quinta-feira, 30 de junho de 2016

UM CISCO >> Analu Faria

            Tirei as lentes de contato e senti um incômodo, como se houvesse um grande cisco no olho. Pisquei várias vezes, pinguei um colírio, não resolveu. Examinei o olho em frente ao espelho, não havia nada de anormal. Ai, meu Deus, só falta essa lente ter me dado algum problema. Foram vinte e seis anos de amor a elas, sem nenhuma briga. Fui dormir, devia ser algo passageiro e se o tempo curava as brigas de amor, algumas horas de sono deveriam ser suficientes para curar aperreios com lentes de contato.

            Só que não. Amanheci com o mesmo cisco imaginário no olho. Incomodava ao piscar, incomodava quando eu olhava para cima, para os lados, para baixo. Incomodava. Pronto, era a lente mesmo. Ou algum problema bizarro. Tenho alguém com catarata na família? Como é que é que se tem glaucoma mesmo? Corri para o hospital.

            Enquanto esperava o atendimento médico, pensei sobre o quanto a vida anda difícil por conta dessa crise no governo. O amor anda complicado nos tempos de vacas magras também. Lembrei ainda que as férias vão ser curtas, talvez não dê tempo de visitar meus pais. Droga, esqueci de pagar aquela multa de trânsito! E acho que engordei um pouco. E agora esse olho! Por que tudo tem que ser tão...

            “Senhora Ana Luisa.” - me chamaram.


            Era um cisco. Grudado na parte interna da pálpebra. “Quando é assim, eles fazem uma pressão negativa e ficam como ventosas na membrana palpebral. É bem difícil de sair mesmo.” A médica virou minha pálpebra para baixo de novo e pediu que eu piscasse. Tudo certo. Assim meio que do nada, a crise não era tão grave, o amor estava ótimo, as férias seriam lindas, a multa de trânsito não era lá um grande problema, meu corpo estava bom até demais. Um cisco, gente. 


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2 comentários:

Anônimo disse...

Inspirador!

Zoraya disse...

Maravilha de crônica curta, Analu! É isso, né? Alguns de nossos problemas não passam disso, um cisco! Amei.