terça-feira, 30 de março de 2010

QUE FIQUE BEM CLARO!
>> Felipe Peixoto Braga Netto

Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
São suas obras completas.
(Paulo Leminski)

Não sei quem disse que conhecer pessoalmente um grande escritor é sempre um fator de desapontamento. Também não sei por que andei pensando nisso hoje, sem razão que justificasse. Justificada ou não, a frase é verdadeira.

Primeiro, nós, leitores, exageramos na mão, fantasiando, bobamente, a figura do escritor. Depois porque os escritores são mesmo – claro, com as exceções que toda regra que se preze tem – uns sujeitos pessoalmente sem brilho, apagados, às vezes espantosamente mudos. Mudos? Sim, porque eles falam pelos livros e creem (não sei se corretamente) que estão desobrigados dessa coisa realmente cansativa que é a palavra oral.

Maldade minha. Não é isso. Sei que não é isso. O que há, de fato, quase sempre, é uma absoluta incompatibilidade do escritor com a expressão oral. Lembro Drummond, Rubem Braga, Clarice Lispector... E tantos outros que seria mais sensato citar as exceções, e não a longa fila da regra.

E não será isto mesmo? O escritor escreve porque, falando, não é lá essas coisas. Busca naturalmente formas privilegiadas de expressão. Mal comparando, é como o cego que desenvolve tão sutil talento para a música, compensando num sentido a ausência do outro.

Comigo já aconteceu, duas ou três vezes: encontrar pessoalmente sujeitos cuja escrita admirava profundamente. Eu os admirava e, no contato pessoal, que lástima! Que estranho abismo! Ou não escreveram nada daquilo, pensei, ou são uma brincadeira da natureza.

Ingenuidade minha. Claro que escreveram. Se fossem sujeitos loquazes e encantadores, despachados e bem relacionados, aí sim, deveriam despertar suspeitas acerca da autoria dos escritos. Mas sendo esquivos, desconfiados, levemente rudes, tudo certo, são mesmo, em certo sentido, escritores completos.

Não faço apologia da esquisitice. Apenas constato que a natureza apenas muito raramente concede várias graças simultâneas a um sujeito. Se é belo, não será o mais inteligente. O mais inteligente não será o mais sociável. O mais sociável não será o mais arguto. E por aí vai. Claro, claro, há exceções. Reconheço que sim. Só, porém, como falei antes, singelamente confirmam a regra.

Não foi Mário de Andrade quem disse que existe em geral nos artistas uma incompetência formidável para viver? E quem atira pedra na afirmação? Porque, puxa, é assim. Duvido que Joyce soubesse trocar uma lâmpada. Desconfio que Machado não tenha sido, na vida social, um sedutor. Acho que Rosa não era um tagarela, que despejava poesia nos outros.

Mas isso aqui não é um artigo erudito sobre a escrita, e sim uma crônica vagabunda sobre a minha escrita. Diferença grande. Já que o assunto sou eu, aproveito (se o leitor me dá licença) para saber umas coisas sobre mim, já que quase nunca respondo minhas perguntas. Alego falta de tempo, mas é outra coisa. Não costumo dar muita bola para os chatos inconvenientes, especialmente quando o chato sou eu.

Que fique bem claro: escrevo para ser amado! Escrevo para que me conheçam e, quem sabe, gostem de mim. É isso, e é tudo. A história, amigos, é velha e vulgar, mas verdadeira. Para ficar num único exemplo, cito Mário de Andrade: "Minha convicção é que não tem artista que não artefaça para ser amado, e já falei que quebrava a pena o dia em que deixasse cair dela uma frase que não tivesse a intenção de buscar pra mim um benquerer através desse mundo".

Portanto, se eu algum dia desmentir isso – que escrevo para ser amado, com um convicto ponto de exclamação –, estarei bêbado. Ou fingindo. Se isso acontecer não acreditem, porque a verdade é a que digo hoje, que estou com vontade de sinceridade.

E tem mais: escrever é confessar que a vida não basta. E não basta mesmo. Não, pelo menos, para esses infelizes, os escritores, que reinventam a vida que não podem viver. Escrever, para essa gente, é uma gentileza (necessária) do destino, porque, sem isso, ficariam furiosos, ou seriam, na melhor das hipóteses, doidos mansos. Não que não sejam. Mas exorcizam os piores demônios por aqui, na complacência da folha de papel.

(...)

Deus, a originalidade não é deste mundo. Escrevi os parágrafos acima há uns meses. O que leio hoje? O velho Pessoa dizendo o que eu disse, antes de mim e melhor do que eu. Obviamente. Toma, Fernando, que a palavra é tua: "A literatura, como toda arte, é a confissão de que a vida não basta". Satisfeito? E eu pensando que a terra era virgem. Vou ao silêncio. É o que me resta. O que não sei dizer é mais importante do que o que digo. Hein? Já escreveram isso também? Puxa, nem calado sou original...

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6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Felipe, se o objetivo era ser amado: conseguiu. Belezura de crônica, impossível de não se gostar. :) Essa é para abrir antologia.

Gabriella disse...

Eu creio, Felipe, que é sempre possivel ser amado, mas devemos fazer por merecer.

Anônimo disse...

Valeu, Edu. Cara, você acredita que até hoje não aprendi como é que se cadastra pra postar os comentários? Procê ver minha intimidade digital. Rs...

Pois é, Gabriella.

abraços,

felipe peixoto

fernanda disse...

acho que é por isso que, embora eu goste muito de escrever, nunca serei uma escritora primorosa. sou sociável e despachada demais. falo muito, vivo muito. quase não sobra sobre o que escrever.

em toda minha vida, conheci apenas um escritor do qual já havia lido um livro. e essa experiência ratifica tudo o que você escreveu. o que não é ruim, de jeito nenhum. eu gosto das duas versões dele :P

Cristina Eduarda disse...

Felipe,

Descobrir este texto é como ler cartas de um amigo ou parente querido que mora longe (ou nem tanto) e que ficamos ansiosos por encontrá-las na caixa de correio. Pena que hoje quase ninguém mais escreve cartas...

Então o que nos resta é encontrar bons textos, boas crônicas que surgem como presetes para quem lê!

Parabéns!

Toda terça vou ficar de olho no carteiro...

Cris

Anônimo disse...

Felipe,

É muito bonito e sincero isso: escrevo para ser amado.

Adorei.....