quarta-feira, 22 de junho de 2016

QUANDO URGE... >> Carla Dias >>


Amanheceu com uma urgência se apropriando de seu espírito.

Respondeu a todas as enquetes que encontrou, de revistas às redes sociais. Leu artigos sobre religião, política, música, futilidades. Consultou livros de poesia, culinária, filosofia, atentando para as linhas em destaque que a fizeram se lembrar do motivo de não apreciar marcadores de texto: o feito deles a cercam, ela não consegue seguir para o próximo parágrafo. Marcadores de texto limitam a segunda leitura, e assim como no “à primeira vista”, ela não confia na sua percepção imediata. Preciso aprofundar-me e só então perceber-me ali.

É viciada em marcadores de texto.

Ligou para amigos e familiares, o que você acha? Filosofou para o zelador de seu prédio: e se essa urgência decidir morar em mim? Foi ele quem ofereceu a ela uma versão mais poética do silêncio. Sem saber o que dizer, compadeceu-se por ela em um longo e aflito olhar. Ela agradeceu e comentou sobre os cães da inquilina do vinte e sete, são tão bonitinhos... De repente, desanuviou-se. O olhar aflito deu lugar a um olhar encantado com a beleza dos cães e um deslumbramento sobre como são brincalhões.

Au, au! O zelador imitou o latido de seu preferido, Zaratustra. Depois riu de si, o que a encantou por alguns segundos.

Água com gás, café, guaraná, suco de graviola, chocolate quente e uma dose de pinga. Fez pedido, assim, de um fôlego. O moço que a atendeu achou que era pegadinha, onde está a câmera? Ela – que nada sabe sobre pegadinhas – ficou olhando para ele como se o tal tivesse perguntando onde vivem os anjos. Depois de algum tempo esperando a resposta, ele se deu conta de que o pedido era aquele mesmo. Vou ficar devendo o suco de graviola, mas prometeu que em dois tempos traria os outros itens. Trouxe e ainda colocou sobre a mesa um extra. Para adoçar a vida. Sorriu e ela sorriu de volta, o sonho de padaria entre copos e xícara.

Adora sonho de padaria.

Caminhou pelo centro da cidade. Entrou em tudo quanto era loja e questionou os vendedores, o que vocês acham? Alguns foram gentis, lamento, mas não faço ideia, minha jovem. Outros a expulsaram, minha loja não é lugar de gente maluca! Houve ainda vendedor que a convidasse para jantar. Ela declinou, vai que não encontre resposta para essa urgência. Ah, que pena...

Uma pena mesmo, que não tem um encontro há séculos.

Entrou em igreja, templo, assistiu à palestra motivacional, performance musical na rua. Bateu palmas, escutou história de estranhos, uma delas a fez chorar. Conversou com crianças nas quais os pais não prestavam muita atenção, ajudou um senhor a atravessar a rua. A gente fica velho, lerdo, e daí que nem semáforo quer saber de nos conceder um pouco mais de tempo.

Caminhou sem destino, até a noite cair. Viu a cidade iluminar-se e como as pessoas se apropriavam dela. Nem tudo o que viu foi bonito, mas não conseguia se desgarrar da beleza que era assistir à vida acontecendo.

Voltou para casa, andou pelos cômodos em diferentes ritmos.  Escutou discos antigos, revisitou fotografias, gritou até ficar rouca e o zelador tocar a campainha para ver se estava tudo bem. Uma barata... Desculpe o escândalo, mas eu tenho horror à barata. Ele procurou a barata e ela com o coração apertado por fazê-lo perder o tempo dele com a mentira dela.

Assou bolo de cenoura, chocolate e laranja. Lavou e passou roupas, tomou banho e chorou feito criança, debaixo do chuveiro, para que ninguém a escutasse. Assistiu à novela, à série, ao reality show de culinária, ao de reforma, ao de relacionamento. Relacionou-se intimamente com o desejo de aquietar-se e com os pensamentos em alvoroço. Orou, rezou, declamou, decantou.

O que será de mim, amanhã? Sorriu e deitou-se para dormir.

A urgência continuava lá, incólume e agitada.


Imagem: The Crystal Ball © John William Waterhouse

carladias.com

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2 comentários:

Zoraya disse...

"A gente fica velho, lerdo, e daí que nem semáforo quer saber de nos conceder um pouco mais de tempo." - mais uma das frases de emoção da Carla Dias!

Carla Dias disse...

Ah, né? Beijos, Zoraya!