terça-feira, 9 de março de 2010

SOBRE A LUA E OUTRAS COISAS QUE DOEM
>>Felipe Peixoto Braga Netto

"Ainda bem que a noite baixou: é mais simples conversar à noite.
Muitas palavras já nem precisam ser ditas.
Há o indistinto mover de lábios no galpão, há sobretudo silêncio.
Certo cheiro de erva, menos dureza nas coisas,
violas sobem até à lua, e elas cantam melhor do que eu."
(Carlos Drummond de Andrade)

Saio, à toa, de bicicleta, por esse litoral. Estamos em dias de lua cheia; ontem estava linda, mas hoje não apareceu. Não faz mal. Também eu, se fosse lua, não apareceria hoje. Ando sem vontade de brilhar. Essa paisagem noturna de coqueiro e mar é tão boa, tão alegre e leve, lembra minha infância por aqui. Gosto desse mar à noite, belo e calmo, gosto da areia da praia iluminada, desses coqueiros gentis.

Pedalo, e sinto falta do que fui. Sim, amigos, já fui um atleta. As más línguas dirão que eu corria uns sete quilômetros, mas é mentira. Corria dez, até doze em dias inspirados. Também, em frente ao mar, com uma paisagem dessas, até de muleta — alguém resmungará — e eu concordo. Ah, talvez esse fosse o ritual que mais me deliciava aqui. Eram instantes de evasão e paz.

Corria, quase sempre sozinho, às vezes com amigos. Posso dizer que eles nunca me acompanharam, e não estaria mentindo. Pelo menos tinham estilo — um deles, correndo, parecia um amante flagrado fugindo do marido, e o outro me lembrava alguém atrás do ônibus atrasado. Eu, modéstia à parte, austero e elegante, corria como se o trono inglês me aguardasse, do que aliás não duvido.

O absurdo é que esse atleta, de timbre londrino, hoje não corre, eis que seus fracos joelhos não permitem. Esses apressados envelheceram antes de mim. Pedalo e sinto leve dor. Pelo menos são joelhos leais, e não doem ao mesmo tempo. Dói primeiro o esquerdo, depois o direito. Pelo que percebi, combinaram de se alternar na gentil tarefa de doer, e parecem convictos em não parar tão cedo.

A culpa naturalmente é minha, que fui imprudente. Aprendi tarde a importância dos joelhos. Na verdade não foi bem assim. Até que cuidava deles. Um infeliz, um dia, me convidou para defender certas cores no futebol. Não sei jogar futebol. Fui. Deu no que deu: um ligamento muito bem rompido, umas dores nada simpáticas, e até uma vigorosa vaia da torcida, que não achou muito convincente minha saída — carregado — de campo.

O pior é que os médicos insistem numa cirurgia que não farei. Acho que o futebol pode passar sem mim. Eu é que não sei se passo sem minhas corridinhas, tão boas, e, afinal de contas, necessárias para deixar um homem, um quase senhor, em forma. Preciso decidir isso — o que vai ser de minha vida, digamos, esportiva.

Preciso aliás decidir tanta coisa. Se a vida vai pra lá ou pra cá. Com o tempo, nossas dúvidas vão ficando complicadas e tristes. Ah, doces dúvidas dos quinze anos... Lembro que minha suprema indecisão era se usaria ou não sunga na praia. Não sei se perdi noites por isso, mas não havia deliberação mais alta.

Eis o que me sobram dos joelhos: um ligamento rompido (cruzado anterior) no direito, e uma tendinite no esquerdo. Tudo isso agravado por esse último ano de ócio e exageros. Esse diagnóstico — tendinite — foi mais antipático, embora menos grave. Um nomezinho insuportável para uma lesão crônica, que vai e volta, sem cura possível. Ora, preferia romper logo os dois, operava e pronto, ou não operava nunca, mas sem essa insistente dor mal-humorada. Aliás, o direito está doendo mais do que seria preciso.

Os joelhos deveriam envelhecer sem pressa. Como os vinhos. Com lenta dignidade. Porque, puxa, preciso deles... Se, vamos supor, um fantasma me aparecer, como correr sem joelhos? Se um cachorro não simpatizar comigo? Se um marido me interpretar mal? Vocês veem que os joelhos são artigos de primeira necessidade. Não estão à venda, pelo que eu saiba. No entanto, tudo que eu não preciso está, em liquidação e magras parcelas. Um engano do comércio que depõe contra a medicina.

Não que ande correndo tanto. Minha vida é pacata e banal. De vez em quando, é verdade, topo um roteiro ecológico mais radical, mas só de vez em quando. Nessas ocasiões, me encho de coragem e vou, de carro, até uma cachoeira, e fico fiscalizando o fluxo do rio, umas boas duas horas, depois vou honradamente embora. Mas repito: só de vez em quando, que ninguém é de ferro!

Pedalo um pouco mais depressa. Os joelhos percebem, logo reclamam. Para que, joelhos, essa dor? Não estão gostando do passeio? Não gostam de ir por aí, vendo outros joelhos em alegre exibição? Sei não, mas se eu fosse vocês me insinuaria para aquele magnífico par (que é dos joelhos andar em dupla) que vem chegando de bicicleta. Perguntem, sei lá, se estão rompidos. Eu não entendo muito de joelhos, mas aquele par não parece nada rompido. Estão gordinhos, bronzeados, parecem capazes de romper corações, isso sim.

Se bem que, salvo honrosas exceções, os joelhos se parecem muito, o que é uma lástima. Não deve ser fácil para vocês reconhecer um amigo. Tenho, aliás, um amigo que foi joelho na encarnação passada; é incrível como se parece com vocês. Traz, na face, evidentes vestígios de seu passado. É, não deve ser nada fácil ser joelhos. Pensando bem, até compreendo esse mau humor de vocês. Vivem suportando o peso do mundo, e ainda por cima são feios, têm cara de joelho. É uma triste sina.

Olha, a lua saiu... Ilumina, belamente, o mar. Os meus joelhos não parecem alegres com a lua, o que confirma minha suspeita. São uns insensíveis, só sabem doer! Olha lá, quem vem junto com a lua? Lá longe... Sim, é ela! Minha alegria! Tímida e esquiva, é verdade, mas a única que tenho. Perdão, doloridos ligamentos, mas é tempo de eclipsar a tristeza, brilhar um pouco, afinal de contas não fica bem contrariar uma lua tão clara, que chega com vivas ordens de felicidade.



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2 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Belezura de crônica! Essa vai agradar até os joelhos mais críticos e insensíveis. :)

Cacau disse...

Sim, jovem senhor, com certeza você é um lord!! "Sir" Felipe Peixoto. Com ou sem joelhos doloridos...