sábado, 20 de março de 2010

CONFORTO [Carla Cintia Conteiro]

Sempre lembro daquela discussão do Seinfeld com o George sobre a adequação de usar agasalhos de ginástica no dia-a-dia. George argumentava que eram muito confortáveis. Seinfeld dizia que não serviam justamente por isso. Passavam a ideia de que para aquela pessoa não restava nada além do conforto. O conforto como a última barreira antes do nada absoluto. Em programas de TV que fazem transformação no visual das pessoas, as moças e senhoras que serão salvas da ruína estética sempre defendem seu estilo inicial como confortável. Não é raro que os apresentadores se referiram àqueles trapos como “I gave up” dress (vestido “desisti”) ou “I have no sex” suit (conjunto “eu não transo”).

Leio sobre o Avatar blues, a depressão pós-Avatar. Algumas pessoas vão assistir ao filme e voltam para casa arrasadas, porque jamais verão ou viverão coisas como aquelas mostradas na fita. E eu penso sobre o que essas pessoas andam fazendo das próprias vidas, com quem se relacionam, aonde vão, com o que preenchem seu tempo de passagem por esta Terra. Certamente não são criaturas ricas em seu íntimo. Devem estar comodamente vestidas ou despidas em seus acolhedores casulos domésticos, entupindo-se com sua comfort food.

A tentação do conforto é grande. Quase tanto quanto suas melancólicas contra-indicações. Sentir-se confortável numa roupa deselegante, num emprego desestimulante, que paga mal, mas é seguro, num casamento morno, numa vida medíocre é meio caminho andado para a infelicidade. Para ser feliz, o ser humano precisa ter seus neurônios desafiados, seus sentidos estimulados, sua curiosidade atiçada. Parar em algum ponto e achar que ali está bom é péssimo. Quem não pedala, cai da bicicleta. Ou desce a ladeira de ré. Carpe diem, portanto.

Conheço pessoas exaustas que são incapazes de dizer o que fizeram entre o momento que abriram os olhos pela manhã e o instante em que se recolhem confortavelmente à noite. Estão vivendo no piloto automático, todos os dias iguais. Vão aos mesmos lugares, encontram as mesmas pessoas, falam sobre os mesmos assuntos, comem as mesmas refeições e assistem aos mesmos programas na TV. Sentem-se miseravelmente infelizes e nem sabem direito por que ou o que as incomoda. Derretem-se na flacidez da alma. Culpam filhos, pais, cônjuges ou toda a humanidade por não lhe darem carinho, apoio e atenção, quando quem lhes está faltando com amor são elas próprias. Que interesse é esse que querem suscitar se não se fazem interessantes?

Ao receber sua estatueta, na cerimônia do Oscar, o diretor de efeitos visuais de Avatar disse: "O que nós fizemos com Avatar foi pegar coisas que estão aí fora no mundo o tempo todo e torná-las maiores, mais brilhantes. Toda nossa inspiração veio do mundo real, e eu queria encorajar as pessoas a saírem e olharem para essas coisas".

Pode ser que tudo o que se precise seja perceber a vida por si mesmo, experimentando com os próprios sentidos e não através do filtro da Internet, da TV, dos jornais e revistas. Deixar um pouco de lado o luxuriante sofá, a poltrona que já se amoldou a curvas corporais cada vez mais roliças, a cadeira com apoio para os braços, rodinhas e encosto para a cabeça. Abrir a janela. Sair porta afora. Esquecer o carro em casa e liberar a atenção para observar a paisagem, as pessoas, o que acontece em volta. Descobrir um corpo com músculos e uma mente viva, que pensa sozinha e tira suas próprias conclusões. Abandonar a languidez passiva. Dispensar o conforto diário e arriscar umas bolhas nos pés, uns calos nas mãos, uns sustos, umas lágrimas diante de um milagre cotidiano, uns lampejos de inspiração...

Desconfortar-se, desconformar-se, por fim, ser!

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5 comentários:

Silvana Nunes .'. disse...

Muito bom esse seu espaço. tem muito material para ler. FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... voltará mais vezes.
Bom final de semana.

Cristiane disse...

Mas a vida, esta mesma a ser sorvida todo dia, não tem receita, não tem quê e nem onde. A vida, este viver continuado. E eu não consigo deixar de pensar em Fernando Pessoa:

"Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses. [meu verso favorito deste poema]

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam."

Ricardo Reis, um dos heterônimos de Fernando Pessoa (1888-1935)

Carla Cintia disse...

Oi, Silvana!

O Eduardo é muito caprichoso com este espaço. É uma das minhas esquinas favoritas da Internet também.
beijo,
Carla Cintia

Carla Cintia disse...

Oi, Cristiane!

Pessoa é sempre adequado, em todos os momentos. Ter feito você se lembrar dele é uma honra para mim.
Agradecida.
beijo,

Carla Cintia

Anônimo disse...

Carla Cíntia! Que prazer ler sua crônica! Adorei..quero mais..aguardo a noite de autógrafos do livro. bjs cris portella