quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

EVITE ACIDENTES >> Carla Dias >>

Tudo se intensifica nessa época do ano. Como sou da laia dos que não se importam muito com as comemorações, observo a correria como atenta espectadora.

Nas ruas, as pessoas andam mais afobadas e os carros cometem infrações ridículas que abrem espaço para acidentes nada ridículos. Ainda outro dia, eu aguardava o sinal ficar verde para atravessar a rua, e acabei assistindo a uma cena inusitada. O sinal ficou verde para os pedestres e dois policiais atravessavam na faixa, quando uma senhora deu três “soquinhos” com o carro neles. No primeiro, eles pararam em frente ao carro e pediram para que ela aguardasse sua vez. Então, vieram os outros dois. Eles a abordaram e a conclusão foi que ela simplesmente nem entendeu o que havia acontecido, de tão distraída que estava com outras coisas.

Vocês sabem que outras coisas não combinam com o volante, certo? O celular, por exemplo. A distração era tamanha que a senhora nem se deu conta de que o sinal estava fechado para ela e que duas pessoas, os policiais, atravessavam na faixa.

Tá bom... Você pode imaginar a cena e achar que a mulher queria mesmo era aporrinhar os policiais, por algum tipo de rancor que não há como sabermos qual. Mas eu estava lá e assisti a tudo de camarote. A mulher realmente se distraiu dessa forma absurdamente distraída.

Outra distração envolve caminhar pelas calçadas em todos os ziguezagues necessários para cumprir a agenda que, em dezembro, combina as tarefas de sempre com definir onde se passará as festas de final de ano e dar um jeito para comprar ao menos lembrancinhas para os afetos. Para os desafetos, lembrancinhas ainda mais bacanas, que é para eles ficarem incomodados com a gentileza-armadilha.

Durante a caminhada em ziguezagues, tropeçar no outro é inevitável. Esse tropeço, que já é natural em cidades grandes com muitos habitantes, intensifica-se no período, deixando um espaço menor para a boa e velha e quase saudosa educação.

Eu entendo a euforia em se preparar para um período em que a celebração seja a bola da vez. Celebrar é inspirador, deixa a alma da gente mais leve. Mas, assim como a criança fugindo das festas de fim de ano que fui, o que a adulta certamente herdou, eu realmente não entendo que, em meio a essa celebração, muitos se permitam ser mais vorazes na distração em momentos em que a atenção é determinante, e na deseducação no trato com o semelhante. O que sempre me afetou nesse quadro de celebração de Natal e Ano Novo é a contradição entre o que as pessoas dizem nesse momento e o que elas fazem durante o resto do ano.

Veja bem, eu desejo que a sua festa seja como você a imaginou, e as pessoas que você ama compareçam, trazendo abraços e beijos e, por que não, presentes. Que a casa esteja linda, que aquele tempo todo à beira de um fogão renda uma lembrança sobre delícias aos seus convidados. Que relacionamentos se refaçam diante de tão emocional passagem: um toque de religiosidade combinada à virada de um ano, que quase sempre tomamos como ponto de virada da nossa própria realidade. Quem nunca balançou as pernas ao se sentar à beira do abismo do esse-ano-a-minha-vida-vai-mudar que atire a primeira pedra. Eu não descreio dos bons sentimentos que chegam com a época. Apenas espero que eles não desapareçam como o calendário do ano passado, de tão subjugados eles andam pela distração — de quem vive o que não deseja, nem como deseja ou quando deseja — que tomará conta de vez do cenário já lá no dia dois.

Que as alegrias não se percam em convenções e inspirem as mudanças que, certamente, não acontecerão no pulo de um ano para outro. Muito do que há de mais importante em nossas vidas leva tempo para ser construído, cabendo aí nossos relacionamentos. Que não nos distraiamos deles, como quem quase atropela policiais, porque está mandando mensagem de texto enquanto dirige.

Que estejamos onde estamos e possamos aproveitar o que o momento nos oferece. Isso, definitivamente, evita acidentes, principalmente os existenciais.

carladias.com

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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Adoro crônicas clássicas, que partem de um detalhe do cotidiano e vão lá no fundo da alma. :)

Carla Dias disse...

Eduardo... Também adoro!