quinta-feira, 11 de março de 2010

SESSENTA POR CENTO >> Kika Coutinho

Eu estava deitada na maca, a barriga já saliente, e o médico passando aquele aparelho como um pincel deslizando o gel gelado pela minha pele. “Vamos saber o sexo?”, eu perguntei ansiosa. Ele sorriu e disse como se fosse a coisa mais banal do mundo: “Acho que é uma menina.”. Eu paralisei por um instante. Uma menina? Ele logo alegou não ter certeza, disse que era sessenta por cento de chance de ser menina, mas só iríamos saber na próxima consulta.

O número não saiu mais da minha cabeça. Sessenta por cento? Eu pensava o dia todo: Sessenta por cento, sessenta por cento, sessenta por cento... Se fosse uma médica e não um médico, ela nunca viria com um percentual. Coisa mais masculina dizer estatística. Uma mulher teria dito de outra forma, sorrido de outra forma, usado outra expressão.

Pensei na diferença entre homens e mulheres e em como as meninas são cobradas de serem lindas, inteligentes e — ainda nos dias de hoje — prendadas. Senti um aperto no coração. Será que eu poria mais uma mulher no mundo? Mais alguém a sofrer a pressão por um corpo perfeito, mais alguém a ter que se dividir entre o trabalho, o marido e os filhos? Mais alguém a amar loucamente e ter seu coração partido? Sessenta por cento, meu coração já estava partido por ela. Se eu tivesse uma menina, como ensiná-la a não sofrer pelos homens, a não se cobrar demais, a não se culpar muito, a não morrer de cólica todo mês?

Não havia jeito. Sessenta por cento de chance de estarmos encrencadas. Eu e ela. Minha menina sem nome, que viria se os sessenta por cento estivessem certos, teria um caminho árduo pela frente. Pobrezinha, eu pensava angustiada.

Quando voltei na próxima consulta, ele, o médico homem que me atendia, sorriu ao ver a imagem na telinha do ultra-som. “E aí?”, perguntei com o coração aos pulos. Ele fez um instante de silêncio e, nesse único instante, uma imensidão de pensamentos me invadiu. Sessenta por cento de chance de ser uma guerreira, uma pessoa de bem, uma filha que irá ter filhos, ensiná-los também a amar e a sofrer. Sessenta por cento de chance de ser alguém que irá educar meninas e educar meninos. Sessenta por cento de chance de ser uma sortuda que verá um dia a sua barriga crescer, sentirá seu coração transbordando de amor e de alegria e, quando chorar, se sentirá movida por uma força e uma empolgação que só é dada às mulheres. Sessenta por cento de chance de ser alguém em evolução. Alguém que há tão pouco tempo atrás não poderia votar, não poderia trabalhar, não poderia opinar. Alguém que revoluciona o mundo em silêncio há muito tempo e, com barulho, há pouquíssimo tempo. Alguém que conquistou muito, mas que — ao contrário dos homens — ainda tem muito a conquistar. Sessenta por cento de chance de ser uma menina, e eu iria explodir de alegria. Meus olhos já estavam molhados, eu já sabia quando o médico sorriu mais uma vez, também feliz, e afirmou categórico: “É uma menina.”. Cem por cento. Eu não poderia me sentir mais feliz.

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6 comentários:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ih, essa dupla feminina vai dar trabalho ao pai/marido. :)

Cristiane disse...

Uma bela crônica na semana do Dia Internacional da Mulher. Se bem que dia de mulher é todo dia, todos os minutos do dia. Uma das coisas boas de ser mulher é não ter de servir no exército e nem matar ratos. Credo. Detesto ratos! Mas ter que "matar" uma celulite por dia é dose... pobre Sofia.

M.F. disse...

Linda, linda, linda essa crônica! Eu fui me sentindo nervosa enquanto lia pra saber a resposta do médico, rs. Uma ótima homenagem ao dia das mulheres realmente :)

Anônimo disse...

Kika,

Sabe a possibilidade de eu gostar do que você escreve? Cem por cento. Vale cento e sessenta? Rs...

beijos!

Felipe Peixoto

Cristiane disse...

Voltei porque este seu texto me fez lembrar de uma poesia da Adélia Prado que diz assim:

"Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou."

albir disse...

Kika, acompanhamos Sofia por suas crônicas desde que ela ainda era talvez. E ficamos felizes com você na medida em que ela se tornou certeza e realidade.