sexta-feira, 12 de março de 2010

FLORES >> Leonardo Marona

Eu peço perdão, será cuspido dessa vez. Eu mal consigo acertar as teclas, posso te dizer que quase morri, mas fui salvo, pelas flores. Não, isso não é poesia barata. São flores com cheiro, as brancas as mais bonitas, quase frígidas, sensatas; as vermelhas, quase fecharam o elevado, elas gritavam muito, e todo mundo percebeu. E eu estava num lugar perigoso, sem ninguém para realmente dizer: “Veja bem, este é um lugar perigoso, vamos embora”, mas não devo aqui, tremendo, usar interrogações, talvez nunca mais.

Eu estava com as flores na mão, todo mundo dizia em volta, mentira, e todas as mulheres diziam: “São flores belíssimas”. Mas na hora do escuro ninguém disse nada e estava eu, na periculosamente famosa Praça do Rio Comprido, esperando o taxi, com as flores na mão. Me disseram antes, amigos: “Se eu te visse no meio do nada com flores na mão, e tivesse uma arma, te dava um tiro”. Mas nada disso aconteceu, e quero explicar, pois eu juro, é importante.

Em primeiro lugar, eu nunca recebi flores. Ou seja, quando as vi chegando, olhei fundo para mim mesmo e fiz a piada: “Ora, muito obrigado, loucura”. Mas havia também um outro ser humano, no entanto, olhando na minha cara e pedindo a minha assinatura: o entregador das flores. Eu demorei a dar a minha assinatura e, vou dizer um negócio, mesmo quando assinei, assim mesmo pensei: “Você é importante, um beijo, Leonardo Marona”. Eu estava fazendo isso por desprezo e para rir um pouco. E acreditem, quando se tem medo, rir ajuda muito.

Mas na verdade não havia desprezo nem piada, e isso seria a minha salvação, pela primeira vez. Quer dizer, estamos sempre esperando alguma coisa que nos salve, uma contradição, algo a que se debruçar como erro límpido, e dessa vez foi você, através das flores.

Sei dormir muito bem para o lado esquerdo, mas meu braço esquerdo me dói a ponto de eu querer amputá-lo. Alguém lúcido diria: “Bobagem, lida-se com os problemas e continua-se vivendo, e ponto final”; e essa pessoa teria razão.

Mas aqui não falarei – não dessa vez – da razão. Falarei de como fui parar, tarde demais, na Praça do Rio Comprido, e de quanto isso é perigoso, a certa altura da noite, na escuridão asséptica do Rio de Janeiro, e de como, ainda assim, recebi flores. No elevador, os desatentos decretaram o anjo: “Essa flor, essa vermelha, cheira tão bem!” E havia, além de tudo, uma mulher bem magra. Poderia dizer “bastante magra”, mas não direi isso: direi “bem magra”. Uma mulher magra e alta e que poderia, com dificuldades, ser uma pessoa feliz. Mesmo assim, havia algo de errado, de fatalmente incompleto nela, tanto quanto em mim, principalmente sem conhecer ninguém, na praça, com medo. E com essa menina magra eu fiquei maior, simplesmente porque ela tinha medo e, fatalmente, ela seria uma boa foda, mas sobre isso também não falarei – não aqui, aqui não cabem pontos de interrogação, as frases devem sair afirmativas –, a não ser que eu dissesse baixinho, e para o meu próprio raciocínio (o que não aconteceu): “Que estranho é ver alguém a quem se ama como alguém a quem não se conhece”.

Era exatamente como eu me sentia, buquê na mão, o medo na espinha, tão tarde e eu com tantos sorrisos, com tantos desaforos a dizer, calado. A cara até se mexe, o resto do corpo se entrega a perguntas do tipo: “Não se sente bem”; mas é óbvio que não, as interrogações tornaram-se obsessivas, e nem bem sou um poeta integral, digamos que eu tenha lampejos, e gostaria tanto de cheirar as flores, parar, beijar, apenas ofegar, deixar que o corpo dissesse qualquer coisa, mas faz quase um mês – e não vejo você. Você que é você, mas nunca pediu nada, e sempre deu.

E agora me enviam, delicadamente, flores pelo correio. E essas flores são o que, apesar de tudo, me salvaram na ausência de afeto, no meio da praça escura, onde não vendem mais nada, e nada vem.

Sabe que, meu amor, até eu mesmo cheirei as flores. Pensei: “Devo cheirá-las. Elas são para mim”. E é tão estranho, para mim, ter algo de meu, e que eu possa cheirar. Mesmo durante o caminho eu chorava, a coisa mais óbvia, mas eu parecia realmente um cavalheiro: envelheci. Mas por nenhum momento – e este foi meu anjo – eu esqueci que tinha na minha mão flores vivas, as quais cuidarei até se fazer o silêncio dos ossos das flores, aquele desconhecido, repentino, surpreendente, que não é o nosso, até que, como o caule da margarida imponente eu me quebre, para deixar bem claro que não há marfim: só há o corpo, avariado.


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Um comentário:

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Beleza de prosa, Léo! Ler texto assim é feito pegar carretilha no mar.