sexta-feira, 17 de junho de 2016

O PROFISSIONAL >> Zoraya Cesar

Aceitei o serviço. Não porque precisasse do dinheiro. No meu ramo não existe crise e eu soubera investir. Poderia até me aposentar, mas para quê? Engordar de tédio? 

Aceitei o serviço, portanto, para me manter no mercado, pela aventura, e pelo aprendizado - sempre me surpreendia com o ser humano e os estranhos caminhos do universo. 

O alvo era um empresário da indústria farmacêutica, que, ao que parece, fazia ouvidos moucos aos insistentes apelos dos acionistas para lançar uma nova droga no mercado. Não sou moralista, sou profissional. Não questiono as razões do contratante. Não questiono. Mas dobro meu preço se acho que, por algum motivo, o alvo não merecia seu destino. Nesses casos, dôo meu pagamento a obras de caridade. Não sou moralista, repito, mas tenho meus princípios: não mato padres ou freiras, nem pessoas com menos de 40 anos, por exemplo. Se tenho de matar, mato bem e mato rápido, ao contrário de tantos ineptos por aí. Sou profissional.

Ao chegar em casa, ela já estava me esperando. Sei que foi temerário de minha parte dar-lhe a chave do meu apartamento, mas, cada vez que a via, lânguida e provocante, no sofá, esquecia meus instintos e temores. Lavínia era irresistível. 

Conhecemo-nos no bar. Talvez seja meu único hábito, beber uma dose de whisky depois de terminar um serviço. Penso na vida, observo as pessoas – aprende-se muito, observando os outros -, relaxo. 

Ela usava um vestido vermelho escuro de gola alta, as unhas compridas e quadradas pintadas de preto. Os cabelos, louros, estavam displicentemente amarrados. Exalava tanta sensualidade que quase dava para ver sua aura. No meu ramo, é questão de sobrevivência saber analisar caracteres. No primeiro olhar eu soube, de imediato, com profunda e plena certeza, que ela significava encrenca. Mas eu não resisto a uma mulher de pernas compridas.

Tornamo-nos amantes, claro. E, claro, como era de se esperar, ela era casada. Detestava o marido, mas não queria perder a mesada e a boa vida. Só lhe restava, dizia, esperar que ele morresse, para ficar com a herança. Por mim, tudo bem. Nunca fui ciumento e não gosto de compromisso. Ela podia continuar casada o quanto quisesse. Ademais, eu pressentia em seus olhos, bem lá, no fundo, um quê de crueldade e cinismo. Tive pena do marido dela. 

Não me canso de admirar os caminhos do universo. Já vi muita coisa nessa vida, mas confesso que pasmei quando descobri que meu próximo alvo, o tal empresário, era casado com Lavínia.

Sou um homem que acredita em sinais. Se o seguro morreu de velho, o desconfiado ainda vive - tanto que estou aqui, a lhes contar essa história, tão antiga quanto o primeiro homem e a primeira mulher, de traição e morte.

Cheguei tarde naquela noite úmida e quente. O suor colava minha camisa às costas, sentia-me pegajoso como um lagarto. Ela me esperava, daquela maneira sensual e tentadora dela. Trazia um sorriso rubro e desconcertante em seu rosto perfeito. 

Lavínia me esperava,
 a arma em punho
Apontava uma arma para mim. A minha arma. A arma que eu escondia debaixo da mesa da cozinha. 

- Querido, pedi a meu marido que viesse aqui, para conhecer meu amante. Fred já deve estar chegando, armado. Primeiro eu mato você, querido, que, num acesso de fúria, inconformado com o término de nosso caso, tenta me agredir, e eu tive de me defender. Quando ele chegar, eu o mato também, e direi que foi você quem o matou. Lamento muito, mas, sabe como é, business is business. Vou ganhar muito dinheiro, querido, vou ficar rica e livre para sempre.

Ela atirou. Não tive tempo nem de dizer-lhe o quanto era falho seu plano, ela atirou sem hesitar, sorrindo.

O barulho do estampido fez tremerem alguns vidros e o cheiro de pólvora seca impregnou o ar como incenso velho de igreja. 

Ela piscou, incrédula. Mas, como...?

- Acho melhor você chegar em casa antes da policia, Lavínia. Seu marido já está morto, e o revólver usado está no seu carro, com suas digitais. Comprei-o com seu CPF. Não adianta perguntar como fiz isso. Nem por que coloquei balas de festim na minha arma.

- Fred? Morto? Meu revólver...?

Foi minha vez de sorrir. Impossível explicar-lhe sobre a sincronicidade que permeia as coisas, graças à qual eu fora contratado para matar-lhe o marido, por pessoas que ela jamais desconfiaria da existência; sobre como eu antevira que ela pretendia me usar; sobre como eu virei o jogo. Impossível e inútil. 

- Corre, Lavínia. Ou não vai se livrar dos provas incriminadoras que deixei em seu carro. Eu tenho álibi, você não tem. Vai ser difícil sustentar a tese do amante ciumento. Você vai perder sua beleza na cadeia...

Ela correu. Amadores, pensei, nunca têm paciência para engendrar um plano decente, um plano B para o escape. 

Fui para o bar e esperei pelo telefonema que confirmaria a morte de Lavínia após a explosão do seu carro. 

Sentiria falta dela, uma pena. Mas, no meu ramo, não se deixam pontas soltas. Jamais poderia confiar nela. Acompanho o pensamento de Michael O’Hara, personagem de Orson Welles em A Dama de Shangai: “Pessoalmente, não gosto de ter namoradas que sejam casadas. Se ela engana o marido, vai me enganar também.” Sempre se aprende vendo bons filmes. 

A vida não é fácil para os solitários
A vida é muito dura para os solitários, pensei. 

Pedi meu whisky.





Quadro 1 - R. A. Maguire
Quadro 2 - Fabian Perez


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10 comentários:

Unknown disse...

Zoraya, acho que vc foi uma assassina de aluguel na última encarnação... dá pra sentir que vc tem um certo prazer escrevendo essas histórias mirabolantes de assassinos que pegam seus algozes de surpresa rs

Anônimo disse...

Também acho que a Zoraya tem algum mistério oculto, seja nessa ou em outras encarnações passadas!
Sempre tem suspense e um defunto na "história", dessa vez ela colocou dois, hehehe...
Gostei da "estória", o "cara" ao contrário do Lula, é bom no que faz, hahaha...
Mas também, para variar, os detalhes eróticos foram muito sucintos, ficaram restritos a beleza e as pernas da "moça"! A fase inicial poderia ser mais bem explorada sexualmente, mas a Zoraya também evita se "aprofundar", com todos os duplos sentidos possíveis, no assunto. Mais um motivo para ela tentar fazer uma "regressão" para "romper", as amarras erótico literárias!

Clarisse Amador disse...

Adorei!!!!

Anônimo disse...

Estou com medo de tomar chá na sua casa...rsrs

sergio geia disse...

Sensacional, Zoraya! O cara era bom hein? E vce mais ainda. É um deleite entrar em suas histórias. Gde beijo!

Analu Faria disse...

Bacanérrimo! Adorei!

maluco beleza disse...

que mistura de sin city e pulp ficcion

André Luiz Ferrer Domenciano disse...

Muito bom o texto. "Pulp" da melhor qualidade. Você deixa pistas no início. Nós não sabemos quais as pistas verdadeiras. Você reitera no final. Nós nos divertimos. Incrível! Ah, Zoraya, o segundo cara que comentou, lá em cima, no modo anônimo, eu sei quem é porque deixou uma pista: hehehehehe!

Ana Luzia disse...

Bons assassinos, bons investigadores, boas vítimas... Zô, vc tem um jeito único de nos fazer apaixonar por seus personagens, éticos ou não...

beijos

aretuza disse...

a gente sempre torce pelos seus criminosos!