segunda-feira, 20 de junho de 2016

SOBRE A GANA DOS TAMANDUÁS >> André Ferrer

A cena remetia à melhor história de Dalton Trevisan: Uma vela para Dario. Corpo estendido. Roda de gente. Lamentos por um anônimo.

"Empatia. Falta empatia nos homens de hoje."

"Seres irracionais!"

"Sim. Coloquemo-nos no lugar do outro."

Naquelas três bocas, o vapor empurrava as palavras. Um fumo branco e fátuo, que se dispersava nos ares da manhã invernal. Então, aproximei-me. Vi os pés ressecados. As únicas partes humanas à mostra. Que alma boa, minutos atrás, cobrira o defunto com a Folha de São Paulo!

Revirado no estômago, eu conservei os olhos na página que escondia os tornozelos e estampava as mais recentes descobertas no ramo da entomologia. Eu tinha lido a matéria na véspera e concordava com quase todos os aspectos da ideia de sociedades artrópodes defendida pelo autor.

As formigas têm o seu equivalente do que chamamos de razão, mas é algo imponderável: não conseguimos nem qualificar nem quantificar uma coisa dessas. O mecanismo evolucionário provê cada ser segundo as necessidades emergentes no contato com o mundo. Bastaria, então, sabermos algo do ponto de vista das formigas, o que, convenhamos, iria muito além de uma simples adaptação no que se refere à estatura.

"Um metro e sessenta e oito mais ou menos. Pele branca. Olhos castanhos. Entre cinquenta e cinquenta e cinco anos."

O outro policial assentiu. Fez o sinal da cruz e se arvorou na nossa direção. Braços abertos, pediu espaço. Rodopiou. Disse retoricamente:

"Morreu de frio."

Um ônibus freou nas nossas costas. Senti a turbulência da nova leva de curiosos. Fui, implacavelmente, rechaçado para longe da minha leitura - ou melhor, releitura.

Um homem abriu os braços. Usava terno e gravata num triste desalinho. Senti o seu hálito nauseabundo. Queria público. Àquelas horas, com o desjejum adiado ou cancelado, as pessoas ficam mais susceptíveis. Todos bem mansos. Até os guardas tiraram as boinas. Relativamente fácil para o homem do terno, ávido por atenção. Tinha conquistado, enfim, o seu público.

Atordoado, eu ainda remoía o fascinante e inatingível ponto de vista das formigas. O pastor, insano, convulso, teatral, abria o Livro Sagrado a esmo.

"Portanto, vos afirmo", leu ele numa voz retumbante. "Não andeis preocupados com a vossa própria vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as roupas?"

Enquanto dobrava a esquina, perguntei-me, absorto, a respeito da gana dos tamanduás.


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Um comentário:

Zoraya disse...

André, conseguir ser sutil e ácido com um tema desses náo é pra qq um não...