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Mostrando postagens de Maio, 2011

COISAS QUE EU NÃO SEI >> Clara Braga

Nunca cheguei a ser uma péssima aluna, mas também nunca estive entre os melhores da sala.

Durante todo o período da escola, cheguei até a ficar de recuperação uma vez, mas nada que não desse para recuperar com uma provinha extra. Mas era raro fechar as matérias com nota máxima.

Hoje em dia, na faculdade, a história se repete. Ainda não reprovei em nenhuma matéria, mas também não fecho os semestres com muitos “SS”. Sempre fico na média.

Ser uma aluna sempre mediana nunca me incomodou muito, mas confesso ter uma pontinha de inveja das pessoas que não precisam passar nem um minuto na frente de um livro estudando para ir muito bem em uma prova. Por que eu tenho que me matar de estudar e mesmo assim às vezes ir mal, enquanto os outros se dão bem sem nem estudar?

Fiquei me fazendo essa pergunta por um bom tempo até descobrir que eu sou disléxica. Muito se explicou, mas a dificuldade continuou. Diminuiu depois dos 6 anos que eu passei na fonoaudióloga, mas, como se sabe, dislexia não tem cur…

JUÍZO FINAL >> Albir José Inácio da Silva

Ainda bem que o mundo não acabou no dia marcado porque eu tinha aí umas pendências. Uns malfeitos pra desfazer, uns pecados pra confessar. E até um menino pra assumir, que Zefa vai pular nas tamancas mas não posso ir assim pro julgamento.

Padre Antônio falou que o mundo vai acabar sim, mas não é agora não, faltam alguns anos. Ele faz cara de que sabe quantos mas não diz. Eu também não acredito porque já peguei outras mentiras dele. Ainda mais depois do que fez com aquela moça, antes donzela, que ele inventou que tava com demônio e ela teve de fugir pro Rio de Janeiro.

Pesa na minha consciência uns palmos de terra do Aderso. Verdade que eu cheguei a cerca pra lá depois que as vacas derrubaram, mas foi pra compensar uns prejuízos. Quantas vezes falei pra tirar os animais do meu sítio e ele não escutou. Mas isso é coisa pouca.

Outra pendência que preciso resolver é aquele moleque, o Dão. Eu já nem o contava mais como pecado, tantos anos sem notícia de Esmeralda que tinha sumido pros lados…

ADOLESCÊNCIA >> Eduardo Loureiro Jr.

INSTRUÇÕES PARA LER A CRÔNICA:
0. Leia todas as intruções antes de iniciar, pois, após efetuar o passo 3, as instruções não serão mais visíveis.
1. No meio da parte inferior da telinha abaixo, clique na seta preta virada para a direita.
2. Aguarde um pouco até aparecer, no canto inferior direito, a palavra MORE. Posicione o mouse sobre a palavra MORE.
3. Clique em FULLSCREEN.
4. Use a seta > para a direita > do seu teclado > para avançar.
5. Quando terminar, pressione a tecla ESC do seu teclado para sair.

ADOLESCÊNCIA - Eduardo Loureiro Jr.on Prezi

SEM NOME >> Fernanda Pinho

- Amiga, nem te conto!
- Conta, sim!
- Você não sabe o que eu descobri!
- O quê?
- Sabe o Robert Downey Jr.?
- O ator?
- Não! O Robert, o da banda!
- Ah, o que tem ele?
- Ele também frequenta o mesmo samba que a gente.
- Qual samba?
- Aquele onde a gente se encontrou com os Bodes.
- E aí, você tem visto o seu Bode?
- Sim, o que é bom, porque desde então eu já nem penso mais no Capiau.
- Entendo. Eu também usei o Argentino para estes fins...
- Por falar em Argentino, sabe quem eu vi? O Idiota da Europa.
- Mas a Argentina não é na Europa...
- Argentina, Europa...tudo no exterior...
- Hummm....lembrei do Chef Neozelandês...
- Afinal, o Chef Neozelandês sabia cozinhar?
- Não mais que o Rúgbi.
- Mas é que o Rúgbi era um cara experiente, né?
- Não! Experiente era o Velho.
- Que nojo de você com esse Velho.
- Falou a garota que só se envolve com contemporâneos. E o Pirralho, vai bem?
- Sumido, estudando pro vestibular. Aliás, sabe o que ele quer ser?
- Adulto?
- Não, geólogo!
- Também? Que …

VER E PROVAR >> Carla Dias >>

No dia de hoje, vou condecorar pequenos feitos quase invisíveis às almas distraídas, porém tão importantes para o acontecimento que é a vida, feito frestas cuspindo luz, respingando esperanças na tela virgem da escuridão.

E mesmo que ande por aí apalpando impossibilidades, hoje eu vou mergulhar em mim, mas de um jeito inédito, sem procurar pelo fôlego ao primeiro susto. Vou até o fundo de mim, tocarei meu chão, expandirei a compreensão que o mantém sendo quintal onde descanso e repenso os incômodos, até que eles partam de vez.

E ao voltar à superfície de mim, prometo tratar com mais delicadeza a nossa existência: a minha, a sua, a dos outros. E enxergarei além, minha voz dirá sentimentos sem a rede de proteção da omissão.

Para amanhã, programei algumas mudanças: janelas escancaradas, portas abertas, horizontes dependurados no olhar, andar de mãos dadas com o desapego, porque aquele sonho nunca foi sonho, mas sim prisão, já que desaconteceu, antes de sequer dar-se ao gosto do aconteciment…

O TÉDIO PÓS-EMOÇÃO >> Clara Braga

É exatamente como diria Arnaldo Antunes: “Atenção, essa vida contém cenas explícitas de tédio nos intervalos da emoção”. E, graças a Deus, existem esses intervalos. Ninguém aguenta viver só de emoção, até mesmo as pequenas emoções.

Final de semana, tive que fazer trabalho de faculdade, o que acaba com a minha teoria de que final de semana é unicamente para descansar e fazer coisas legais. Mas tudo bem, já que temos que fazer trabalho de faculdade, vamos transformar isso em algo não tão chato, vamos levar comida, bebida, amigos para nos ajudar e ficar papeando enquanto fazemos o que tiver que fazer. E assim foi.

Quando vimos a quantidade de Cheetos que uma das meninas do grupo tinha levado, parecíamos crianças chegando na Disney. Fazia tempo que eu não comia Cheetos assim, de tantos tamanhos e sabores diferentes, sabores que eu nem sabia que existiam. E é tão gostoso!

Assim ficamos... fazíamos um pouco do trabalho e comíamos um pouco de Cheetos. Lembrei-me de quando levava para comer …

EU QUASE ME ESQUECI >> Kika Coutinho

Eu estava sentada no escritório da minha casa, ao telefone com uma funcionária da empresa para a qual trabalho, discutindo um ponto importantíssimo de negócio. A conversa estava quente, não concordávamos. A moça, na Argentina, me explicava em portunhol que deveria ser assim, que esse era o procedimento desde sempre, enquanto eu, e outras pessoas que participávamos do call, repreendíamos, alegando que isso não era argumento, a carreira de muitos funcionários estava em jogo, os números não nos favoreciam, as políticas não estavam coerentes... Quando, de repente, a babá da minha filha bate na porta.

Ao me ver ao telefone, a moça fala: “Ai, desculpe, você está ocupada...”. Eu, preocupada que tivesse acontecido algo com a minha filhota, cubro o telefone com as mãos e digo: “Pode falar, o que houve?”.
Fico surpreendida quando ela afirma, sem graça: “É que a minha mãe me ligou, minha cunhada acabou de ter neném, lá na Bahia...”. Fico um instante em silêncio. E o que eu tenho a ver com isso? …

O SR. URIAS, O RONCO E O BOBBY
>> Eduardo Loureiro Jr.

Ainda estou longe de ser um grande homem, mas já começo a reconhecer um quando o encontro — o que me dá uma certa sensação de progresso.

Ontem conheci o Sr. Urias. Fui convidado para almoçar em sua casa por seu enteado, um amigo meu que me havia prometido um carneiro. Eu não gosto de carne de carneiro, talvez por haver presenciado o sacrifício de um, quando eu ainda era criança. Como pode ser gostosa a carne de um animal que a gente vê pendurado de cabeça para baixo, que é golpeado na nuca, que é atravessado por um facão e do qual se tira o couro inteiro enquanto, no chão, uma bacia recolhe seu sangue? Mas insisti tanto com meu amigo Ricardo para que ele cumprisse sua promessa de oferecer um carneiro àqueles que lhe haviam auxiliado com o projeto para o doutorado que cheguei à casa de Seu Urias e Dona Nilmar disposto a adorar carne de carneiro, pelo menos por um dia.

O Sr. Urias me surpreendeu primeiramente pelo passo lento. Hoje é tudo tão fácil e veloz que admiro quando vejo alguém …

NARCISO E O PRÓPRIO RABO
[Carla Cintia Conteiro]

Há certas coisas a respeito de si mesmo sobre as quais é inútil falar, podendo-se até causar o efeito contrário ao que se pretende. Qual é o ponto em alguém dizer que se acha bonito, assim, sem ninguém perguntar? A beleza está nos olhos de quem vê. Da mesma forma, embora seja praticamente imperativo hoje em dia, pelos mais diversos motivos, alardear seus próprios feitos, não adianta atribuir valor a eles, afirmando-se talentoso, criativo ou brilhante. Por mais angustiante que seja abdicar do gosto de contar a todos como o sujeito se acha maravilhoso, este veredicto pertence a quem o avalia. Certa vez, num desses reality shows que julgam os dons artísticos dos inscritos, vi um dos juízes perguntar ao candidato quem, fora do circuito da cegueira do amor familiar e da compassiva gentileza dos amigos, acreditava que ele era um artista de verdade. Este é o espírito da coisa.

Outras vezes, a pessoa se debate tentando evitar que cole em si certa reputação negativa. Alguém que brada não ser pr…

A FORÇA >> Fernanda Pinho

"Uma pessoa que já sofreu é perigosa, porque ela sabe que pode se recuperar".
[do filme Perdas e Danos]


Olhando de fora, a gente sempre acha que não irá sobreviver a uma situação da qual tem muito medo. E é exatamente por isso que a gente tem medo. Mas quando acontece, não resta outra opção senão sobreviver, o que, no fim das contas, nem é tão ruim. Quer dizer, no início é ruim porque você nem está muito interessado em sobrevivência ou qualquer coisa que o valha. Mas a vida insiste. Me lembro, como quem se lembra de um sonho confuso, do momento em que a vida me confrontou com a situação que eu tanto temia. A hora da perda é muito estranha. Parece que você está pisando sobre nada e que o céu também está interessado em cair na sua cabeça. Você cambaleia e se apoia nas coisas e nas pessoas, mas é como se tudo e todos fossem fantasmas transponíveis. E então eu consegui chegar ao espelho e ver estampado no meu rosto um F bem grande. A letra do meu nome e, que ironia, de "frac…

LENNY >> Carla Dias >>

Em tempos de acrobacias tecnológicas, avanços enlouquecidos, descobertas emblemáticas, às vezes eu me perco, confesso. Não sou moderna o suficiente para pilotar celular que tenha mais do que as funções fazer e receber ligações, chegando ao máximo de me entender com Bluetooth para não perder as fotos bacanérrimas que tirei dos meus sobrinhos. Eu sei... Celular não é máquina fotográfica, não o meu! Porque deve haver algo assim perdido nesse armário de invenções que é o mundo, e que eu desconheço completamente, mas ok! Desconhecer também é uma arte.
Não que eu viva com a cabeça num buraco, feito avestruz. Eu me enveredo pelos copy/paste, download, plug-in, e assisto CSI, então vejo aquele monte de computadores sensacionais, utilizados por cientistas fantásticos, em busca de botar os bandidos na cadeia. Mas gosto mesmo quando esse parque de diversões, que dá vazão aos sonhos e descobertas do ser humano, me conta uma história que, apesar de assessorada pelas crias, remete aos criadores. Por…

COISAS DA VIDA >> Clara Braga

Atire a primeira pedra quem consegue viver sem sonhar. Não existe uma vida sem sonhos. Alguns têm sonhos grandes e complicados de serem realizados, outros têm sonhos mais humildes, mas tão importantes quanto os sonhos grandes.

Eu sou uma sonhadora nata. Alguns dos meus sonhos já consegui realizar, mas a lista ainda é grande. E como uma estudante de artes plásticas que sou, tenho sonhos de ver alguns quadros ao vivo e a cores. Um deles já consegui ver, Guernica de Picasso. Foi tão emocionante que eu até chorei. Mas tem muitos outros que eu ainda não vi.

Outros dois quadros que estão na minha lista são a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, e Abaporu, da Tarsila. E esses dois quadros, para mim, têm algo em comum: todo mundo que já viu me diz que eu deveria riscar esses sonhos da minha lista, pois quando vistos ao vivo eles nem têm nada demais.

O Abaporu esteve em Brasília há pouco tempo, mas como eu deixei para última hora, lá se foi meu sonho de volta para a Argentina sem que eu tivesse v…

TEMPOS >> Albir José Inácio da Silva

A noção de tempo aconteceu num aniversário. Lembranças anteriores não cuidam disso. Naquela tarde, porém, de pé frente à mesa que lhe ficava na altura dos olhos, viu duas garrafas e um bolo furado no meio. E soube que estava na Terra há cinco anos.

Não que avaliasse o que significavam cinco anos, mas era a primeira medida de tempo de que participava. Teve a certeza de ser especial porque só pessoas especiais tinham festas.

Muitas vezes cinco se passaram e ele tem tido outras festas, contado outros tempos e de vez em quando ainda se sente especial, embora não identifique logo a especialidade. Vai recolhendo uns elogios na esperança de que contenham mais que generosidade. Teve festas que não mereceu e merecimentos não festejados.

Viu muitas contagens chegarem ao fim, pessoas especiais que se interromperam rápido demais. Perdia um pouco a especialidade cada vez que partiam os que o consideravam especial. Teve certeza de perder mais que a pessoa. Perdia-se.

Resulta tudo isso na confusa ob…

O PÁTIO >> É do ar do Pátio

O leitor — eventual e desavisado — talvez não saiba que está n'O Pátio. Mesmo o leitor assíduo quiçá não percebe que é um d'Os internos do pátiO.

Começou há uns vinte anos, por volta de 1991, quando um jovem estudante de História, Fabiano dos Santos, resolveu nomear de "internos do pátio" a si mesmo e ao Eduardo, ao Manu, ao Shariff e a tantos outros que passavam tudo que era tempo que não era aula — e até algum tempo que era aula — sentados em bancos de cimento, à margem de um hexágono de tijolos amarelos, à sombra de árvores ralas que usavam a tinta do sol para desenhar figuras abstratas no chão de cimento do pátio interno da Área 2 do Centro de Humanidades da Universidade Federal do Ceará.


Naquele local — simples e até feio (para olhares mais ortodoxamente estéticos) — foram plantados poemas, canções, árvores e amizades que duram até hoje. Ali começaram e terminaram paixões. Ali se cantou e se dançou ciranda. Ali aconteceram exposições e até aulas. O pátio daqueles…

OS LIVRO ILUSTRADO MAIS INTERESSANTE ESTÃO EMPRESTADO [Debora Böttcher]

Eu vou começar esse texto como a repórter Fátima Bernardes iniciou a edição de sexta-feira do Jornal Nacional: "Prestem atenção a essa frase." E William Bonner continuou:"Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado."

Pausa pra você ler de novo.

Essa frase consta num livro de PORTUGUÊS distribuído pelo Ministério da Educação (MEC) para quase meio milhão de alunos, que defende que a maneira como as pessoas usam a língua deixe de ser classificada como certa ou errada e passe a ser considerada adequada ou inadequada, dependendo da situação. E arremata, ao citar a frase acima:  "Na variedade popular, basta que a palavra ‘os’ esteja no plural. A língua portuguesa admite esta construção".

Se você não viu a matéria, pode pensar que isso é alguma brincadeira — eu pensaria. Mas, lamentavelmente, trata-se da Educação (?!) no Brasil.

Após 18 anos de elaboração (e agora consigo entender o porquê de tanto tempo), em 2009 entraram em vigor regras de acentuação…

30 COISAS PARA FAZER ANTES DOS 30 >> Fernanda Pinho

A proximidade dos trinta é um tema que começa a comparecer mais do que deveria nos pensamentos das mulheres que estão numa certa idade. Eu, que estou nessa certa idade, e que adoro uma lista, amei a ideia dessa marca de estabelecer 1009 coisas para se fazer antes dos trinta. Um jeitinho simpático de tornar o caminho até lá menos aflitivo e mais divertido. Fiz, então, minha própria lista, que não tem 1009 itens porque não tenho tempo tanto até lá nem quero fazer tantas coisas assim. A saber:

1 - Ir numa cartomante (1º passo: descobrir uma recomendada em BH e convencer alguém a ir comigo).
2 - Fazer uma tatuagem (1º passo: escolher a frase - sim, tem que ser de frase. E deixar de ter medo de agulha também é relevante).
3 - Fazer alguma coisa mais útil para uma obra de caridade (1º passo: tirar a bunda da cadeira e me mover).
4 - Cozinhar para alguém (1º passo: aprender a cozinhar).
5 - Publicar um livro só meu (1º passo: tomar coragem para deixar alguém ler meus escritos secretos).
6 - Volta…

PROCURA-SE >> Carla Dias >>

I am searching
I am not alone
I am searching
Please give me some
INXS

Procura-se, mas não com urgência, para que, ao ser encontrado, esteja descansado das correrias da vida. E para que, amansada a alma, profetize metáforas ao se agarrar à volúpia da poesia.

Procurar requer uma paciência que, às vezes, sequer sabemos ter. Portanto, procurar é também descobrir, desvendar, despir. É perguntar a si mesmo “e se?” e ter a resposta inquiridora na ponta da língua do sentimento: por que não?

O ser humano se alimenta de buscas, e procura em cada tempo, em cada acontecimento, em cada gesto, procura no singular a compreensão que sempre chega plural. Porque nem tudo é branco no preto, amarelo no vermelho, verde no marrom. Tem dias em que se trata de um verdadeiro arco-íris. Há outros em que as cores desmaiam, perdem o fôlego, mas apesar de desbotadas, feito roupas velhas penduradas no varal, ainda nos vestem, aquecem.

Procura-se a solidão desmistificada, compreendida como puro desejo de ficar em casa em q…

CAUSA DA CEGUEIRA: ROTINA >> Clara Braga

Acredito que todo mundo conhece o tal do twitter, certo? Nem todo mundo tem e nem todo mundo que tem usa — ou sabe usar — mas todo mundo conhece.

Resumindo de uma forma rápida, o twitter é aquela rede social onde você publica minitextos com no máximo 140 caracteres falando o que você quiser e todos os seus seguidores (palavra forte essa) recebem em tempo real. Impressionante!

140 caracteres, a princípio, parece pouco, mas se encaixa perfeitamente nesse estilo de vida corrido que a maioria tem. Quem tem algo a dizer diz de forma rápida, fazendo com que mais pessoas tenham tempo de ler. E por mais que pareça uma grande novidade, lendo uma matéria em uma revista percebi que o twitter em muito se assemelha à escrita telegráfica e aos anúncios dos classificados, já percebeu?

Essa matéria da revista não era exatamente sobre twitter, mas sobre outra linguagem que é ao mesmo tempo diferente e semelhante à linguagem, de certa forma urgente, que o twitter tem, e que está ganhando certo status e…

O REINO ANIMAL >> Kika Coutinho

“Mamããããe", ela berra, na madrugada.

Acordo meu marido:

— Ela acha que você é a mamãe, tá sabendo, né?
— Tô — ele responde sonolento.

Esperamos mais um pouco, quem sabe ela para. Qualquer dois minutos de silêncio é o suficiente para nos agarrarmos ao pote de ouro no final do arco-íris: ela dormiu. É sempre no terceiro minuto, quando suspiramos aliviados, que ela volta ao repertório inicial: Mamãããe!

Levantamos, normalmente ele senta primeiro e eu sigo, numa solidariedade silenciosa, ambos acabados, certamente lembrando aquelas promessas todas que nos fizemos um dia, sem nem saber que era nas madrugadas que a prova viria.

— Eu faço a mamadeira? — pergunto, tendenciosa.
— Pode ser. Eu troco — ele responde, cordato.

Vou até a cozinha, pego o leite, conto as medidas, 1, 2, 3, 4, 5, 6... Tá bom, 180ml, vou fazer 180ml. Torço para a água da garrafa térmica estar quentinha, mas, se não estiver, ela toma leite frio, penso, argumentando que está calor em pleno outono. Mentira pura. Minto …

O DIA DO MISTÉRIO >> Eduardo Loureiro Jr.

Se o leitor tiver uma quedinha pelo absurdo — assim como eu —, imagine aí se metade da população deste planeta, por algum tipo de determinação genética, não pudesse fazer algo que, para a outra metade, é o maior motivo de felicidade.

Eu fico aqui imaginando, por exemplo, se metade dos seres humanos tivesse alguma disfunção auricular — ou neurológica — que lhe impedisse de ouvir música. Quase TRÊS BILHÕES E MEIO de pessoas que poderiam assistir a um vídeo da Elis Regina sorrindo e cantando "Chovendo na Roseira", mas que não conseguiriam ouvir a melodia, apenas escutariam o texto como se estivesse sendo recitado. Já cogitaram a cara de perplexidade dessa gente ao olhar para a Elis e para as pessoas capazes de escutá-la? Já imaginaram o que é presenciar um momento tão mágico — e até sentir os efeitos indiretos de tanta beleza, pela reação dos que são capazes de percebê-lo —, mas não saber exatamente do que se trata?



O leitor vai perguntar se eu bebi alguma coisa de ontem para h…

MATERNIDADE [Debora Bottcher]

Eu ia fazer vinte e quatro anos quando meu sobrinho nasceu — filho de um irmão seis anos mais jovem que eu. E quando eu o segurei nos braços a primeira vez (e fui a primeira da família a fazê-lo — depois da minha cunhada e irmão, claro), tive certeza de que ser mãe seria um caminho natural para mim. Três anos depois, o nascimento de minha sobrinha coroava minha convicção.

Mas eu já tinha vinte e sete anos, já tinha sido casada uma vez (fiquei viúva aos 21), e o tempo, aliado à ausência de um amor duradouro, começava a minar essa expectativa.

Toda mulher sabe o que isso significa: há um alarme interno que chamam 'relógio biológico' que, por volta dessa idade, começa a 'bater' mais apressado. Para as mulheres que sonham em ter filhos, essa precipitação interior começa a exigir rapidez exagerada na execução do feito. Isso pode transformar a vida de qualquer mulher num verdadeiro dilema. Sim, porque nessa idade muitas de nós ainda não se firmou profissionalmente, não é to…

MINHAS MULHERES >> Fernanda Pinho

Tenho muitas mulheres. Muitas e lindas. Coisa assim, para deixar Don Juan envergonhado. E elas são para todos os gostos. Desculpem, meus caros, não quero tirar vantagem, mas vou ter que dizer: tenho loira, morena, mulata, ruiva, japonesa, baixinha, altona, gordinha, magrela, olhos pretos, olhos verdes, olhos castanhos, cabelo comprido, cabelo curto. E tem jornalista, fisioterapeuta, atriz, dentista, publicitária, contadora, vendedora, professora, estudante, dona de casa. Cheias de talentos e cheias de atributo. Mas, posso ser egoísta? O que me arrebata nelas todas nem são seus talentos e beleza física. Claro, tudo isso me encanta. Mas o que me faz ter vontade de estender tapetes vermelhos por onde elas passam é o afeto sem limites que me dedicam. Entre minhas mulheres, tenho quem atenda minha ligação chorosa tarde da noite, se desloca de outra cidade e vem dormir apertada na minha sala de tevê, só para que eu me sinta melhor. Sem perguntar o que houve, sem exigir explicações. Tenho qu…

ARRUMAÇÃO INTERNA >> Carla Dias >>

"Queria o jardim dos meus sonhos, aquele
que existia dentro de mim como saudade.
O que eu buscava não era a estética dos
espaços de fora;
era a poética dos espaços de dentro."
Rubem Alves

Decidi melhorar quem sou. Sei que faço isso o tempo todo e que já publiquei aqui algumas crônicas a respeito. Porém, devo dizer que essa busca muda com o tempo.

Tudo tem a ver com o andar da carruagem, a cadência, o passo do anjo, aqueles bois que colocamos na frente da carroça, durante a vida, até esse ponto.

Ponto cruz, e não se trata de papo sobre agulha e linha.

O ponto cruz é aquele ponto em que você percebe que, lá na lojinha da sua consciência, você escolheu a cruz mais pesada para arrastar. E enganou a si mesmo, porque achava que escolhendo a cruz mais pesada, a mais complicada de encaixar nos ombros, seria uma pessoa digna de levar uma vida em paz e com prosperidade.

Eu sempre fui partidária de que Deus dá a cada um a cruz que pode carregar. Porém, com o tempo, com a vida acontecendo, dei-me…

OBAMA ESTÁ MORTO! >> Clara Braga

Ao contrário do que você deve estar pensando nesse momento, não tem absolutamente nada de errado com esse título, foi exatamente isso que eu saí falando para todo mundo por ai na última segunda-feira.

Domingo de madrugada, antes de dormir, abri a internet para ler as notícias e lá estava: “Osama Bin Laden está morto!” Nossa, deixa eu dormir logo que é para poder comentar essa notícia com todo mundo amanhã na faculdade.

As diferenças entre Obama e Osama são enormes, principalmente agora que um é visto como o herói e o outro como o pior terrorista do universo. Agora, além de ambos morarem em casas de luxo, e não em caverna como se imaginava, a semelhança entre os nomes do herói e do vilão é imensa. Poxa, mudar uma só letra do nome de um para o nome do outro é pedir para confundir.

Como muita gente ainda não estava sabendo da novidade, meu erro passou batido, claro, as pessoas se assustavam, afinal, o presidente estava morto, mas ninguém me corrigiu. Até que uma santa alma começou a rir…

CHAPÉUS E CARRUAGENS
>> Albir José Inácio da Silva

Catarina, que também é Catá para os amigos, foi às lágrimas com o casamento da quase xará, Sua Alteza Real, a Princesa Catherine – Duquesa de Cambridge. Cavalos, carruagens, palácios e chapéus – muitos chapéus. Não entendia nada da pompa dos cerimoniais, mas os especialistas foram pródigos nas análises que duraram todo o final de semana.

Passado o casamento, a preocupação agora é a gravidez da princesa. Tem que haver um principezinho pra virar rei quando a rainha morrer, o avô morrer e o pai morrer. Mas deve nascer logo senão fica todo mundo nervoso.

Outra obrigação da princesa é não chorar em público. Nem no próprio casamento. De que adianta um casamento daqueles se ela não pode chorar? Catá chorou tudo no seu casamento com Joca, um casamento coletivo para vinte e oito casais promovido pela paróquia. Ninguém se importou: “chora mesmo, minha filha, que casamento não é todo dia”. E tem outras coisas que a gente precisa chorar: velório, nascimento de filho, Dia das Mães, formatura. Não…

DITO E FEITO >> Eduardo Loureiro Jr.

Há pouco mais de três anos, uma amiga, durante uma caminhada na Avenida Raul Lopes, à beira do rio Poti, em Teresina, me contou que havia adotado a seguinte resolução de ano-novo: seguir a ordem.

—Como assim? — perguntei, querendo saber até onde ia a compreensão que minha amiga tinha da palavra "ordem".

— Viver de maneira organizada — respondeu minha amiga. — Respeitar a ordem no trânsito, nem pensar em furar qualquer tipo de fila, obedecer todas as hierarquias, guardar as coisas em seus devidos lugares.

Caramba, minha amiga tinha uma noção bem ampla de "ordem". E pensei lá comigo: missão difícil.

Pois não é que, três anos depois, eu me coloquei numa missão semelhante ao adotar como resolução de ano-novo: cumprir minha palavra.

— Como assim? — perguntará o leitor, querendo saber até onde vai a compreensão que tenho da "palavra".

— Executar aquilo que falo — respondo. — Fazer cumprir os ditados "palavra de rei não volta atrás", "palavra dada…