sexta-feira, 5 de março de 2010

ÚLTIMA FEBRE >> Leonardo Marona

Sangrar pelos poros é coisa normal, a ardência de expelir impurezas é quase dádiva, mas você, coisa impura, que não consigo expelir e carrego como um paralítico até as grutas da vontade, você é um problema de temperatura, você é doença do suor. Pois muito bem: 40 graus, tremeliques, língua de sogra. Nada vergonhoso. Deve-se morrer como se fôssemos gatos que pulam da janela atrás de borboletas.

Vou deixando pedaços de corpo pelo caminho, é bonito uma relação de troca com o mundo, uma relação física de troca com o mundo, é a única maneira de agradecermos a ele, ao mundo, e reconhecermos ao mesmo tempo a sua inaptidão com o tempo. Os pedaços ficam pelo caminho, unhas, pés, pedaços de mão, de braços e, reparo, é assim com todo mundo. O mundo todo é composto por pessoas amputadas. Veja o floricultor sem dedos, veja a freira sem vagina, veja o presidente sem cérebro, é uma coisa maravilhosa.

Deixo líquidos também, no auge da temperatura, mijo sangue, sorrio porque sei que é para poucos que chega a hora irreversível. Pessoas, sentimentos sobre pessoas, são os líquidos vermelhos, viscosos, que deixamos pelo chão. A sensação precisa tomar forma física, então os líquidos absurdos, os felinos selvagens miando dentro do peito tuberculoso, os gases em momentos impróprios, as rugas de amor, a febre, outra vez, para elevar-nos à potência de Lady Godiva, para nos fazer pegar fogo nos céus, e depois arrefecer em frangalhos – é só para isso que viemos, compreendamos isso todos.

A febre é um orgulho, uma luta injusta contra o corpo, uma forma de paixão irrecuperável. E nunca voltamos da febre, vamos até ela uma só vez, e ela permanecerá ali para sempre, agarrada às nossas marcas e vacilos. A máquina do corpo é feita de fibras, e de que são feitas as fibras? Do modo como aceleramos a máquina do corpo. Andarei pelas ruas, meu amor, prometo, com as mão na cabeça e uma arma na nuca. Assim andarei no ritmo que me será imposto, meu amor, assim não direi mais “meu amor”, direi apenas “todos nós”.

O corpo quer um pouco de circo, mas, grande erro, o coração é um palhaço sem calças, que chora ao som de Satie. Ah, mas andarei mesmo sem corpo, é para isso que vim ao mundo. Serei um espectro de ternura na noite chuvosa. Serei os clichês que, somados, trarão o arco-íris ao pote de ouro. Não tenho mais forças, mais pés, mais quadris, andarei feito gás etéreo.

Vou cair, sinto que se aproxima o momento da queda. Vou cair, é lógico, é o que acontece com quem não pensa e não pára de andar. Vou cair e, com licença, meu amor, pensarei e ti quando estender as mãos por ajuda, e ninguém aparecerá para ajudar. Sempre que não houver ninguém, pensarei em ti, meu amor. Sempre que houver alguém, compararei esse alguém a ti. Devíamos falar menos com as palavras, dizer mais coisas com os pés, com o sexo, com a língua por dentro da garganta. Assim diríamos as coisas mais lindas, fortes, as coisas sem maldade ou bondade, enfim, as coisas como elas devem ser.

Agora já estou no chão, os órgãos murchos escorrem suas últimas sonatas pelos poros. Ah, estou quase morto, como é bom! Quase morto, penso ainda, que maravilha, que pertenço ao limite máximo de ternura da vontade! Penso em ti, minha Coney Island Baby, minha Lady Chatterley, minha Maria Callas, minha Edith Piaf, minha imagem desmanchada em tantos espelhos trincados... Ajuda, ajuda, estou como um menino, pedindo ao vento coisas que os seres humanos já não podem compreender. Delírio? Dizem que é conseqüência da febre alta – tive febre a vida inteira. Na minha frente, o circo do mundo, o esgoto dos homens. Eles passam como eras violentas que, quando percebemos, não podemos perceber. Agora talvez seja o fim, mas não vou dizer a vocês, quero tanto quanto vocês que o mundo seja um pouco mau, um pouco bom, mas que não seja falsamente bom. Um pouco de maldade explícita derrubaria outra vez os antigos vendilhões. Ah, um pouco de maldade explícita nos faria seres humanos melhores, não seríamos mais tão mentirosos. Pensar que poderíamos ser salvos pela maldade, eis a grande novidade não computada pelos corpos.

Todos passam por mim, estou sangrando em bicas, vomitando hóstias, com o chapéu na mão, com as mãos arrancadas no chão de chuva forte, o chapéu firme agradecendo a passagem, ainda assim. Todos passam com expressões de pena nos rostos, pensando na próxima sessão de cinema ou no amor falido que os espera em quartos quentes de doença. Erguerei o meu chapéu lá no alto para esses transeuntes, eles terão um pouco de ternura enfim, por se apiedarem do que não pede pena e cai com força, sobre os joelhos dobrados, marcado pela fúria do corpo sem arestas, e eu me orgulharei tanto de mim mesmo neste momento, que não será difícil largar o chapéu e segurar com toda força a rosa púrpura que, do fim dom mundo e das explosões fúnebres da terra cansada, salvará a mim e a todos nós.


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