que corrente: “Alguém ama você e lhe mandou um coração. Compartilhe com quem você ama, caso contrário, o seu coração se transformará em um deserto e nunca mais dará flores.”, essas ela às vezes pensa em deixar passar, que se sente esgotada por sua vida ter se tornado uma série de rendições às correntes. Porém, antes que o prazo para o repasse acabe, lá está ela, encaminhando a mensagem para as cinco pessoas de sua lista de contatos: pai, mãe, irmã e dois irmãos. Quando precisa de mais de c…

SOBRE PLANOS, SHOWS DO ROBERTO CARLOS
E O FIM DE ANO DA GLOBO
>> Clara Braga

Sinais de que o ano está mesmo acabando: Papai Noel já chegou no shopping, os shoppings estão muito mais cheios, Brasília está mais vazia, as casas já estão decoradas com motivos natalinos, todos os grupos do WhatsApp já estão combinando suas confraternizações, aumentou consideravelmente a quantidade de campanhas de arrecadação de brinquedos e doações gerais, algumas pessoas já estão de férias, os artistas da globo já se reuniram para cantar aquela mesma canção de sempre que passa uma vez na televisão e te deixa repetindo aquele refrão por uma semana seguida e, claro, o Roberto Carlos já organizou seu especial de fim de ano.
Não adianta, tem coisa que não vai mudar, o Roberto Carlos vai cantar "Como é grande o meu amor por você" e distribuir flores, a Globo vai gravar o show da virada e jurar que nada foi playback, o consumo de roupas brancas vai aumentar, a Fátima Bernardes vai entrevistar um vidente que vai fazer previsões extremamente generalizadas para o ano que vai começ…

FAÇA UMA "HASHTAG" >> André Ferrer

A vida traz perdas e agressões. Um belo dia, a natureza, que é selvagem, cumpre o seu papel. Dentro da bolha de plástico, a existência torna-se insustentável.
Coisas das quais nem papai nem mamãe escapam. O filhinho, então, nem se fala! Recorrer a quem? Aos direitos civis? Às passeatas?! À arte performática?!
Impossível. Nos dias de hoje, sequer recair no erro da birra, uma criança pode.
Os bebês da Geração Z (nascidos a partir de 2001) nascem geniais, mas precisam de Ritalina quando chegam à escola. Dominam, decerto, os “tablets” e os celulares, mas é da mesma forma que, há séculos, filhos de lavradores chineses, ainda muito novos, dominam o ábaco e os fundamentos das quatro operações. Em jogo, as mesmas capacidades humanas que moviam qualquer membro das gerações anteriores à Z, a Y (1980 a 2000) e a X (1965 a 1979), bem como qualquer “baby boomer”, que é como se chamam os nascidos entre 1946 e 1964, com o seu chocalho do “Mickey Mouse”; a mesma curiosidade, enfim, que agitava um bebê …

A PRAÇA É UMA FESTA >> Sergio Geia

Escolhi um lugar pra morar que fosse perto da Santa Teresinha. A praça é o meu quintal, o lar onde me criei. Em seus domínios vivi momentos importantes, down e up, e se ela não fala como “O Caderno”, do Toquinho, certamente pensa, ah, pensa! Pensa, sente e pulsa. Quem sabe dia desses não capto sua vibratória e a traduzo pro mundo civilizado, hein? Se já fiz isso com uma árvore frondosa, posso muito bem fazer com uma praça.

Pois nela me esbaldei no parquinho, joguei vôlei, futebol, fiz teatro, dancei quadrilha americana, rezei, peguei, pequei, briguei, brinquei. A praça pra mim é como o terreiro pra mãe Nazinha, a terra molhada pro Julio, o Allianz Parque pro Palestra. Nela me sinto bem, e poder enxergá-la da sacada do meu apê — uisquinho na mão —, dar alguns passos e me banhar no frescor de suas calçadas assombreadas, beber de sua noite sem me preocupar com blitz de lei seca, poder ouvir a pulsação que nasce de suas múltiplas manifestações culturais, era tudo o que a simplicidade da …

FLORES? >> Zoraya Cesar

"Quem é que quer flores depois de morto? Ninguém". J. D. Salinger

Eu não sei o que aconteceu, juro que não entendo. Pode ter sido culpa minha, todo mundo diz que a mulher é sempre culpada, deve ser verdade. Se apanha, é porque merecia. Se o marido não dá atenção, é porque ela não fez por merecer.

Acho isso muito injusto, mas nunca me insurgi contra o que quer que fosse. Meu pai era rude e severo. Dizia que — por incrível que possa parecer a você, nascido em uma família normal — à mulher bastava fazer até o 2º grau. Ou virava desavergonhada. Minha mãe, criada para ser mucama de marido, concordava. Na minha casa, mulher não tinha voz nem vez, era obedecer e pronto. E eu obedecia, nasci cordata e boa.

Vaidades? Nem em sonhos. Nunca pude frequentar academia, usar maquiagem, bijuterias. Regime? Imagina, com tanta gente passando fome! Para meus pais, mulher tinha que ser limpa e asseada, tão somente. Eu não me revoltava, sempre fui mansa e gentil. Por isso, repito: não sei o que acon…

NINGUÉM >> Carla Dias >>

É ninguém e sabe disso.

Ninguém que se acopla à realidade de outros, porque a vida decidiu cuspi-lo no planeta, feito rejeição existencial. Sendo ninguém, transita por aí sem ser notado. Às vezes, arrecada de um e outro alguns olhares, mas então eles pensam que deve se tratar de algum fantasma, ou mesmo de uma ocupação indevida do delírio das suas cabeças sempre tão ajustadas.

Ser ninguém exige competência. Se não há competência, o ser em questão dura apenas uma recuperada de fôlego, depois, tchau. Com competência, esse ser pode se graduar como coletor principal de sonhos não correspondidos, necessidades renegadas, dividendos e suspiros.

Os suspiros são significativos.

Sabendo-se ninguém, gosta de se hospedar na direção dos olhares que, escravos da certeza de sua inexistência, desviam-se de forma dançarina. Sabe como? Para lá e para cá, nunca em sua direção. Como se ali em frente não existisse. Não que queira se impor ao fazer isso. Apenas aprecia assistir à coreografia do desvio de …

PRIVILÉGIO OU PREVILÉGIO? >> Clara Braga

Atire a primeira pedra quem nunca escreveu uma palavra com a grafia errada jurando que estava escrevendo certo. Essa é a história da minha vida. Meu melhor amigo? Corretor do word. Minha melhor desculpa? Licença poética. Mas tem uns erros que não há licença poética que segure.
Esses dias vi um que confesso que na hora “h" me deixou na dúvida: privilégio ou previlégio? Eu tinha certeza que era privilégio, mas sabe quando você vê a palavra errada em uma frase tão convincente que acaba ficando na dúvida? Pois é, "viajar para o exterior é um previlégio de poucos". Quer frase mais convincente que essa?
Nada que um bom dicionário não resolva: Privilégio — vantagem concedida a alguém, com exclusão dos outros; permissão especial. Substantivo masculino com origem no latim privilegium e, por isso, escrita com “i” mesmo! Se fosse o soletrando do Caldeirão do Hulk, ainda poderíamos pedir a divisão silábica e a utilização em uma frase, mas não é necessário, só pela origem já não fi…