sábado, 27 de março de 2010

DA VIDA [Debora Bottcher]

"Encarar a vida pela frente... Sempre... Encarar a vida pela frente, e vê-la como ela é... Por fim, entendê-la e amá-la pelo que ela é... E depois deixá-la seguir... Sempre os anos entre nós, sempre os anos... Sempre o amor... Sempre a razão... Sempre o tempo... Sempre... As horas."

(Virginia Woolf)


Aconteceu naquele dia em que ela foi buscar uma das filhas na escola e a criança demorou-se um pouco: foi o tempo exato para uma solidão se instalar trazendo imagens que ela insistia em esquecer.

Numa outra ocasião, aconteceu enquanto ela se perdia no trânsito vagaroso: a música distante invadiu tudo ao redor e ela se viu dançando à luz da lua, numa noite sem fim que nunca mais existiu.

Teve uma vez que ela comprou flores e as espalhou pela casa. Quando seus olhos pousaram nas pétalas coloridas, um arco-íris rodeou a sala e um campo abriu-se à sua frente: trigo e girassóis, o destino deslizando no riso inocente de dois jovens felizes que desenhavam o futuro pelas brechas de sonhos possíveis.

Aconteceu uma vez em que ela estava no hospital, aguardando atendimento por causa de uma febre que não cedia. Uma angústia sem razão, quase uma dor - que não era física.

Depois, as lembranças e sensações silenciaram.

Então aconteceu de novo, alguns anos depois. E, daquela vez, ela não soube precisar se foi um rosto, o cheiro da chuva, um som, se foi o vento, um avião riscando o céu. Talvez tenha sido a menina vendendo balas no semáforo, o dia nublado, o marido ao celular.

Foi quando estava a caminho do supermercado, numa tarde mansa de outono, que rompeu-se a inquietação e ela reconheceu: sentia saudades do primeiro amor. E a certeza veio com uma enxurrada de lágrimas: ela cometera um erro e não era possível voltar no tempo...

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3 comentários:

albir disse...

É, Debora, a vida traz poucas e efêmeras certezas, muitas surpresas e nenhuma garantia.

Kika disse...

ai, que lindo. tão bonito e em escrito que deu até uma dorzinha fina aqui, de quem também nunca voltará no tempo.

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Ah, o primeiro amor... :)