quinta-feira, 2 de junho de 2016

MAIO>>Analu Faria

Fato é que pus no prato todo o amor que tinha,
e sem pudor nem perdão,
comi, mais fervor e água,
no corredor da sorte, minha última refeição.
Fiz do grito traço inútil, cocho, tirei-lhe a cor
braço firme, laço forte, colada com a morte, segui livre,
andei logo com o andor.
Refleti na areia a sombra de olhos no chão, eu, triste e velha sem antes ser,
agora altiva e doce, rasgo o verbo, paro a foice,
com as mãos
dei de comer ao monstro diário, fiz da vida um precipício,
pulei, larguei os vícios, joguei fora o escapulário,
uni-me a Deus sem mais,
abri as janela ao frio, nos porquês me vi em paz, esperei o pior da lida,
sem medo da rima feia, pés no asfalto, abrindo fendas
rasguei veias, fio a fio, ao alto entreguei
as oferendas, o medo, a vida.
Vi-me só, nua e sem destino, brilho estável, estrela guia
a trilhar-me só e plena,
eu, magra e pequena,
nas sendas que eu queria.

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Um comentário:

Zoraya disse...

Cortante e profundo, Analu, gostei demais!