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NÃO ACABOU E JÁ RECOMEÇOU >> Carla Dias

Esperávamos pelo fim do mundo, mas ganhamos algum tempo extra. O século virou e continuamos aqui. 2012 que se cuide, pois somos bons em dar rasteira em presságios. Assim como somos péssimos em equalizar importâncias.

Muitos dizem isso, outros muitos dizem aquilo. Eu digo uma coisa e você outra. Às vezes, nos encontramos na compreensão, formando essas tribos necessárias, pessoas que se estranham o tempo todo, mas que por estarem ligadas à mesma busca, permitem-se aprender com as diferenças.

Quem diria que nos trataríamos com tamanha destreza tecnológica, alugando nicknames para os nossos eus inventados? Que molharíamos os pés diante da possibilidade de um mundo caoticamente high tech? Muitos disseram, eu sei... Mas Philip K. Dirk escreveu, Hampton Fancher e David Webb Peoples elaboraram e Ridley Scott, armado com seu Blade Runner, bateu o martelo: somos diferentes uns dos outros até, bichos, gente, máquina. Diferentes de um jeito que nos torna tão íntimos que também somos quase um.

E depois dessa melancolia agradável, cultivadora de um fim de mundo dependurado no abismo das nossas tentativas de sobrevivência, queremos todos nos mudar, mala e cuia, para Pandora, arranjar um Na’vi para amar, que nos ensine a compaixão e o respeito que a nossa humanidade desbancou em algum ponto. E desejamos com todas as forças poder dormir debaixo da árvore que não se cansa de contar a história dos seus, vivermos conectados com o planeta e com o outro, direito adquirido depois de uma guerra típica: balaio de enganos e desejos pessoais.

A tecnologia, danada, mostrando o quanto é importante aquilo que ela não tem: sensibilidade para compor a própria humanidade.

E a orca veio visitar o Rio de Janeiro que continua lindo, fez aniversário, aquele abraço, que cospe balas perdidas e cartões postais, enquanto se veste para os Jogos Olímpicos de 2016.

E políticos ainda sacaneiam seus destemperados eleitores, que preferem reclamar de longe, como reclamam das enchentes sem pensar que muitas poderiam ser evitadas com gestos simples e autorais, como cuidar do próprio lixo para que ele fique bem longe das bocas-de-lobo.

E o que mais me intriga são os que choramingam um “aconteceu”, depois de revelarem que mataram por amor...

Por amor, assim como a maioria, já fiz tantas burradas, já errei a mão tantas vezes, mas não me lembro de algo que se aproxime de tirar a vida de qualquer ser humano. No máximo, mato o tempo ouvindo love songs dos anos 70, chorando e rindo ao mesmo tempo, soluçando de coração psicodelicamente partido.

A minha compreensão do amor – versão Ridley Scott, James Cameron, Led Zeppelin ou Cebolinha - não consegue creditar a ele a capacidade de exonerar a existência do outro, e ainda de forma predadora... Se é que existe uma que não o seja!

Reconheço as manhas e as artimanhas do amor. Reconheço as frustrações, as mágoas. Mas não reconheço a inspiração que muitos dizem ele ter oferecido para sua própria execução: balas, serpentinas, lâminas, pradarias, desovas.

É tudo uma questão de crédito? E mérito...

Os óculos de John Lennon, as vestes de Gandhi, o ambiente de Chico Mendes, o rugby de Mandela, e as benfeitorias anônimas que recebemos e estrelamos diariamente. A música desfiando o desejo por paz, a violência perdendo força, a natureza protegida, a liberdade ganhando o jogo.

O mundo acaba a cada feito e recomeça no segundo seguinte, a gente se equilibrando na novidade. A correria contemporânea, tão distante das tardes arrastadas do começo do século passado, quando as visitas eram frequentes nas salas de casa, não nas virtuais.

Acredito que, antes de acabar esse mundo há de começar: as pessoas descobrindo nele as importâncias que as seduzem no imaginário. Encontrando nele a possibilidade de apreciar a natureza, respeitando-a como sempre desejaram ser respeitados. Ouvindo uma canção que fale sobre a paz reconhecida, a não-violência a tiracolo, e contando com a liberdade como companhia.

E cartões postais de papel reciclado...

Image: Francesco Marino / FreeDigitalPhotos.net

www.carladias.com

Comentários

albir disse…
Carla,
Como sempre, uma crônica bela e necessária. Da reciclagem do papel, das pessoas, da liberdade e da esperança.
Carla Dias disse…
Obrigada, Albir : )
Uau, Carla! Essa foi um verdadeiro caleidoscópio de tons e assuntos. Surpreendeu-me bem! :)
Carla Dias disse…
Opa!
Surpreender é bacana, mas surpreender bem é mais bacana ainda : )

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