sábado, 25 de junho de 2016

INVENTANDO O AMOR >> Cristiana Moura



Era tanto o encantamento entre palavras e sorrisos — desilusão entre a palavra escondida e a lágrima endurecida. Naquela noite, voltei para casa com escala planejada na padaria. Dirigia e só pensava naquelas tortinhas de morango. Ao avistar a vitrine e não vê-las meus olhos se encheram d'água. Aproximei-me. Estavam lá. Expirei aliviada. Há tempos, não procurava no açúcar cura para as dores impalpáveis. Pensei num banho de mar mas já era  noite. Precisava de algo que me aquietasse os sentidos e a melancolia oriunda da desilusão. Coisa de quem se entregara, desvelando-se em incontinência de palavras e sorrisos para um outro que era quase de verdade.

Fui chegando em casa pensando em me deitar no sofá e inventar um amor para Joaquina enquanto comia os docinhos. Ao menos para Joaquina serei capaz de dar um amor — pensei. Ah, ainda não lhes apresentei Joaquina. Nossa! Ela mal nascera e já a amo. Joaquina é minha personagem. Para ela estou a escrever dez contos. Ela me encanta. Leva uma vida sem graça, sem sabor e num dado momento , como  quem se dá conta de ser motorista da própria vida ela decide mudar e, a partir do desejo de novidade acontecerão os contos para Joaquina. Pensei que lá pelo quarto eu poderia lhe inventar o tal amor.

Pus-me a escrever. Dei-lhe uma viagem. Ela nunca havia saído do Nordeste. Numa feira em São Paulo Jô viu os maiores morangos que já havia visto na vida. Daqueles que são vermelhos por fora e por dentro e por demais suculentos e como não existem aqui pelas nossas terras. Ela os saboreou como jamais fora capaz de sentir tal despudor entre a língua e o céu da boca. O mundo parava para que Jô destruísse cada morango entre os dentes. E fui escrevendo sua viagem e seu encontro com os morangos.

— Querida Jô, me perdoe. Eu quis lhe dar um romance, mas lhe dei apenas um sabor.

Hoje eu não soube inventar o amor.






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3 comentários:

sergio geia disse...

Contente em saber da Joaquina. Tenho certeza que virão coisas delicadas e densas. Como esta crônica de hoje. Embevecido, Cris. Embevecido.

Cristiana Moura disse...

Grata Sérgio, grata.

Zoraya disse...

Puxa, poderia procurar no dicionário das emoções uma série de sinônimos, mas vou pedir emprestada a palavra do amigo Sergio Geia e repetir: embevecida. e embriagada de morangos que explodem em sabores. Joaquina é uma felizarda em ser sua personagem.