sábado, 4 de junho de 2016

TARTARUGA MARINHA >> Sergio Geia





Foi na semana que passei em Lauro de Freitas. O tempo amanheceu indeciso. Uma manhã cinza, mas clara. De repente, sol; ardido de queimar as costelas. Depois, chuva. Passou a chuva, voltou o sol. Eu, bobo que não sou, já tinha reparado o mar, as nuvens escuras que se avolumavam no horizonte, a circularidade temporal que se apresentava. Batata. Logo depois, mais chuva, dessa vez densa, incansável, aflita.

De modo que à tarde estávamos meio sem saber o que fazer e o que esperar do tempo. Almoçamos bem e vimos com alegria surgir o sol, como um rei. Tomamos um sorvete no centro e, vendo que o reinado se apresentava ensolarado de vez, seguimos à pé até a praia de Vilas.

Andávamos pela areia e não tínhamos nem pressa nem destino. Pois deve saber, amigo leitor, que o caminhar que realmente vale a pena, que beneficia o ser humano, é o caminhar assim, sem pressa e sem destino. A principal utilidade desse caminhar é o próprio caminhar. E quando ladeia o mar, bem melhor. Na vida, perdemos a conta de quantas vezes andamos pra lá e para cá feito um vira-lata. Na maioria das vezes, um andar apressado, desatento, inútil.

A praia de Vilas tem esse nome porque existe um condomínio construído bem à sua frente, de nome Villas do Atlântico. A areia é fina, boa de caminhar; existem muitas pedras no mar que dificultam o banho. Há quiosques, baianas vendendo acarajé, mocinhas alugando guarda-sóis e cadeiras. Durante semana é vazia e agradável; nos fins de semana, um pouco mais cheia e não menos agradável.

Concentrados no espocar das ondas, fomos surpreendidos pela visão de um filhote de tartaruga do mar andando pela areia. Ele ia bem devagar; andava um pouco, depois parava; em seguida, retomava a andança. Diferentemente de nós, o filhote tinha um destino: o mar.

Segundo dizem, a mãe tartaruga sai do mar e põe ovos que depois vão arrebentar, nascendo os filhotes. Eles se ajudam e, à noite, alcançam o mar. São pequenos e frágeis, por isso, facilmente devorados por caranguejos, aves marinhas, polvos e peixes. Alguns morrem de fome ou doenças naturais. De cada mil, apenas um ou dois sobrevivem. Depois de adultos, seu grande algoz é o homem.

A pobre criaturinha, frágil como uma pétala, solitária como um viajante, sem mãe nem pai, nem irmãos, que na certa, à noite, já tinham puxado o carro, andava claudicante em busca de seu destino. Num certo momento ela parou, feito onça-pintada quando enxerga a presa e não quer assustá-la. Ficamos ali esperando pra ver o que acontecia. Depois de alguns minutos, não tive dúvidas: peguei-a, levei-a ao mar, porém, já era tarde.

Ilustração: www.tartarugas.avph.com.br



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2 comentários:

Zoraya disse...

Que belíssimo texto, Sergio! Conseguir começar falando de caminhadas a esmo e terminar com a caminhada rumo à vida é sem dúvida coisa de mestre. E triste sem ser piegas. Tá cada vez melhor

sergio geia disse...

Grato pelo carinho, Zoraya.