sábado, 6 de março de 2010

COMO ANDA SEU INTESTINO?
[Carla Cintia Conteiro]

Dizem os desiludidos que as ideologias morreram. Pesquisas entre os jovens denunciam o hedonismo desenfreado. Nunca a beleza e o dinheiro foram tão valorizados. Quem pode se submete a sucessivas cirurgias plásticas para corrigir defeitos que mais ninguém vê ou busca um modelo de perfeição lapidado a photoshop. Por outro lado, já dizia meu pai, quem nunca comeu melado quando come se lambuza. As classes ascendentes entopem-se com a comida farta de que não podiam desfrutar antes e engordam, cevando as estatísticas sobre diabetes, doenças cardiovasculares e câncer.

Há quem resista, ou pelo menos tente se sentir um pouco especial, inventando formas de postar-se acima da turba. Entre eles estão os intelectuais que teorizam sobre programas de televisão; os vegetarianos prosélitos, do alto de seus sapatos de couro; os defensores da cultura e do bom gosto em seus discursos repletos de incoerência com a norma culta da língua e vícios de linguagem; gente que diz que só no Brasil acontece isso ou aquilo sem jamais ter tirado o passaporte. É urgente expressar suas impressões sobre todas as coisas. Não que as coisas sejam importantes. Relevante é a própria opinião e, em última instância, quem a emite. O foco de todo esse povo é um só: o próprio umbigo.

Assim, foi sem surpresa que comecei a reparar, em muitos anúncios da TV, a cicatriz que todos temos no ventre como estrela, cheia de setas apontando em sua direção ou a partir dela. Não há um intervalo comercial sem pelo menos uma peça publicitária que sugira que você reflita seriamente sobre seu movimento peristáltico. Ser como um reloginho virou uma necessidade premente da sociedade pós-moderna. Quem não vai ao banheiro todos os dias, na mesma hora, há de sofrer consequências nefastas.

É simples. Quem quer conquistar alguém fala da maior paixão de seu interlocutor. O próprio umbigo é o centro do mundo de cada um, portanto, se estão todos olhando para lá, há que se criar produtos adequados ao interesse desse público. Tome o iogurte, beba o chá, engula o medicamento. Você não há de querer ficar enfezado, cheio de espinhas, estufado.

Então quem pretende cativar alguns fãs, para compartilhar do juízo que faz a seu próprio respeito, antes há que mostrar alguma simpatia. E isso anda bem difícil. Todo mundo quer estar no palco, ninguém quer ser platéia. Logo, não importa se você é uma diretora, produtora, atriz, apresentadora premiada e prestigiada. Ao encontrar conhecidos na praia, antes de assuntar sobre filhos, pais, cônjuges, trabalho e hobbies, seja esperto e pergunte:

— Como anda seu intestino?

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Um comentário:

Marcela Santos disse...

Adorei! Foi a primeira coisa que pensei quando vi o comercial; quem pergunta do intestino logo que encontra conhecidos na praia?!
Mas, acho que a história de que "Nunca a beleza e o dinheiro foram tão valorizados" é uma questão de circuntâncias. É muito mais fácil ser materialista no mundo de hoje.

Gostei da análise =D