Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Março, 2010

AFORA >> Carla Dias >>

Eu saio sei não pra onde quando estou nesse tipo de momento. Tipo o quê?, você perguntaria, tivesse voz que viajasse no tempo e voltasse exatamente neste momento em que rabisco, em toques no teclado, a minha crônica-reflexão.

Seria essa a pergunta? Ou seria apenas um pedido para viajar nessa comigo? Bom, seja bem-vindo de qualquer forma. Questionando ou compartilhando.

Posso lhe contar assim, ao pé dos olhos que desnudam as letrinhas digitadas para minha crônica-frenesi, esse momento está desarrumado como que necessitado de absolutismos nos quais jamais acreditei, e aí moram as dúvidas e os temores. De tão atrapalhado, me colocou de castigo, a cara pra parede, o olhar desbotando feito imaginação de pintor que esqueceu como pincelar sentimentos na tela vazia. À espera sabe de quem do que e do quando.

Momento feito esse, de acordo com alguns, é quando nos permitimos endoidecer um tanto, de jeito que não se cabe mais nas convenções estabelecidas por nós mesmos, antes de ontem, quando os pla…

QUE FIQUE BEM CLARO!
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Aqui jaz um grande poeta. Nada deixou escrito. Este silêncio, acredito, São suas obras completas. (Paulo Leminski)
Não sei quem disse que conhecer pessoalmente um grande escritor é sempre um fator de desapontamento. Também não sei por que andei pensando nisso hoje, sem razão que justificasse. Justificada ou não, a frase é verdadeira.
Primeiro, nós, leitores, exageramos na mão, fantasiando, bobamente, a figura do escritor. Depois porque os escritores são mesmo – claro, com as exceções que toda regra que se preze tem – uns sujeitos pessoalmente sem brilho, apagados, às vezes espantosamente mudos. Mudos? Sim, porque eles falam pelos livros e creem (não sei se corretamente) que estão desobrigados dessa coisa realmente cansativa que é a palavra oral.
Maldade minha. Não é isso. Sei que não é isso. O que há, de fato, quase sempre, é uma absoluta incompatibilidade do escritor com a expressão oral. Lembro Drummond, Rubem Braga, Clarice Lispector... E tantos outros que seria mais sensato citar as ex…

ÁGUAS DE MARÇO >> Albir José da Silva

São Paulo continua molhado com as águas de janeiro e fevereiro e seus arquitetos já revisitam conceitos mais úmidos como o de palafitas. Chovem tempestades de março e candidatos de sempre. Mas São Paulo não pára e providencia casas para os desabrigados, cargos para os candidatos e cracolândia para os viciados, enquanto espera por outros ventos.

No Rio, o que chove é bala e autoridade perdida divulgando estratégicas informações por descuido. Agora os traficantes informados terão de se armar para enfrentar a polícia, a milícia, as outras facções, o disque-denúncia, os agentes duplos e triplos e a concorrência no transporte, no jogo, no fornecimento de gás e na televisão paga. É duro ser traficante no Rio!

Brasília, sempre a última a saber, descobriu que também fuma crack. Nascida para ser perfeita, seu problema continua sendo o que vem do Rio, de São Paulo, de Minas, do Sul, do Norte e do Nordeste: drogas e candidatos que, diga-se de passagem, são coisas diferentes. Por lá, afastado e p…

BÊNÇÃO, PAI
>> Eduardo Loureiro Jr.

Bênção, pai, para eu fecundar. Para eu arriscar, entre milhões, ser ou não ser o escolhido para continuar a linhagem de teu nome. Para eu ser expelido e correr, correr, correr, até meu objetivo final. Sua bênção para eu aterrissar nesse planeta. Bênção, Pai.

Bênção, pai, para eu nascer. Bênção para eu rasgar a mulher no sentido inverso ao qual a penetraste. Para eu inundar o mundo com meu grito, minha nudez e meu sangue. Sua benção para o meu espírito respirar o ar da vida. Bênção, Pai.

Bênção, pai, para eu sobreviver. Para eu beber o leite da tua mulher, para monopolizar seu tempo e seu colo. Sua bênção para eu receber sem ter, ainda, que dar nada em troca. Para eu ser tua criança. Bênção, Pai.

Bênção, pai, para eu crescer. Para eu andar descalço, jogar bila, jogar bola, subir em muro, subir em árvore. Sua bênção para eu lhe acompanhar no bar, no estádio, no templo, no pensamento. Bênção, Pai.

Bênção, pai, para eu conhecer. Para eu aprender a ler e a jogar xadrez. Sua bênção para a m…

DA VIDA [Debora Bottcher]

"Encarar a vida pela frente... Sempre... Encarar a vida pela frente, e vê-la como ela é... Por fim, entendê-la e amá-la pelo que ela é... E depois deixá-la seguir... Sempre os anos entre nós, sempre os anos... Sempre o amor... Sempre a razão... Sempre o tempo... Sempre... As horas." (Virginia Woolf)
Aconteceu naquele dia em que ela foi buscar uma das filhas na escola e a criança demorou-se um pouco: foi o tempo exato para uma solidão se instalar trazendo imagens que ela insistia em esquecer.

Numa outra ocasião, aconteceu enquanto ela se perdia no trânsito vagaroso: a música distante invadiu tudo ao redor e ela se viu dançando à luz da lua, numa noite sem fim que nunca mais existiu.

Teve uma vez que ela comprou flores e as espalhou pela casa. Quando seus olhos pousaram nas pétalas coloridas, um arco-íris rodeou a sala e um campo abriu-se à sua frente: trigo e girassóis, o destino deslizando no riso inocente de dois jovens felizes que desenhavam o futuro pelas brechas de sonhos p…

NADA MUITO ROMÂNTICO >> Leonardo Marona

A melhor coisa de se mudar é acabar com as bebidas da casa, esvaziar as garrafas. Ana fazia isso e limpava a testa – um gole largo e uma mão na testa; gole, testa... As coisas começaram a se amontoar no meio do quarto-sala no Leblon. Era bom ver aquilo feito. Era ótimo deitar sobre o colchão sem cama, direto no chão, com aquelas bolotinhas maravilhosas de massagem japonesa espantando as dores das costas como moscas na carne podre.Dependendo de como você deixa suas coisas, elas viram um monte de entulho. Daí bate uma certa vontade de se derreter por alguma coisa grande e dura. Ana esperava a vida bater na porta, olhando pela varanda, cuspindo no toldo encardido do vizinho, jogando baganas nos pombos que trepavam em cima do toldo. E eles trepavam com toda a classe, quietinhos, um em cima do outro, como duas pantufas de inverno. A vida não bateu na porta, mas alguma coisa o fez.Toc toc. “Toc toc é o caralho, toca a campainha, porra!” Um roupão cor de vinho semi-aberto só porque era a bic…

PROMESSAS DE MÃE >> Kika Coutinho.

Se ao casarmos nos comprometemos com coisas tão grandiosas como fidelidade e amor eterno àquele estranho que está diante de nós, por que o ritual não se repete para um filho, para uma filha?

Deveríamos. Anotar e falar aos quatro ventos o que queremos e o que acreditamos para essa relação. Eu, devagar, tenho feito a minha lista individual daquilo a que devo comprometer-me todos os dias para com esse pequeno bicho que mama em meu peito. Não é fácil. Porque já me sinto cansada e sem forças, e ela tem apenas alguns meses. Mas é disso que é feita uma relação, não é? De um amor que sobrevive “apesar de”.

Apesar de tudo, prometo que estarei atenta a você, minha filha querida. Apesar dos letreiros luminosos da rua, apesar do barulho infernal da cidade, apesar das inúmeras solicitações do dia-a-dia, eu ainda olharei para você com toda a atenção e o amor que você merece.

Apesar de toda névoa que a vida irá dissipar entre nós, ainda assim irei vasculhar no escuro quem você é, o que te faz feliz …

LUCINA: + DO QUE PARECE >> Carla Dias >>

Tudo pode ser mais ou menos do que parece, mas raramente igual. Pode desparecer só para enganar aos distraídos, e depois encantá-los com desvelo.

“A vida é mais do que parece”, dizem os religiosos, os sábios e dizem as avós, enquanto cozem delícias e engolem dolências.

Nesse mais que jamais dá a cara assim, de graça, que pede uma atenção honesta para se despir diante do nosso entendimento, encontramos um sem número de motivos para brincar de despir aparências. Por detrás dos outdoors nos quais nos estampamos para sobrevivermos à rotina, da lógica necessária para que o pão nosso de cada dia esteja na mesa quando os filhos se levantam para o café da manhã, há esse lugar que não pertence à pressa. É da preguiça do observador, da mansidão do interessado, da necessidade do ser humano.

Quando ouvi, pela primeira vez, o disco “+ do que parece”, da compositora, violonista e cantora Lucina, senti-me chegando a esse lugar privado, mas escancarado quando estamos prontos para encará-lo. Esse lugar n…

O JARDIM
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Daqui do 11º andar, vejo o jardim. A casa é antiga, de linhas clássicas, e eu a conheço bem daqui de cima. Está cercada por prédios, mas resiste com dignidade. É uma parte bonita de passado que não contradiz o presente. Vejo esse telhado vermelho, vejo a curva da escada, vejo e acho bonito.

Mas bonito mesmo é o jardim. O dono nem desconfia, mas ele já é um pouco meu. Quando estou cansado de escrever ou mesmo triste, venho para minha pequena janela (onde ninguém me vê) e vejo o jardim. Vejo rosas vermelhas, rosas brancas e até – vejam só – rosas rosas.

Parece mentira, mas na capital mineira, nesse apressado século XXI, tão  digital e tão sabido, existe uma casa com galinhas que passeiam felizes na sombra da árvore. Galinhas – juro por Deus – que nunca ouviram  falar em terrorismo. Galinhas sem opiniões a respeito do aquecimento global. Se me contassem, talvez não acreditasse, mas olha ali, leitor, está vendo?

Bonito, não? Também acho. Tem gosto de infância, um pomar cheio de verdes coi…

SÓ TEM UM >> Eduardo Loureiro Jr.

Relacionar-se é fácil, inclusive afetivamente, desde que cortemos os problemas pela raiz. E os problemas básicos de todo relacionamento são dois: exigimos que o outro seja como nós em nossas (supostas) qualidades e desejamos que os outros sejam salvadores de nossas faltas.

Pode ser uma coisa tão simples quanto a posição do papel higiênico. Quem acha que deve sair pelo lado de cima faz questão que o outro posicione o papel de modo que ele saia pelo lado de cima. Pode ser uma coisa mais complexa como as atribuições de cada um na relação: quem bota gasolina, quem faz as compras, quem chama para o sexo ou para a conversa. Um fica tentando que o outro cumpra as funções que o primeiro julga corretas. Pode até ser uma coisa para além do relacionamento: a maneira como o outro trata e se relaciona com terceiros (parentes, amigos). Dá problema quanto um exige que o outro faça as coisas do jeito que o primeiro faria.

Não bastasse o outro ter que ser igual a nós, ele também tem que ser — ao mesmo…

CONFORTO [Carla Cintia Conteiro]

Sempre lembro daquela discussão do Seinfeld com o George sobre a adequação de usar agasalhos de ginástica no dia-a-dia. George argumentava que eram muito confortáveis. Seinfeld dizia que não serviam justamente por isso. Passavam a ideia de que para aquela pessoa não restava nada além do conforto. O conforto como a última barreira antes do nada absoluto. Em programas de TV que fazem transformação no visual das pessoas, as moças e senhoras que serão salvas da ruína estética sempre defendem seu estilo inicial como confortável. Não é raro que os apresentadores se referiram àqueles trapos como “I gave up” dress (vestido “desisti”) ou “I have no sex”suit (conjunto “eu não transo”).

Leio sobre o Avatar blues, a depressão pós-Avatar. Algumas pessoas vão assistir ao filme e voltam para casa arrasadas, porque jamais verão ou viverão coisas como aquelas mostradas na fita. E eu penso sobre o que essas pessoas andam fazendo das próprias vidas, com quem se relacionam, aonde vão, com o que preenchem…

O POETA >> Leonardo Marona

Esta história, eu sei, já deveria ter sido contada. Mas me sinto ainda extremamente preso a ela, de modo que seria sempre parcial, em meu favor, ao lembrá-la. Depois percebi que guardá-la por isso seria burrice. Serei parcial agora, e sempre, enquanto sempre for agora.

Na época eu bebia muito. O resto é bem fácil imaginar: rondava as sinucas e os antros mais chinfrins até o fim da noite. Normalmente eu me tornava melancólico a partir de certa hora, e isso me levava para um lugar dentro de mim onde eu me sentia de certa forma confortável, cheio de ódio e senso de dignidade. Um lugar de muito sofrimento e amor próprio, de confusão sobre o sentido da dignidade. Normalmente eu acabava embrutecido, vomitando palavras desconexas num caderno de bolso, apenas para me sentir algo valioso, e isso era bastante estúpido e excêntrico para a maioria das pessoas – eu incluso – ainda mais com o aspecto deplorável que eu podia apresentar ao final de certas noites mal-sucedidas no meu não tão estranho j…

MEDO >> Carla Dias >>

O medo é de dormir na luz.
Lamento ter sido indiscreto
com minha dor e discreto com minha alegria.
Fabrício Carpinejar


Tenho medo do silêncio que antecede o grito, o passo que precede o tombo. Temo os que engolem a verdade logo cedo, no raiar do dia, num breakfast de usuras, chegando à noite acreditando completamente nas mentiras paridas.

Inventar verdades é correr o risco de se tornar crédulo com as insinceridades.

Sou temente às gargalhadas engasgadas, ao usufruto da palavra amor, enquanto borbulham mágoas na alma trincada e na indiferente. Almas cambaleantes, ultrajadas, invisíveis ao amansamento. Um casal de lacrimogêneos desastrados que dançam insones sobre os cacos de si mesmos.

Sou temerosa de não fechar os olhos durante a noite, de alimentar a vigília, evitar os calmantes, beber do bule o café.

Sim... Sou da era do bule, e de gravar LPs em fitas K7 para dividir com os amigos as canções que me comoviam. De adorar o cheiro de creme Nívea impregnado na minha mãe, crendo que toda mulher …

LIGAÇÕES PERIGOSAS >> Albir José da Silva

- Boa tarde, bem vindo ao nosso atendimento, o valor de sua conta é de cento e oitenta e dois reais e noventa e quatro centavos e o vencimento é dezessete de março de dois mil e dez. Se deseja informações sobre nossos produtos, digite dois. Se deseja comunicar pagamento de fatura, digite três. Se deseja mudança de plano ou cancelamento, digite quatro. Se deseja falar com nossos atendentes, digite cinco. Cinco. No momento todos os nossos atendentes estão ocupados.

Consegui falar com alguém depois de duas horas e quarenta e sete minutos e vinte e nove tentativas. E não foram mais porque a maior parte do tempo eu fiquei repetindo para os moradores do Rio de Janeiro que não era do Salão Flor de Cupuaçu e que a minha voz não estava mais grossa porque eu não era a Genalva. Expliquei tudo isso à Maria Júlia logo que ela me disse: - Repita o número do seu telefone com DDD por favor, obrigado pela confirmação, em que posso ajudá-lo? Contei que há quatro dias a cidade me liga marcando pé e mão c…

AS VIDAS DE UM HOMEM
>> Eduardo Loureiro Jr.

A Vinício de Moral
Só mesmo estando fora de seu perfeito estado mental para afirmar que vida só tem uma. Só mesmo chamando urubu de meu louro e whisky de cachorro para acreditar que uma vida é tudo que nos cabe.
Não, não falo aqui de reencarnação. Não preciso apelar para existências além da memória para afirmar o óbvio: são muitas as vidas de um ser humano.
Também não me refiro à renovação celular completa que faz com que, a cada sete anos, tenhamos um corpo completamente novo, com todas as mitocôndrias ainda crianças brincando de bola no pátio interno das células.
Tampouco falo do sono ou do sexo, essas pequenas mortes que nos deixam o corpo prostrado e, em seguida, revigorado.
Falo de passar dois dias numa cidadezinha pequena e encantadora chamada Pirenópolis, não pensando em outra coisa além de livros. E depois voltar e encarar a caixa de entrada com mais de cem e-mails de trabalho. E o beijo da mulher amada.
Falo de passar quatro dias numa casa cearense à beira-mar sem viver nada além d…

MISTURA [Debora Bottcher]

Há pessoas que vivem nas sombras, um paraíso onde a luz, por mais clara e necessária que possa parecer, escurece mais.

Há pessoas que guardam em si um interior soturno: bem no fundo, vozes e sons que o mundo lá fora é incapaz de compreender... Para quem a solidão se faz mãe, protetora incondicional dos medos.

Há pessoas para quem a alegria é tão simples como o vôo terno de uma borboleta cálida. O Amor se figura algo com fronteiras além dos limites, salto no abismo raso da essência que se faz vida.

O que importa para a maioria, para esses não faz o menor sentido. Dentro deles mora a contradição, o inevitável, o assombro diante de tudo. Os espelhos revelam fantasmas: quando olham-se bem dentro dos seus próprios olhos, não têm, nunca, certeza de saber quem são ou mesmo que aquele brilho pálido seja o real reflexo de suas verdades.

Desconhecem a mentira: são suaves demais para ela, quebram-se diante desse precipício que beira o inferno da morte dos sonhos, da desilusão rasteira, do desencant…

FLORES >> Leonardo Marona

Eu peço perdão, será cuspido dessa vez. Eu mal consigo acertar as teclas, posso te dizer que quase morri, mas fui salvo, pelas flores. Não, isso não é poesia barata. São flores com cheiro, as brancas as mais bonitas, quase frígidas, sensatas; as vermelhas, quase fecharam o elevado, elas gritavam muito, e todo mundo percebeu. E eu estava num lugar perigoso, sem ninguém para realmente dizer: “Veja bem, este é um lugar perigoso, vamos embora”, mas não devo aqui, tremendo, usar interrogações, talvez nunca mais.
Eu estava com as flores na mão, todo mundo dizia em volta, mentira, e todas as mulheres diziam: “São flores belíssimas”. Mas na hora do escuro ninguém disse nada e estava eu, na periculosamente famosa Praça do Rio Comprido, esperando o taxi, com as flores na mão. Me disseram antes, amigos: “Se eu te visse no meio do nada com flores na mão, e tivesse uma arma, te dava um tiro”. Mas nada disso aconteceu, e quero explicar, pois eu juro, é importante.
Em primeiro lugar, eu nunca recebi f…

SESSENTA POR CENTO >> Kika Coutinho

Eu estava deitada na maca, a barriga já saliente, e o médico passando aquele aparelho como um pincel deslizando o gel gelado pela minha pele. “Vamos saber o sexo?”, eu perguntei ansiosa. Ele sorriu e disse como se fosse a coisa mais banal do mundo: “Acho que é uma menina.”. Eu paralisei por um instante. Uma menina? Ele logo alegou não ter certeza, disse que era sessenta por cento de chance de ser menina, mas só iríamos saber na próxima consulta.

O número não saiu mais da minha cabeça. Sessenta por cento? Eu pensava o dia todo: Sessenta por cento, sessenta por cento, sessenta por cento... Se fosse uma médica e não um médico, ela nunca viria com um percentual. Coisa mais masculina dizer estatística. Uma mulher teria dito de outra forma, sorrido de outra forma, usado outra expressão.

Pensei na diferença entre homens e mulheres e em como as meninas são cobradas de serem lindas, inteligentes e — ainda nos dias de hoje — prendadas. Senti um aperto no coração. Será que eu poria mais uma mulh…

AMORES & SÉRIES >> Carla Dias >>

Eu era – e continuo sendo – fã de carteirinha da série Arquivo X (The X-Files), criada por Chris Carter. Torcia para que Mulder encontrasse sua irmã, ainda que ela tivesse se tornado uma extraterrestre. Também cruzava os dedos para ver se, em algum momento, a Scully sorriria sem parecer que estava sofrendo, sabe?
Mais do que tudo, uma legião de fãs torcia para que os protagonistas desenrolassem logo o romance que estava no ar e entranhado nos acontecimentos mais bizarros que eles presenciavam juntos. Eventualmente, isso aconteceu, mas ainda assim, tudo era muito esquisito.
Eu sei... O amor é uma coisa de louco.
Os improváveis casais têm sido tema de muitos filmes, livros e seriados. O amor fácil é comédia, o mais denso é drama, e se misturarmos a isso um pouco de suspense teremos Bones.
Nunca imaginei que um dia assistiria a uma série de televisão sobre resolver crimes através dos ossos da vítima... E achá-la fantástica! Mas a vida é assim, surpreendente, e ainda tem a ciência.
A Dra. Bren…

SOBRE A LUA E OUTRAS COISAS QUE DOEM
>>Felipe Peixoto Braga Netto

"Ainda bem que a noite baixou: é mais simples conversar à noite.
Muitas palavras já nem precisam ser ditas.
Há o indistinto mover de lábios no galpão, há sobretudo silêncio.
Certo cheiro de erva, menos dureza nas coisas,
violas sobem até à lua, e elas cantam melhor do que eu."
(Carlos Drummond de Andrade)
Saio, à toa, de bicicleta, por esse litoral. Estamos em dias de lua cheia; ontem estava linda, mas hoje não apareceu. Não faz mal. Também eu, se fosse lua, não apareceria hoje. Ando sem vontade de brilhar. Essa paisagem noturna de coqueiro e mar é tão boa, tão alegre e leve, lembra minha infância por aqui. Gosto desse mar à noite, belo e calmo, gosto da areia da praia iluminada, desses coqueiros gentis.
Pedalo, e sinto falta do que fui. Sim, amigos, já fui um atleta. As más línguas dirão que eu corria uns sete quilômetros, mas é mentira. Corria dez, até doze em dias inspirados. Também, em frente ao mar, com uma paisagem dessas, até de muleta — alguém resmungará — e eu concordo…

O DESAFIO DO PRIMEIRO TRABALHO ACADÊMICO
>> Maurício Cintrão

Voltar a pesquisar com o compromisso do registro acadêmico é muito diferente do escrever jornalístico. A afirmação parece óbvia, mas só parece. Muitas pessoas olharam para mim com espanto quando eu disse que estava com dificuldades para escrever a reflexão-síntese entregue no último sábado.

No geral, a expressão era “justo você com problemas em texto?”. É como se a intimidade com a escrita resolvesse qualquer desafio de texto por escrever. No mundo real não é assim. Dependendo da modalidade, o texto é um parto sem anestesia. Há situações em que o neném só sai a fórceps, porque não dá mais tempo para a cesariana.

O texto ao qual me refiro era um “dever de casa” sobre a disciplina “Legislação e Culturas Populares”, um dos módulos de minha pós-graduação em Cultura Popular Brasileira. O resultado ficou interessante, bem diferente do que eu desejava, mas melhor do que eu temia. Vamos aguardar a avaliação do professor, que vai dar prumo para essa prosa. Mas fiquei feliz por ter conseguido e…

COMO ANDA SEU INTESTINO?
[Carla Cintia Conteiro]

Dizem os desiludidos que as ideologias morreram. Pesquisas entre os jovens denunciam o hedonismo desenfreado. Nunca a beleza e o dinheiro foram tão valorizados. Quem pode se submete a sucessivas cirurgias plásticas para corrigir defeitos que mais ninguém vê ou busca um modelo de perfeição lapidado a photoshop. Por outro lado, já dizia meu pai, quem nunca comeu melado quando come se lambuza. As classes ascendentes entopem-se com a comida farta de que não podiam desfrutar antes e engordam, cevando as estatísticas sobre diabetes, doenças cardiovasculares e câncer.

Há quem resista, ou pelo menos tente se sentir um pouco especial, inventando formas de postar-se acima da turba. Entre eles estão os intelectuais que teorizam sobre programas de televisão; os vegetarianos prosélitos, do alto de seus sapatos de couro; os defensores da cultura e do bom gosto em seus discursos repletos de incoerência com a norma culta da língua e vícios de linguagem; gente que diz que só no Brasil acontece isso o…

ÚLTIMA FEBRE >> Leonardo Marona

Sangrar pelos poros é coisa normal, a ardência de expelir impurezas é quase dádiva, mas você, coisa impura, que não consigo expelir e carrego como um paralítico até as grutas da vontade, você é um problema de temperatura, você é doença do suor. Pois muito bem: 40 graus, tremeliques, língua de sogra. Nada vergonhoso. Deve-se morrer como se fôssemos gatos que pulam da janela atrás de borboletas.
Vou deixando pedaços de corpo pelo caminho, é bonito uma relação de troca com o mundo, uma relação física de troca com o mundo, é a única maneira de agradecermos a ele, ao mundo, e reconhecermos ao mesmo tempo a sua inaptidão com o tempo. Os pedaços ficam pelo caminho, unhas, pés, pedaços de mão, de braços e, reparo, é assim com todo mundo. O mundo todo é composto por pessoas amputadas. Veja o floricultor sem dedos, veja a freira sem vagina, veja o presidente sem cérebro, é uma coisa maravilhosa.
Deixo líquidos também, no auge da temperatura, mijo sangue, sorrio porque sei que é para poucos que ch…

NÃO ACABOU E JÁ RECOMEÇOU >> Carla Dias

Esperávamos pelo fim do mundo, mas ganhamos algum tempo extra. O século virou e continuamos aqui. 2012 que se cuide, pois somos bons em dar rasteira em presságios. Assim como somos péssimos em equalizar importâncias.

Muitos dizem isso, outros muitos dizem aquilo. Eu digo uma coisa e você outra. Às vezes, nos encontramos na compreensão, formando essas tribos necessárias, pessoas que se estranham o tempo todo, mas que por estarem ligadas à mesma busca, permitem-se aprender com as diferenças.

Quem diria que nos trataríamos com tamanha destreza tecnológica, alugando nicknames para os nossos eus inventados? Que molharíamos os pés diante da possibilidade de um mundo caoticamente high tech? Muitos disseram, eu sei... Mas Philip K. Dirk escreveu, Hampton Fancher e David Webb Peoples elaboraram e Ridley Scott, armado com seu Blade Runner, bateu o martelo: somos diferentes uns dos outros até, bichos, gente, máquina. Diferentes de um jeito que nos torna tão íntimos que também somos quase um.

E depo…