segunda-feira, 15 de março de 2010

LIGAÇÕES PERIGOSAS >> Albir José da Silva

- Boa tarde, bem vindo ao nosso atendimento, o valor de sua conta é de cento e oitenta e dois reais e noventa e quatro centavos e o vencimento é dezessete de março de dois mil e dez. Se deseja informações sobre nossos produtos, digite dois. Se deseja comunicar pagamento de fatura, digite três. Se deseja mudança de plano ou cancelamento, digite quatro. Se deseja falar com nossos atendentes, digite cinco. Cinco. No momento todos os nossos atendentes estão ocupados.

Consegui falar com alguém depois de duas horas e quarenta e sete minutos e vinte e nove tentativas. E não foram mais porque a maior parte do tempo eu fiquei repetindo para os moradores do Rio de Janeiro que não era do Salão Flor de Cupuaçu e que a minha voz não estava mais grossa porque eu não era a Genalva. Expliquei tudo isso à Maria Júlia logo que ela me disse: - Repita o número do seu telefone com DDD por favor, obrigado pela confirmação, em que posso ajudá-lo? Contei que há quatro dias a cidade me liga marcando pé e mão com francesinha, escovas orientais de frutas com chocolate e depilações exóticas. Ontem ligaram às três da manhã perguntando se tinha horário pra limpeza de pele, o que me fez desconfiar da seriedade desse salão. Não tenho feito outra coisa além de atender telefone e tentar falar com a senhora ou outro maldito atendente que me resolva esse tormento, já que tenho pago com fidelidade pelo direito de ser infernizado por esta empresa e seus milhares de clientes que também devem ser clientes da Genalva no Flor de Cupuaçu - aguardei ofegante, mas veio o som de ocupado substituindo a voz fanhosa de Maria Júlia e eu entrei em desespero.

Muito desespero depois, digitei cinco, musiquinha chata e bastou dizer o número com DDD para ser informado que não poderia falar com Maria Júlia, mas ela, Lúcia Helena, poderia me atender desde que, é claro, eu repetisse o meu problema. Comecei diferente: disse que estava indo a uma loja da operadora dela e que tinha muito medo de que alguém saísse de lá de ambulância e eu de camburão. O impacto foi bom porque Lúcia Helena ficou em silêncio e eu continuei. Falei do martírio que já durava quatro dias, do Salão Flor de Cupuaçu, das noites sem dormir, das milhares de ligações que recebi, das centenas de ligações que fiz para a operadora, das dezenas de números de protocolo que anotei e da ironia das promessas de solução imediata que recebi de atendentes e supervisores.

Lúcia Helena fez sua voz mais aconchegante: - Eu estou tentando lhe ajudar, mas para isso é preciso se acalmar. Não adianta ficar gritando no telefone porque não vai resolver nada, entendeu, Dona Genalva?

Taquicardia e um grande esforço pra respirar. Vejo o Celular se espatifando no chão antes que a vista escureça. Ouço mais um baque. Ouço vozes que se aproximam, se misturam, mas não entendo o que dizem. Ouço uma sirene. Já não ouço nada, penso.

Penso que não serei mais Genalva. E sorrio porque não vou poder estar pagando a fatura de cento e oitenta e dois reais e noventa e quatro centavos que vence no dia dezessete de março de dois mil e dez.

Partilhar

5 comentários:

Debora Bottcher disse...

E eu gosto dessas suas histórias 'malucas' que nos fazem rir e sorrir... :)
Beijo enorme, moço.

Cláudia disse...

E viva o tele atendimento, telemarketing e outros teles! Jogue a primeira pedra quem nunca passou por uma situação com esta! Parabéns!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Albir, até dá pra rir quando não é comigo. :) Minha nova tática: digitar a opção de compras: sempre tem mais atendentes do que a opção de problemas. :)

Thiago F. disse...

hahaha. Gosto de crônicas assim, cômicas.

albir disse...

Obrigado, Débora, beijo pra vc também.

Cláudia e Edu, é uma tortura, né? A gente ri por falta de opção.

Obrigado, Thiago, um abraço.