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Mostrando postagens de Junho, 2016

UM CISCO >> Analu Faria

Tirei as lentes de contato e senti um incômodo, como se houvesse um grande cisco no olho. Pisquei várias vezes, pinguei um colírio, não resolveu. Examinei o olho em frente ao espelho, não havia nada de anormal. Ai, meu Deus, só falta essa lente ter me dado algum problema. Foram vinte e seis anos de amor a elas, sem nenhuma briga. Fui dormir, devia ser algo passageiro e se o tempo curava as brigas de amor, algumas horas de sono deveriam ser suficientes para curar aperreios com lentes de contato.
            Só que não. Amanheci com o mesmo cisco imaginário no olho. Incomodava ao piscar, incomodava quando eu olhava para cima, para os lados, para baixo. Incomodava. Pronto, era a lente mesmo. Ou algum problema bizarro. Tenho alguém com catarata na família? Como é que é que se tem glaucoma mesmo? Corri para o hospital.
            Enquanto esperava o atendimento médico, pensei sobre o quanto a vida anda difícil por conta dessa crise no governo. O amor anda complicado nos tempo…

AS JANELAS VERMELHAS DE CALIFÓRNIA
>> Carla Dias >>

Califórnia é um casarão localizado em uma rua sem asfalto de um fim de mundo qualquer. Ninguém de fora do perímetro sabe o que lá se passa. Ninguém pretende saber. Muitos estão certos de que nada de bom acontece ali.

Califórnia não recebe suas encomendas pelo correio. Seu código postal nasceu na lista negra, aquela que avisa aos carteiros que melhor é ficar longe, que eles correm risco de não fazer suas entregas e ainda voltar para casa sem sapatos e os miúdos dinheiros que frequentam suas carteiras.

Por ali, moram alguns carteiros.

O entorno de Califórnia é o das ladeiras. O casarão de janelas vermelhas e paredes brancas chama atenção pela sua formosura desandada. Tudo parece imenso em Califórnia, mas o que realmente é imensa é a porta de entrada. Vermelha. E lá ele fica, majestoso, no pico entre a Ladeira das Dolências e a Ladeira do Despenteado.

Despenteado é um homem que nasceu por ali e de lá não consegue sair. Até fez planos, arriscou tentativas, mas logo estava de volta, mala …

INVENTANDO O AMOR >> Cristiana Moura

Era tanto o encantamento entre palavras e sorrisos — desilusão entre a palavra escondida e a lágrima endurecida. Naquela noite, voltei para casa com escala planejada na padaria. Dirigia e só pensava naquelas tortinhas de morango. Ao avistar a vitrine e não vê-las meus olhos se encheram d'água. Aproximei-me. Estavam lá. Expirei aliviada. Há tempos, não procurava no açúcar cura para as dores impalpáveis. Pensei num banho de mar mas já era  noite. Precisava de algo que me aquietasse os sentidos e a melancolia oriunda da desilusão. Coisa de quem se entregara, desvelando-se em incontinência de palavras e sorrisos para um outro que era quase de verdade.

Fui chegando em casa pensando em me deitar no sofá e inventar um amor para Joaquina enquanto comia os docinhos. Ao menos para Joaquina serei capaz de dar um amor — pensei. Ah, ainda não lhes apresentei Joaquina. Nossa! Ela mal nascera e já a amo. Joaquina é minha personagem. Para ela estou a escrever dez contos. Ela me encanta. Leva uma…

CHUPETA DIGITAL >> Paulo Meireles Barguil

Na falta da teta, foi inventada a chupeta. Existem registros dela que datam cerca de 3.000 anos. Assim como a original, a genérica tem sido utilizada para alimentar e/ou acalmar bebês e crianças. Ambas, possuem várias cores e modelos, que costumam agradar aos seus usuários, notadamente a originária. A primeira não tem restrição médica. Quanto à segunda, é recomendada uma cuidadosa limpeza antes do uso. Ao longo do tempo, a chupeta utilizou vários materiais: pano, borracha, látex, silicone... Aspectos higiênicos e ortodônticos impulsionaram a constante melhoria desse importante artefato na vida do Homem.  Digno de registro, também, é a ama de leite, uma modalidade em desuso, mas que desde o século XIII foi adotada na Europa. Nada se compara, contudo, à chupeta digital, uma criação do século XXI. Essa nova modalidade, que é uma melhoria do modelo de válvula e da sua sucessora, feita de transistor, ampliou para todas as idades a sua clientela, em virtude das suas possibilidades de uso e…

QUANDO URGE... >> Carla Dias >>

Amanheceu com uma urgência se apropriando de seu espírito.

Respondeu a todas as enquetes que encontrou, de revistas às redes sociais. Leu artigos sobre religião, política, música, futilidades. Consultou livros de poesia, culinária, filosofia, atentando para as linhas em destaque que a fizeram se lembrar do motivo de não apreciar marcadores de texto: o feito deles a cercam, ela não consegue seguir para o próximo parágrafo. Marcadores de texto limitam a segunda leitura, e assim como no “à primeira vista”, ela não confia na sua percepção imediata. Preciso aprofundar-me e só então perceber-me ali.

É viciada em marcadores de texto.

Ligou para amigos e familiares, o que você acha? Filosofou para o zelador de seu prédio: e se essa urgência decidir morar em mim? Foi ele quem ofereceu a ela uma versão mais poética do silêncio. Sem saber o que dizer, compadeceu-se por ela em um longo e aflito olhar. Ela agradeceu e comentou sobre os cães da inquilina do vinte e sete, são tão bonitinhos... De r…

SIMPLES ASSIM! >> Clara Braga

Foi num piscar de olhos, tenho certeza! Se não foi em um, foram dois, no máximo! Engraçado como o meio do ano chegou rápido e curioso que tenha dado para fazer tanta coisa. 
Me peguei reflexiva esses dias, pensando em como a vida pode ter dado uma volta tão grande em um tempo tão curto e corrido. E quanto mais reviravoltas a vida dá, mais conselhos as pessoas compartilham! É engraçado como as pessoas sempre têm algo para te falar, para acrescentar ou aconselhar nessa sua nova fase de vida! 
Tentei resumir meu meio ano com algumas frases, clássicas ou não, que por algum motivo passaram a fazer sentido pra mim e que hoje fazem toda a diferença:
Não subestime as descidas!
É preciso ser muito forte para desistir!
Amar nem sempre é suficiente.
Vai passar!
Só faltam 20km!
Não compartilhe tudo!
Amigo é a família que a gente escolhe!
Cuidado!
Sorria!
Ficar sozinho sem se sentir solitário é muito bom, mas é uma arte!
Não se justifique tanto!
A culpa não é sua!
Isso é mais comum do que você im…

SOBRE A GANA DOS TAMANDUÁS >> André Ferrer

A cena remetia à melhor história de Dalton Trevisan: Uma vela para Dario. Corpo estendido. Roda de gente. Lamentos por um anônimo.
"Empatia. Falta empatia nos homens de hoje."
"Seres irracionais!"
"Sim. Coloquemo-nos no lugar do outro."
Naquelas três bocas, o vapor empurrava as palavras. Um fumo branco e fátuo, que se dispersava nos ares da manhã invernal. Então, aproximei-me. Vi os pés ressecados. As únicas partes humanas à mostra. Que alma boa, minutos atrás, cobrira o defunto com a Folha de São Paulo!
Revirado no estômago, eu conservei os olhos na página que escondia os tornozelos e estampava as mais recentes descobertas no ramo da entomologia. Eu tinha lido a matéria na véspera e concordava com quase todos os aspectos da ideia de sociedades artrópodes defendida pelo autor.
As formigas têm o seu equivalente do que chamamos de razão, mas é algo imponderável: não conseguimos nem qualificar nem quantificar uma coisa dessas. O mecanismo evolucionário provê cada…

FELIX GUISARD E O CELSO >> Sergio Geia

Outro dia caiu-me às mãos o livro “Felix Guisard – A trajetória de um pioneiro”, de Claudia Martins, da Cabral Editora e Livraria Universitária, que adquiri em 2009, que já tinha lido, que adormecia na estante, mas que, por uma curiosidade qualquer, voltou-me às mãos. Na verdade, a história do empresário Felix Guisard, contada por Claudia, se confunde com a história da Companhia Taubaté Industrial, nossa primeira grande indústria que empregava cerca de 2000 trabalhadores, e com a própria história da cidade de Taubaté; Claudia, uma jornalista, resgatou o passado como trabalho de conclusão de curso. A curiosidade era uma foto que muito apreciei: uma multidão de operários em frente à fábrica por ocasião do cinquentenário da CTI, em 1941. Um magnífico registro histórico. Pois sempre que passo por lá, e vejo a fachada da fábrica, me deita na mente aquela multidão de trabalhadores. Felix Guisard foi contemporâneo de Monteiro Lobato. No livro, há uma carta muito interessante escrita por Montei…

O PROFISSIONAL >> Zoraya Cesar

Aceitei o serviço. Não porque precisasse do dinheiro. No meu ramo não existe crise e eu soubera investir. Poderia até me aposentar, mas para quê? Engordar de tédio? 
Aceitei o serviço, portanto, para me manter no mercado, pela aventura, e pelo aprendizado - sempre me surpreendia com o ser humano e os estranhos caminhos do universo. 
O alvo era um empresário da indústria farmacêutica, que, ao que parece, fazia ouvidos moucos aos insistentes apelos dos acionistas para lançar uma nova droga no mercado. Não sou moralista, sou profissional. Não questiono as razões do contratante. Não questiono. Mas dobro meu preço se acho que, por algum motivo, o alvo não merecia seu destino. Nesses casos, dôo meu pagamento a obras de caridade. Não sou moralista, repito, mas tenho meus princípios: não mato padres ou freiras, nem pessoas com menos de 40 anos, por exemplo. Se tenho de matar, mato bem e mato rápido, ao contrário de tantos ineptos por aí. Sou profissional.
Ao chegar em casa, ela já estava me espe…

GOTEIRA>>Analu Faria

Um barulinho chato de água gotejando em metal atrapalha minha leitura. Plic-plic-plic. Vou até a pia, fecho um pouco mais a torneira. Dá certo,  por uns trinta segundos. A água volta a gotejar, dessa vez mais devagar. Plic----plic----plic. Tudo bem, tudo bem. Sou um ser humano, um ser racional, aprendi (mais ou menos) a ter paciência, enfim, é só uma goteira, vamos lá: levanto-me de novo, vou até a pia. A torneira já está bem apertada, mas cabe mais um pouquinho de aperto.
Depois de uns dois minutinhos, plic------plic------nada------plic-----------. Saio do sofá mais uma vez. Dessa vez, percebo que já não dá mais para apertar a torneira. E agora? Penso, penso, penso. Algo que abafe o som da goteira? Sim, é isso! Pego um paninho de pia, coloco no lugar onde a água atinge o metal. Dobro bem o tecido, para que o som realmente seja anulado. Funciona. 
Volto ao sofá e ao livro, feliz em constatar o que os economistas tradicionais já sabem há tempos: somos racionais, fazemos escolhas com noss…

DISTÂNCIA >> Carla Dias >>

É o que acontece quando se deixa de ser o espectador, a pessoa que, ainda que veja o acontecimento ser desfiado em sua presença, consegue manter a distância que oferece a sensação de que não é com ele. É feito filme do qual ele pode se esquecer durante o jantar.

Sente-se incomodado por reconhecer-se incomodado por ter essa distância diminuída, a ponto de ele se sentir íntimo do tema. Como é possível aproximar-se tanto do caos sem pertencer a sua arquitetura?

Duvida de tudo, desde aquele momento, aquela catarse que trouxe ausência pela mão. O que, antes daquele momento, ajudava-o a se acalmar, agora parece ineficiente balsamo. Tanto lhe inquieta como nunca. Há esse ineditismo emocional cerceando a sua sempre tão apurada razão. Essa compreensão atrasada sobre o que importa. Sobre como importar-se.

Aconteceu sem que ele percebesse. Foi de um desejo acanhado de beijar moça que conheceu em uma festa. Amiga da amiga de um amigo. Inteligente, sorriso largo, usuária da ironia para explicitar…

A MESMA PRAÇA, O MESMO BANCO >> Clara Braga

Cenário: sala de aula Personagens: eu e duas alunas de 10 anos
As duas estavam em minha mesa pedindo ajuda para terminar um trabalho sobre festa junina. Quando eu pedi uma tesoura emprestada uma delas logo trouxe, mas avisou:  - Professora, você não vai conseguir usar essa tesoura porque ela é de canhoto.  - E agora tem tesoura diferente para destro e para canhoto?  - Tem!  - Que ótimo! Mas realmente, não consigo usar.
Então a outra aluna disse:  - Deixa eu usar!
E nesse momento começou o diálogo mais engraçado que eu já tive com duas alunas em uma sala de aula.
Aluna 1: você também é canhota? Aluna 2: sou!
Depois de ver que também não conseguia usar a tesoura, a aluna começou a rir e decidiu assumir:  - Eu estava brincando, também não consigo usar, eu não sou canhota, sou destra. Aluna 1: é o que? Aluna 2: eu sou destra. Aluna 1: alérgica? Aluna 2: hã?
E as duas saíram da mesa aparentemente decepcionadas por não conseguirem ter um diálogo. Cinco minutos depois, a aluna 2 vem até min…

FALTA O QUÊ? >> Albir José Inácio da Silva

Na iminência da prisão de um ex-presidente e dos presidentes da Câmara, do Senado e do Partido, manobra-se agora para salvar couros, mandatos e reputações . As ruas não ajudam: emudecem as panelas - assombradas com o monstro que criaram - e grita-se não ao golpe.
Tem pressa o golpe. Sabe que é insustentável do ponto de vista da legitimidade, mas precisa desmontar algumas políticas públicas alçadas ao patamar constitucional. É um braseiro. A cada medida desmanteladora, a grita nacional e internacional obriga ao recuo do temeroso e assustado interino.
Ele recua quando gritos e vaias impedem seu deslocamento pelo território nacional, mas volta à carga quando silenciam. É longa a pauta de desmonte e ele vai tentar impor o máximo que puder.
Foi assim com o ministério da cultura, considerado perigoso por promover a temida cultura – sempre um entrave ao golpe pacífico e eficaz.
Para a secretaria de mulheres foi uma mulher contrária ao aborto em casos de estupro, num perigo de retrocesso de …

PERTO DO MAR >> Cristiana Moura

Olhei pela janela. Um resto de vista do mar ao fundo. A construção subindo à frente em tamanhos e ruídos indesejáveis. Ele cantava e tocava.

— Filho, eu quero morrer perto do mar com você tocando marimba para mim.

— Tá.

E continuou a cantar e a tocar.

DESIGNIO SIDERAL >> Paulo Meireles Barguil

— Durante todo o próximo ano, você ficará solteiro! — sentenciou o astrólogo. — Tem certeza? — indagou, perplexo, o cliente. — Você pode até transgredir as configurações celestiais, porém eu sugiro você não fazer isso, pois as consequências poderão ser desastrosas! — esclareceu o versado na tradição milenar. — Que chato! Logo agora que eu estava descobrindo os macetes... — murmurou, desolado, o rapaz. O silêncio encheu o ambiente durante alguns segundos. — E no próximo ano? — perguntou o freguês na tentativa de encontrar um consolo para atravessar o sombrio deserto romântico profetizado. — Acho melhor não falar sobre isso agora. Daqui a um ano, você estará preparado para ouvir — retrucou o metódico profissional. A sala, mais uma vez, ficou inundada pela ausência sonora. O paciente, depois de muito refletir, resolveu aceitar os desígnios siderais. Agradeceu ao previso, pagou a consulta e abriu a porta. Antes de fechá-la, interrogou: — Eu posso paquerar?

PSIU, NÃO SOMOS PRINCESAS >> Mariana Scherma

Segura as suas cabritas porque o meu bode está solto no pasto. Também, quem mandou usar uma saia tão curta. Se tivesse ficado em casa, nada teria acontecido. Ela ficou com mais de três, é uma galinha mesmo. Belas, recatadas e do lar. Você vai ficar encalhada. Tem que aprender a cozinhar. Batom vermelho é vulgar. Ela é uma biscate mesmo. Espera ele ligar, senão vai achar você fácil. Essas frases foram as primeiras que me vieram à mente, mas o machismo está em todo lugar, da propaganda de cerveja ao comentário desmerecedor a uma mulher no almoço de domingo e a gente, mulheres e meninas, costumávamos abaixar nossa cabeça e sorrir sem graça.
Costumávamos. Dizem que as mulheres estão chatas com essa onda de feminismo exarcerbado. Se depender de mim e das minhas amigas, continuaremos sempre chatas porque feminismo é um pensamento necessário. Feminismo não é o contrário de machismo. Feminismo é ter liberdade de agir, de pensar, de beijar, de vestir, de ser. Feminismo é não ter que trocar de c…

O TAL DO KARAOKÊ >> Carla Dias >>

Até há pouco tempo, eu nunca tinha entrado em um lugar com karaokê como item principal do menu. Na verdade, soltar a voz não é com a minha pessoa, portanto me contento em apreciar as lindezas que cantam por aí. Mas fato é que, há algum tempo, não muito, eu fui a um karaokê. Fui porque uma amiga querida, que vive entrando em roubadas de shows, passeios e decisões complicadas comigo, bom, ela insistiu. Até que...

Karaokê me lembra um tio por quem tenho profunda admiração e imenso afeto. Ele gosta de alugar o equipamento e soltar a voz nas festas de fim de ano. Presenciei o momento somente uma vez. Sempre tão reservado, figura de sorriso bonito, que não deveria economizar tanto nas gargalhadas. Quando presenciei ele soltar a voz, naquela felicidade toda, acabei ficando feliz por ele. Então, depois daquele dia, sempre que karaokê pipoca na conversa, lembro-me daquela cena, uma daquelas coisas boas que a vida registra na memória da gente.

Minha primeira passagem pelo karaokê foi bacana. M…

MÊS DE JUNHO >> Clara Braga

Não sou de acompanhar horóscopo. Acho que nem acredito muito em horóscopo. Talvez eu não saiba ler o certo, mas dos que li acho sempre que parece um texto aleatório, com um pouco de coisas boas, um pouco de coisas ruins e tudo muito superficial. A sensação que tenho é que se embaralharmos os textos entre os signos, não faria a menor diferença.
Entendam, não duvido da influência dos signos, dos astros, nem nada do tipo, só nunca li um que realmente achasse confiável. E esse é um ponto que todos concordam, tem muita gente falando baboseiras por ai.
Um dia desses, um pessoal comentou comigo sobre uma mulher que eles sempre acompanham o horóscopo mensal dela, disseram que é impressionante como as informações batem. A princípio fiquei meio duvidosa, mas ai um amigo super descrente dessas coisas disse que ele estava surpreso, as informações batiam mesmo. Bom, não podia deixar de ver essa então né.
Lá fui eu ler as previsões do mês de junho para o meu signo. Período de mudança, novas oportu…

TARTARUGA MARINHA >> Sergio Geia

Foi na semana que passei em Lauro de Freitas. O tempo amanheceu indeciso. Uma manhã cinza, mas clara. De repente, sol; ardido de queimar as costelas. Depois, chuva. Passou a chuva, voltou o sol. Eu, bobo que não sou, já tinha reparado o mar, as nuvens escuras que se avolumavam no horizonte, a circularidade temporal que se apresentava. Batata. Logo depois, mais chuva, dessa vez densa, incansável, aflita.

De modo que à tarde estávamos meio sem saber o que fazer e o que esperar do tempo. Almoçamos bem e vimos com alegria surgir o sol, como um rei. Tomamos um sorvete no centro e, vendo que o reinado se apresentava ensolarado de vez, seguimos à pé até a praia de Vilas.

Andávamos pela areia e não tínhamos nem pressa nem destino. Pois deve saber, amigo leitor, que o caminhar que realmente vale a pena, que beneficia o ser humano, é o caminhar assim, sem pressa e sem destino. A principal utilidade desse caminhar é o próprio caminhar. E quando ladeia o mar, bem melhor. Na vida, perdemos a cont…

UMA FESTA DIFERENTE NUM LUGAR NADA QUALQUER
>> Zoraya Cesar

O terreno era grande, gramado e bem cuidado, cercado por uma floresta modesta, mas viva, com seus animais, suas árvores, seu silêncio. 
Em uma pequena clareira dentro desse terreno, um grupo de pessoas parecia participar de uma festa. Uma festa estranha com gente que, se não era propriamente esquisita, ao menos era bastante heterogênea. E ruidosa.  
Um quarentão, cujo terno estampado de brocados, calças apertadas e enormes óculos coloridos lhe davam um ar extravagante, dançava com o corpo inteiro, expansivo, braços e pernas se espalhando por todos os lados. Cantava alto, desafinado e rouco. Sua histrionice, no entanto, não incomodava seus companheiros, que, imersos em si mesmos, não davam conta de sua presença. Uma mulher, elegantemente trajada de longo preto e saltos altos, dançava funk, dobrando os joelhos e agachando-se até o chão, a boca arreganhada e vermelha contrastando com seu perfil suave. Junto a ela, uma moça de cabelos azuis fazia movimentos circulares, com os braços abertos…

MAIO>>Analu Faria

Fato é que pus no prato todo o amor que tinha,
e sem pudor nem perdão,
comi, mais fervor e água,
no corredor da sorte, minha última refeição.
Fiz do grito traço inútil, cocho, tirei-lhe a cor
braço firme, laço forte, colada com a morte, segui livre,
andei logo com o andor.
Refleti na areia a sombra de olhos no chão, eu, triste e velha sem antes ser,
agora altiva e doce, rasgo o verbo, paro a foice,
com as mãos
dei de comer ao monstro diário, fiz da vida um precipício,
pulei, larguei os vícios, joguei fora o escapulário,
uni-me a Deus sem mais,
abri as janela ao frio, nos porquês me vi em paz, esperei o pior da lida,
sem medo da rima feia, pés no asfalto, abrindo fendas
rasguei veias, fio a fio, ao alto entreguei
as oferendas, o medo, a vida.
Vi-me só, nua e sem destino, brilho estável, estrela guia
a trilhar-me só e plena,
eu, magra e pequena,
nas sendas que eu queria.

INQUIETAÇÕES E AFETO >> Carla Dias >>

Pensa que talvez tudo se deva ao fato de ele não ter religião. Fosse temente a Deus, respeitasse suas leis, não estaria nessa situação. Por muito tempo, tentou educá-lo com base nas leis de Deus, mas nunca teve sucesso. Foi menino curioso, questionador, não aceitava doutrinação. Leu a Bíblia, de cabo a rabo, depois apareceu na sala, enquanto ele e sua mãe assistiam a um programa de auditório qualquer na televisão. O menino segurava um caderno, onde costumava rabiscar seus desenhos, no qual anotou todas as dúvidas que tinha. Eram páginas e mais páginas com perguntas devidamente numeradas. Perguntas que, em sua maioria, os pais não souberam responder. Era uma excitação na espera por respostas que eles jamais haviam presenciado. Pensou, naquele dia, como seu filho foi capaz de sentir tanta curiosidade sem que ele percebesse sua tempestade interior?

Não tardou para que seu menino, aquela criança desejada e esperada, para quem planejaram uma vida simples, porém honesta e sem privações, fo…