quarta-feira, 1 de junho de 2016

INQUIETAÇÕES E AFETO >> Carla Dias >>


Pensa que talvez tudo se deva ao fato de ele não ter religião. Fosse temente a Deus, respeitasse suas leis, não estaria nessa situação. Por muito tempo, tentou educá-lo com base nas leis de Deus, mas nunca teve sucesso. Foi menino curioso, questionador, não aceitava doutrinação. Leu a Bíblia, de cabo a rabo, depois apareceu na sala, enquanto ele e sua mãe assistiam a um programa de auditório qualquer na televisão. O menino segurava um caderno, onde costumava rabiscar seus desenhos, no qual anotou todas as dúvidas que tinha. Eram páginas e mais páginas com perguntas devidamente numeradas. Perguntas que, em sua maioria, os pais não souberam responder. Era uma excitação na espera por respostas que eles jamais haviam presenciado. Pensou, naquele dia, como seu filho foi capaz de sentir tanta curiosidade sem que ele percebesse sua tempestade interior?

Não tardou para que seu menino, aquela criança desejada e esperada, para quem planejaram uma vida simples, porém honesta e sem privações, fosse renegado por aqueles que não compreendiam questionamentos. As perguntas vinham a respeito do que fosse. Mesmo na escola, tiveram de visitar a diretora algumas vezes, porque o menino não se calava. Toda vez que tinha dúvida: por quê?

Eventualmente, ele acabou por entender, contemplando a realidade do filho, que as pessoas têm medo das perguntas, principalmente quando elas desnudam a obviedade. Cotidianamente, quando elas ameaçam seus esquemas, seus itens para manipulação.

Ele mesmo se voltou a Deus muitas vezes em pedidos desesperados para que aquietasse o espírito de seu garoto. Sentia medo do que poderia acontecer a ele por conta de tanto desejo por desvelo. E fazia sentido ele se sentir assim.

Desejou que o filho arrumasse uma boa mulher com a qual compartilhar a vida, que trouxesse seus próprios rebentos ao mundo, e assim compreendesse o medo que o amor faz brotar nos corações dos pais. E o contentamento, também. E que isso o fizesse amansar, contemplar a vida com mais satisfação e menos desejo de desnudar a tudo e a todos.

Pensa que tudo isso talvez se deva por não ter lhe mostrado, de forma efetiva, que a vida precisa de rotina, de afazeres para preencher as vinte e quatro horas do dia, senão a mente pode trafegar por terras áridas.

Apesar de não o entender, ainda que tentasse fazê-lo o tempo todo, não parava de se admirar com a gentileza de seu filho. As pessoas se incomodavam com avidez dele por saber a respeito de origens e resultados, de consequências para as escolhas coletivas, de como a ação de um poderia influenciar a realidade do outro. Ele se incomodava com isso, e havia essa culpa que tentava omitir de si. A culpa por desejar que a vida de seu filho fosse mais simples, compreensível, coubesse na vida deles e de seus afetos.

A mãe vivia entre o deslumbre e o desespero, que, adulto, seu menino seguia somente sua cabeça e coração. Ainda assim, era homem justo, e se preocupava com a preocupação dos pais. Não era raro sentar-se com eles na varanda, um de cada lado, abraçá-los e dizer palavras muito bem organizadas para proferir apaziguamento. Ainda assim, não há pais nesse mundo capazes de se sentirem tranquilos enquanto seu filho defende o que a maioria acredita ser perda de tempo.

Ah, essa chuva minguada, que não é garoa nem tempestade. Ela lhe embaça a visão e não consegue abrandar o afogueamento em suas faces. Esse som que se mistura à enxurrada de pensamentos que lhe vêm: e se tivesse se dedicado mais a responder as perguntas do filho, mesmo que não fossem as respostas que ele procurava ou mais corretas? Será que isso o tornaria mais próximo de sua cria, mais íntimo de seu instinto?

A mãe chora o choro das mães que não se conformam, naquele misto de desolação e raiva. Ele segura a mão dela, mas esse gesto, que sempre consegue acalmá-la, dessa vez não surte efeito. Olha para ela, aquele mar desaguando dos olhos, a boca gritando como jamais. Toda sua doçura ancorada naquele desespero que ele não sabe como calar. Sente um engasgo e ele ressoa, mas consegue segurá-lo, antes que a esposa o veja. Não pode chorar. Não pode desesperar. Não pode esbravejar. Deve a ela o amparo, por mais raso que ele pareça.

Talvez se ele tivesse passado mais tempo com o filho. Não que fossem distantes. Eram apenas pessoas que se afinavam em poucos assuntos. Orgulha-se de tê-lo ensinado a dirigir, de ter sido a pessoa a quem confidenciou sua primeira experiência com uma mulher, a quem pediu permissão – apesar de já ter decidido – para viajar por aí durante um ano inteiro. Ah, ele quase morreu de saudade do seu menino. Até as discussões exerciam o papel de intimidade, apesar de o filho sempre finalizá-las com um beijo demorado na cabeça nua do pai.

Sentados no chão da rua de casa, apenas alguns passos do portão, a chuva a lhes rabiscar as vistas, pai e mãe contemplam o corpo do filho, estirado e sem vida. A cena acabaria foto ganhadora de prêmios, estampada em jornais e revistas, compartilhadas por estranhos em redes sociais. Muitos fariam piada a respeito, porque há esses seres incapazes de acessar a humanidade. Porém, a maioria reconheceria nele uma daquelas pessoas essenciais ao mundo. A curiosidade intensa que causou preocupação recorrente em seus pais, aquela mania insana de questionar a tudo, de tirar os outros do eixo, de fazer com que as pessoas encarassem suas mazelas e sua importância, mudou a vida de muitos, mudou o rumo de tantos acontecimentos.

Observa a fotografia enquadrada e pendurada na parede. Ele e seu filho durante a primeira e única pescaria. A mãe tirou a foto. Não é uma imagem comum para frequentar quadros nas paredes das casas. O menino está bravo e o pai olha para ele com imenso afeto, mas é claro que não entende o motivo de tal braveza.

Desvia o olhar para outro cômodo e vê a esposa curvada sobre seus retalhos, costurando roupas para clientes impacientes, mas que ao menos a distraem da saudade que sente do filho. Foi ela quem fez questão de enquadrar essa foto. Ele não entendeu, a princípio, porque melhor seria uma foto de família em tal destaque, incluindo a esposa, ou ao menos uma em que eles pousassem com certa diplomacia. Nessa foto, tirada sem que eles pedissem, enquadrada sem que eles soubessem, colocada na parede sem que eles desejassem, a esposa contaria, muito tempo depois, que presenciou naquele momento a beleza da intimidade entre eles, como nunca ela acontecera antes. Foi uma das poucas vezes em que o pai entendeu o desejo do filho sem que o menino tivesse de explicar isso e aquilo, até chegar ao motivo. Bastaram algumas palavras e aquela braveza toda - que já naquela época, o pai não soube dizer de onde vinha, mas sabia que era válida - fez sentido.

Eu não vou comer esse peixinho, pai! Olha pra ele! Olha a carinha dele! Parece aquele peixinho do desenho que o SE-NHOR gosta! Ao entender o que angustiava o filho, naquele momento, sentiu-se tão feliz. Era simples e ele podia resolver. Ele devolveu o peixe ao lago e ganhou um raro abraço, daqueles que parecem durar horas.

Pescaria saiu da lista de passeios da família, assim como os rodeios e a temporada de caça. O menino se tornou defensor dos animais, inclusive dos animais humanos. Jogou-se ao mundo em nome de muitos. Para a mãe, aquela foi a primeira vez que ele defendeu algo e o pai compartilhou desse algo. Essa era intimidade que ela via ali. Sincronia.

Volta o olhar à foto e não contém as lágrimas. Chora em silêncio para não melindrar a esposa ou fazê-la doer com ele, mais do que já lhe dói a ausência do filho. Seu menino pode até ter questionado os ensinamentos religiosos, a própria existência do Deus, a legitimidade da polícia, a funcionalidade da política. Pode ter defendido apaixonadamente os direitos alheios, ajudado a muitos a se reerguerem, ter sido considerado a salvação de tantos, e ter se tornado a melhor pessoa possível. Mas para ele, o filho continuava a ser aquele menino que estava sempre o desafiando a repensar a vida. Era sua inspiração no aprendizado de lidar com o outro com mais compreensão, sem tirania.

Entendeu que foi o filho quem veio ao mundo para ensiná-lo o que qualquer outra pessoa não conseguiria lhe ensinar. Sentiu-se grato, disse amém, doeu em saudade.


Imagem: The Boy © Amedeo Modigliani



Partilhar

4 comentários:

Leonardo Rasz disse...

Na primeira metade do texto, foi como levar uma bofetada: você descreveu minha vida. E é bem isso mesmo, as pessoas questionadoras incomodam, as pessoas questionadoras desafiam os que caminham "...a passos de formiga e sem vontade." - como já dizia Lulu Santos.

Texto bastante interessante. Isso sem falar na ortografia, absolutamente impecável.

Marisa Nascimento disse...

Carla, saudades de te ler! Não poderia escolher momento mais oportuno para vir aqui. Que texto profundo, mágico e verdadeiro! Obrigada por tantas pequenas reflexões dentro de um só texto! Você é incrível

Zoraya disse...

Que profundo, Carla! Lindo, lindo!

Carla Dias disse...

Leonardo, espero que um dia possamos dialogar sem que a pessoa que somos tenha de servir de exemplo ao outro. Isso pode acontecer se o outro desejar, e inspirar pessoas de forma positiva é bacana. Mas esse hábito de acharmos que somos melhores, que fazemos melhor, que somos exemplo apenas diminui nossas oportunidades de conhecermos pessoas maravilhosas, que mesmo, melhor, porque trilham outro caminho, têm outras opiniões, e por aí vai, distanciam-se do que é válido. Questionar sem que o questionamento seja encarado como ofensa é aprender sobre o outro e sobre si.
Abraço!

Marisa, bem-vinda de volta.  Fico muito feliz que meu texto tenha lhe tocado de alguma forma. Beijo!

Zoraya... Ah, obrigada, Dona Gentileza.  Beijo.