Pular para o conteúdo principal

DA VIDA [Debora Bottcher]

"Encarar a vida pela frente... Sempre... Encarar a vida pela frente, e vê-la como ela é... Por fim, entendê-la e amá-la pelo que ela é... E depois deixá-la seguir... Sempre os anos entre nós, sempre os anos... Sempre o amor... Sempre a razão... Sempre o tempo... Sempre... As horas."

(Virginia Woolf)


Aconteceu naquele dia em que ela foi buscar uma das filhas na escola e a criança demorou-se um pouco: foi o tempo exato para uma solidão se instalar trazendo imagens que ela insistia em esquecer.

Numa outra ocasião, aconteceu enquanto ela se perdia no trânsito vagaroso: a música distante invadiu tudo ao redor e ela se viu dançando à luz da lua, numa noite sem fim que nunca mais existiu.

Teve uma vez que ela comprou flores e as espalhou pela casa. Quando seus olhos pousaram nas pétalas coloridas, um arco-íris rodeou a sala e um campo abriu-se à sua frente: trigo e girassóis, o destino deslizando no riso inocente de dois jovens felizes que desenhavam o futuro pelas brechas de sonhos possíveis.

Aconteceu uma vez em que ela estava no hospital, aguardando atendimento por causa de uma febre que não cedia. Uma angústia sem razão, quase uma dor - que não era física.

Depois, as lembranças e sensações silenciaram.

Então aconteceu de novo, alguns anos depois. E, daquela vez, ela não soube precisar se foi um rosto, o cheiro da chuva, um som, se foi o vento, um avião riscando o céu. Talvez tenha sido a menina vendendo balas no semáforo, o dia nublado, o marido ao celular.

Foi quando estava a caminho do supermercado, numa tarde mansa de outono, que rompeu-se a inquietação e ela reconheceu: sentia saudades do primeiro amor. E a certeza veio com uma enxurrada de lágrimas: ela cometera um erro e não era possível voltar no tempo...

Comentários

albir disse…
É, Debora, a vida traz poucas e efêmeras certezas, muitas surpresas e nenhuma garantia.
Kika disse…
ai, que lindo. tão bonito e em escrito que deu até uma dorzinha fina aqui, de quem também nunca voltará no tempo.
Ah, o primeiro amor... :)

Postagens mais visitadas deste blog

MÃE – A MINHA, A SUA, TODAS
[Debora Bottcher]

Pessoalmente, não gosto de escrever sobre ‘datas especiais’ porque sempre me pergunto quem foi que inventou esses ‘dias de’ e baseado em que. É que apesar de eventuais evidências, eu me recuso a crer que essa ‘mágica’ idéia resiste ao tempo, à modernidade, às novas gerações, fincada apenas no foco de atiçar as vendas do quase-sempre-em-crise mercado comercial – digo ‘quase’ porque todas as vezes que vou ao shopping, em qualquer dia da semana, assombro-me com o movimento constante. Daí não tenho certeza de entender bem a base dos números e imagino sempre que é porque as estimativas são ousadas e otimistas demais, muito acima do poder aquisitivo da população média.
Seja como for, se me proponho a abordar o tema do momento – o ‘Dia das Mães’ - prefiro direcioná-lo à figura materna diretamente, para quem, certamente, tal dia é apenas uma vírgula no traçado de sua (árdua) trajetória. Não sou Mãe – que fique claro; portanto, para dedilhar (vagamente) sobre elas, vou me basear na minha, nas m…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

À DISTÂNCIA (Paula Pimenta)

E se quiser recordar daquele nosso namoro
Quando eu ia viajar você caía no choro Eu chorando pela estrada Mas o que eu posso fazer Trabalhar é minha sina Eu gosto mesmo é d'ocê...
(Vital Farias)

Quem nunca namorou de longe, não vai conseguir entender metade do que eu vou escrever nessa crônica, porque só quem já passou por essa experiência sabe o quanto ela é difícil. Mesmo assim vou tentar explicar, para todas as vezes que vocês se depararem com alguém reclamando da ausência do namorado, não começarem com as manjadas frases que não fazem nada pela pessoa solitária: “Ah, mas pelo menos quando vocês se encontram tudo é festa, nem tem tempo pra brigar.” Ou: “O tempo está passando rapidinho, logo o próximo feriado chega.” Ou ainda: “É bom que no período que ele está longe você pode curtir com os amigos.”

Só quem namora à distância sabe o quanto essas frases são mentirosas. O tempo não está passando rapidinho, pode até passar pra quem está com o namorado do lado, podendo ir com ele ao cinema …