Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Fevereiro, 2019

A FEIRA >> Whisner Fraga

A velha belisca o papo do frango. Desce a mão um tanto mais e para, a tempo.

Pechincha que é inadmissível o preço do animal, que não é dia de exploração, que é preciso ter coragem pra vender um bicho daqueles, tão mirrado.

Não usa os termos "inadmissível", nem "exploração" nem "mirrado". Eu que os inventei agora, como se tivessem escapado da boca dela.

O negociante cede, desenrola o barbante do guidão da bicicleta e entrega o almoço da velha, preso pelos pés, ainda de cabeça para baixo, ainda cacarejando o espanto. Foi um bom negócio.

A velha quer batatas também.

Reboca as antigas havaianas pelo desmazelo da manhã: sempre chega cedo para encontrar as melhores mercadorias.

Conhece todos os sitiantes, mas não os trata pelos nomes.

Aponta o maço de coentro e desiste. Os tomates tampouco empolgam.

O filho não tolera tempero forte e, por isso, nem cogita levar cebolas.

Vai caprichar no molho pardo, mais uma vez.

Corre até o fim da feira e acha o cheiro verde. …

CARMA >> Carla Dias >>

Leram sua vida passada. 
A partir dali, agarrou-se à certeza de que ter nascido em um corpo dedicado a castigá-la era carma. Dívida adquirida em outra vida, quando ela era desprovida de escrúpulos, pessoa incapaz de um gesto de benevolência. 
Aceitou ser merecedora das armadilhas que seu corpo vinha lhe pregando e que a mantinham condenada à solidão, já que sua saúde a desqualificava como boa companhia. 
Ela nãos fazia bem aos olhares. 
Apegou-se ao desejo de pagar essa conta, para então voltar em uma próxima vida, em forma digna de benquerença; um corpo próprio para hospedar vitalidade. 
Então, aconteceu. 
Alguém disse e ela escutou. 
Não somente escutou, assimilou. 
Não somente assimilou, aceitou. 
Daí que desacreditou Deus. Também descartou a possibilidade de vidas passadas e milagres. Abandonou as únicas desculpas capazes de ajudá-la a lidar com tamanho sofrimento. 
Restou-lhe a verdade em sua crueza. 
Não conseguiu nem mesmo mandar tudo para o inferno, já que também nele não acr…

MOTIVAÇÃO REAL >> Clara Braga

Todo mundo já quis muito algo que não conseguiu ter. Algumas pessoas tem mais facilidade de alcançar seus objetivos, mas até a mais realizada das pessoas já quis muito algo que nunca teve. E no meio do caminho, quando estamos lá tentando arduamente alcançar nossa meta, alguém sempre diz: se você não está conseguindo é porque não está focado o suficiente, é preciso ter uma motivação real, então você vai alcançar todos os seus objetivos.
Esse papo de “motivação real” sempre foi muito chato para mim, quando alguém fala isso ou algo semelhante já me irrito logo, afinal, querer não é motivação suficiente? Pois é, hoje já sou obrigada a discordar de mim mesma, parece que só querer nem sempre é o suficiente, a tal maldita motivação precisa existir.
Digo isso pois uma das coisas que sempre tento e acabo desistindo no meio do caminho é emagrecer. Começo bem, eu realmente quero, sinto-me motivada, mas no meio do caminho parece que querer não é o suficiente, afinal, eu também quero muito comer …

ME JULGUE >> Mariana Scherma

Várias vezes eu já ouvi e li pessoas que terminam posts de redes sociais escrevendo “Me julgue”. Gente, sério, por quê? Exemplos: “Malhei nem sei quanto e estou aqui comendo um lanchão. Me julguem”. Não, obrigada. “Fazendo faxina ouvindo Raça Negra. Me julguem”. Pode até ser de brincadeira o “me julgue”. Mas não julgo mesmo. Eu só julgo quem fica pedindo pra desconhecidos ou levemente conhecidos julgarem suas ações. Por quê isso, sabe? A gente não é celebridade da internet para precisar de aprovação alheia. Se você for, desculpa: esse não é um texto para você.
Essa história de julgar alguém deveria ficar restrita para juízes, com todas as suas provas e advogados amparando (mesmo assim, às vezes rolam injustiças). Não para nós, pessoas de fora dos tribunais. Ok, sem querer, a gente vai lá, julga o outro e acaba cometendo um preconceito horrível, impossibilitando uma amizade ou qualquer coisa. Mas pedir para ser julgado em rede social? Ah, não. Aprovação de desconhecidos e pessoas alea…

LISTA DE TAREFAS >> Cristiana Moura

DESAPARECIDO >> Zoraya Cesar

Alto, louro, olhos azuis, um digno representante da Ilha da Madeira, onde nascera ele e seus antepassados. O pai, um daqueles portugueses rudes, quase primitivo, tinha conceitos de educação bastante simples: meninas serviam como escravas do lar e parideiras; meninos, para trabalhar desde cedo e fazer jus ao pão de cada dia, que a vida era dura e o progenitor não estava ali pra sustentar vagabundo. Se quisesse comer, o menino tinha de colaborar. Ou era porrada no lombo. 
Pois educação boa era aquela que chegava logo à alma, via corpo, deixando marcas indeléveis e inesquecíveis. O menino, assim que ganhou alguma autonomia, digamos, aos 16 anos, fugiu para o continente. Fugiu da pobreza, da falta de horizontes e da vida apertada. Sobreviveu graças às duras lições aprendidas com o pai e conseguiu, até mesmo, razoável instrução. Não virou doutor, causídico, boticário. Mas tinha boa cabeça para números, cálculos (qual português não tem?) e, quem poderia imaginar, línguas. Era jovem, audaz e …

BRUTALIDADE >> Carla Dias >>

A respiração afobada. Tenta disfarçá-la com um sorriso esgarçado. Há dias em que melhor mesmo é se distanciar da verdade sendo esfregada na cara, como se fosse uma vergonha adquirida por gosto, quando, na verdade, é somente mais um algo do qual não depende seu desejo, seu esforço, sua dedicação. Uma impotência transgressora.

Melhor é pensar em acontecimentos singelos, como quando observa os varais, onde os vizinhos penduram seus panos, usando pregadores coloridos. Gosta da paisagem criada por essa cotidianidade. Pensa sobre como seria caminhar pelos corredores de uma fábrica de pregadores coloridos.
A lembrança singela desvanece. Sente-se, nesse momento, como um dos panos pendurados em varal de um quintal que não o seu. Grandes pregadores a lhe interromperem a circulação. Coloridamente infiéis ao seu desejo de liberdade. 
Há poucas situações que lhe fazem doer o estômago, assim, com a dor aos berros. Essa é uma delas. Mas o sorriso esgarçado, ele ajuda a controlar reflexos. Passou mui…

CARTA ABERTA PARA XUXA >> Clara Braga

Olá Xuxa, tudo bem?
Ao longo da minha vida tive vontade de escrever para você várias vezes por motivos diferentes, mas dessa vez decidi que era hora de colocar essa vontade em prática.
A primeira vez que essa ideia me ocorreu foi em uma fase da vida na qual eu gostava muito de você, não coincidentemente, era uma época em que as pessoas de fato escreviam cartas umas para as outras. Ainda nessa época, um dos filmes que mais assisti - e quando digo isso estou falando de uma média de uma vez por semana - foi Lua de Cristal e devo dizer, até hoje acho o filme maravilhoso e se a música tocar em qualquer lugar eu canto todinha do início ao fim. Aliás, algumas partes viraram mantras da vida, tipo: tudo pode ser, só basta acreditar, tudo que tiver que ser, será! Quem precisa de livro de auto ajuda quando pode ouvir lua de cristal? Simplesmente a melhor música.
A segunda vez que quis escrever foi para falar da minha vontade de ser Paquita, mas convenhamos, essa deve ser uma das cartas que voc…

estranhos ao ocaso >> branco

a moça bonita
dança sob as águas do chafariz
as roupas molhadas
mostram um corpo ainda menino
o sorriso que ilumina o rosto
- alegre
espontâneo -
denota a felicidade
seus gestos
suaves e encantadores
transformam aquela rotineira tarde de verão
em algo impossível de ser descrito

a cena
deixa boquiabertos os transeuntes
fala-se em loucura
em juventude
em inconsequência
os homens e suas pastas de couro
as mulheres e seus sacos de pão
- e leite -
os jovens e suas invejas
passam pela cena
as senhoras - da missa - com os seus rosários
apenas abaixam a cabeça
e vão

entre os que olham
apenas um está calado - mas sorri -
já viveu muitas vidas
e sabe que aquele momento sublime
é tão passageiro como todos os outros
ele tem um quarto - e uma cama -
uma cozinha
um banheiro
os filhos se foram
a mulher também
ao seu lado
um vira-lata lambe as feridas
mas ele ainda está sorrindo
- calado
extasiado -
antes de recomeçar o seu caminho
enquanto as luzes da praça se acendem
e o ocaso começa a pintar aquel…

O ESPELHO DAS QUATRO >> Fred Fogaça

Quando finalmente ficamos sozinhos eu e ele, ainda na crueza do dia, quatro da manhã, ele, saindo do seu canto e ainda a sono lento e me olhando, desde a sua pequeneza não muito consciente, de olhos todo atenção e as orelhas pontudas em pé, feito antenas, pra não perder um gesto meu, deixar passar um som da minha boca: sem entender palavra - acredito não ser versado em línguas - me olhou na profundidade da expressão e, aí a importância da expressão e, eu de significar. Nossa! Todo prontidão aos meus comandos: é, somos só eu e você agora - ele me entendeu - a hipótese da noite são maus sonhos, minha criança.
Queria até poder não dar explicações, não as cobrasse eu mesmo, não fingisse na minha cabeça treinar desculpas pra se alguém me perguntasse mas eu, é, eu mesmo, não quisesse me convencer de que tudo isso que eu fiz tem algum sentido; que eu não me arrependo; que eu só não fui trouxa e resguardei às excentricidades, o que na verdade é egoismo e imoralidade; eu sei de tudo, minha va…

A MINHA HISTÓRIA POR DETRÁS DA COLONOSCOPIA >> Sergio Geia

Aprenda uma coisa, se é que você ainda não aprendeu: tudo tem uma história. Se você faz isso ou aquilo, ou deixa de fazer, saiba que faz, ou não faz, porque há uma história que explica ou justifica o fazer ou o não fazer. 
A minha começou assim. 
Primeiro, tio Ademar, e uma pequena dor nas costas. Certa vez o encontrei no pátio da Prefeitura e ele reclamava de uma dor, agora, no ombro. Perguntei se ele já tinha ido ver o que era, ao que respondeu que sim. E a saga continuou. Muitas dores, desconfortos, médicos e exames. Um dia descobriu um câncer, que nascera no intestino e que andara até os ossos. Dizem que a dor de câncer nos ossos é a pior do mundo. Meu pai, aposentado, foi seu fiel escudeiro, e o acompanhou em médicos, laboratórios, clínicas. Mas a doença, como um ácido agressivo, foi comendo aos poucos o meu tio. No final, nem morfina conseguia dar cabo da dor. Lembro que no Natal de um ano ele disse confiante: “Vou passar o carnaval em Ubatuba”. Essa frase nunca me saiu da cabe…

ODE À CESSAÇÃO >> Paulo Meireles Barguil

Quem jamais falou ou ouviu o slogan"Eu sou brasileiro e não desisto nunca"?
Reconheço a importância de valorizar a perseverança, a resiliência para alcançar os sonhos, não os abandonando quando surgem os primeiros obstáculos, desafios.
Há de se considerar, contudo, que o limite entre aquelas e a teimosia, por vezes, é ínfimo.
Para elucidar essa dúvida é necessário, continuamente, avaliar o que se acredita estar ganhando e perdendo, bem como as probabilidades desse cenário se modificar em diferentes prazos.
Uma decisão ponderada considera as análises elaboradas num prazo razoável, sendo esse atributo proporcional à magnitude da situação. 
O fracasso, entendido como o não alcance do desejado ou a não manutenção do alcançado, é uma questão de percepção, assim como tudo na vida.
Seja porque eu sou privado de algo quando ganho, seja porque eu consigo alguma coisa quando perco.

Uma autoestima saudável não pode ser refém de uma sentença carcereira.
É por isso que eu prefiro o lema…

SÁBADO >> Whisner Fraga

A menina acorda e caminha, confusa, pela manhã que se espreguiça nas sombras.

A menina pergunta pelas amigas, que devem se demorar mais um pouco na brandura da preguiça.

As casas silenciam dramas inconsoláveis, que só podemos imaginar, embora não nos  interesse muito.

A menina embosca o patinete, enquanto afronta o céu, cobrando um sol.

Ela tem pressa e o relógio mói o desânimo de exatidões.

A menina não consegue trapacear com o tempo. E emburra.

Volta para a varanda e o dia parece em greve.

Dez horas depois e só se passaram quarenta e oito minutos.

A menina tenta de novo: já posso chamar minha amiga?, mas sabe a resposta.

A menina, a todo o momento, quer ouvir respostas que já conhece.

Ela anuncia que vai voltar para a cama: cochila e se agita: elas vieram?

Nada, menina, e vai ficando tarde, quase almoço.

Ela pede para procurar as amigas. Pode. Tenta a casa de uma e depois de outra e ninguém atende, nem ali nem lá. Onde estarão? Estão bravas comigo? Saíram juntas e me deixaram?

Retor…

PEQUENAS TRAGÉDIAS E CORAÇÕES PARTIDOS >> Carla Dias >>

Não sou. Deixei de sê-lo ainda ontem, quando coloquei meu sonho na boca da fome da curiosidade... nos olhos do tempo. Eu juro que me benzi, meu caro, eu me embrenhei em ladainhas, eu colecionei relicários. Até que Deus deixou de fazer sentido na estante das minhas necessidades.
Não frequento mais certezas, tampouco santuários.
Não sou, desde há pouco, quando verbalizei o meu desejo de voar. Pássaro, quem nunca quis sê-lo? Jogar-se ao ar e reconhecê-lo: rede de proteção. Asas acolhendo sopros e direções que não levam ao destino idealizado.
Idealizações são tempo gasto em nada, meu caro. Um nada para lá de profundo. E acontece de destino ser apenas um alvo, um lugar onde se perder de si.
Que não sou, desde o instante em que me percebi na terra das carnes enterradas sob enxurradas de lágrimas e das sementes que brotam alheias às despedidas. Como entender fins a chegarem sem a percepção sobre a vida acontecida, ali, no meio do tudo, na entressafra, saltando do em cima do muro?
Que eu me …

GARRAFA SIM, TAMPINHA NÃO >> Clara Braga

As vezes, por motivos diversos, me pego lembrando de férias passadas. Com certeza não é por não ter tido férias tão boas quanto aquelas, talvez seja só porque realmente aproveito bem meus momentos de descanso e por isso eles se tornam tão marcantes.
Recentemente lembrei de uma viagem que fiz com alguns amigos para o Rio de Janeiro. Escolhemos o Rio pois estava tendo o Rock in Rio, um evento igualmente inesquecível e caro! Claro que vale cada centavo investido, mas como já estávamos com a corda no pescoço por causa das despesas normais de uma viagem mais o valor dos ingressos, nos achamos muito espertos por economizar em todo o resto que podíamos.
Um dos pontos que definitivamente íamos economizar era na alimentação e na hidratação dentro do evento. Tudo era tão caro que seria melhor levar comidinhas e muita água, já que o calor do Rio pode ser cruel. Então assim fizemos, colocamos na mochila alguns belisquetes e garrafinhas com água.
Ao passarmos pela entrada fomos revistados, assim …

A INTERSEÇÃO ENTRE MÚSICA E PESSOAS (LEVES) >> Mariana Scherma

Imagem: Divulgação
Eu sou uma hard user de comédias românticas. Assisto a todas e depois (re)assisto - ainda mais se tiver Julia Roberts ou Sandra Bullock no elenco. Nessas de rever, fui assistir pela 1008º vez A Lot Like Love, ou De Repente É Amor, com Ashton Kutcher e Amanda Peet. O filme é bom na história e na trilha sonora. E toda vez que vejo, capto algum detalhe que não tinha notado antes. Dessa última vez, o filme me deu uma lição de vida em uma cena. E acho justíssimo dividir boas lições com todo mundo. 
O que você faz quando algo incomoda? Reclama com as pessoas, fica falando sem parar de algo que não tem muito mais o que fazer? Fica todo trabalhado/a no estresse? Lota o espaço ao seu redor de péssimas energias, inclusive? Eu reclamo. Reclamo bastante, mas também logo depois viro a página e me arrependo de ter enchido a paciência de alguém (porque normalmente a gente reclama para as pessoas mais de perto, mais queridas). Depois de reclamar, já libero o momento de fazer piada …

SEM TÍTULO >> Cristiana Moura

Ela roçava os pés no colchão lentamente como que num afago. O barulho das construções dos arredores, mais alto que nunca, a invadir a casa sem pedir licença. Que nem amores que surgem sem convite em meio à multidão. Maculam a alternância leve e costumeira entre solitude e solidão. E , logo, vão embora em tom de talvez e identicamente sem rogar consentimento. Os sons invadiram, o amor invadiu, tudo cessou. E ela? Ela meramente prosseguia a esfregar, num mesmo ritmo, os pés por entre os lençóis.

TEM O NOME A VER COM A COISA? >> Zoraya Cesar

Plínio Andreija. Nome composto mesmo, chique, que o sobrenome não vem ao caso. O pai do menino acreditava convictamente que os nomes influenciam o destino das pessoas. Era, ele mesmo, um exemplo cabal de sua teoria: batizado como Cláudio, claudicava pela vida afora, por dois motivos singelos: uma enorme incapacidade de tomar decisões e ter sido atropelado por um triciclo, quando criança. Mais exemplos? Sua esposa, Portia, era uma encantadora, inteligente e linda jovem que lembrava muito a personagem de Shakespeare. Após o casamento, porém, passou a assemelhar-se ao mamífero com focinho de tomada do qual originara seu nome.
Temeroso pelo destino de seu filho, Claudio registrou-o como Plínio Andreija, apesar dos insistentes pedidos da sogra para que, ao menos, fosse Plínio André. Nunca! André era um nome comum demais para a vida grandiosa que desejava para o filho. (Como culpá-lo? Qual pai não quer um filho bem-sucedido, criativo, valente?).
Você, certamente, com a fina intuição com que a…

A VALSA >> Carla Dias >>

Na prática, não importa o que se passa com seu companheiro de viagem, esse senhor sentado ao seu lado, que pigarreia alguma doença crônica. 
Quanto tempo até o destino? Vinte e sete minutos. 
Não importa se o motorista do ônibus está de coração partido, graças a uma aventura que ele jurava que era amor para toda a vida. Não interessa se a menina, dois bancos à frente, deslizou a mãozinha para dentro da bolsa da mãe e afanou uma bala. E a mãe, anestesiada pelo cansaço, nem percebeu a filha a chupar um antiespasmódico.
A vida o conduz nessa valsa insana: faltas, pequenos abismos, delírios provocados pelo desespero. O conduz, um dançarino sem talento, a trançar pernas e a pisar nos pés da esperança.
Esperança também era nome... de quem? Ah, sua bisavó. Pessoa desprovida de gentileza, com quem conviveu por alguns anos. Uma bisavó chamada Esperança, que o levou à compreensão de que a esperança é uma desqualificada, que pensa somente nela mesma e se diverte com o desejo daqueles que nela a…

NÃO CONTA PRA NINGUÉM >> Clara Braga

Acabaram as férias e eu voltei já precisando contar um segredo.
Mas antes de contar, é importante dizer que eu curti muito meu tempo de descanso e não foi enclausurada dentro de um quarto escuro com as pernas pro alto ignorando o mundo.
Viajei para ver o mar, e quando estava na praia fiquei em barracas que tinham donos com gosto duvidoso para música. Ouvi coisas que nem sei se posso chamar de música, mas ouvi. Fui também à praias mais distantes da muvuca da cidade, com estruturas chiques que tinham até palco com música ao vivo, e o repertório não foi divulgado com antecedência.
Durante as férias, andei de taxi e uber e não pedi ao motorista que sintonizasse em nenhuma estação de rádio específica, embora tenham me perguntado mais de uma vez se a música estava do meu agrado. Achei indelicado dizer que não e deixei a música rolar a gosto do motorista todas as vezes.
Fui a vários locais que tinham música ambiente, de restaurantes e shoppings até aqueles elevadores que tocam música quando…

minha vida comigo >> branco

minha vida comigo
minhas alegrias finitas
meu desespero
não ousaria dizer
que não valeu apena
mas o fato é que vamos desaprendendo
enquanto crescemos
culpamos as oportunidades
culpamos os inimigos
culpamos a tudo
e a todos
nos culpamos

falemos sobre sonhos
o olhar inocente da criança
fotografando
e armazenando sonhos no chip-cérebro-coração
e no tempo
não nos cansamos de fotografar
mesmo que as fotos nos conduzam
ao lugar mais fundo do oceano
ou nos transforme no mais miserável dos escravos
você não quer se juntar ao meu sonho?
é bom saber que estamos a mesma jornada
é ruim saber que no sonho que sonharemos juntos
estaremos sozinhos

falemos sobre a noite
ou sobre o dia - se preferir -
muitos motivos para perdoarmos
infinitos motivos para não esquecermos
é sempre a mesma merda sob nossos pés
e não importa para qual lado você olhe
as fotos sempre estarão à sua frente
e a chuva cai forte
molhando e machucando até os ossos
quer vir dançar na chuva comigo?
é bom saber que cantamos a mesma …

TODA DESPEDIDA >> Fred Fogaça

Ainda com um triz de receio, explorava crônicas dos meus colegas de dia, quando senti a precipitação do meu domingo. Sentado perante um café passado na engenhosa mariquinha, na companhia de pudins e bolos, calculava. Analisando riscos e medindo probabilidades, arquitetava novos clássicos. Inevitavelmente frustrado, claro, passei a régua pra sair: cartão recusado. Troquei bandeiras percebendo o fim do mês. Daí que eu vi. Fins são escolhas compulsórias; com exceção de, às vezes, não serem escolhas. Creditado a conta ao deus dará, saí pra considerar. 
Foi então que doeu: não o bastante com o mês, vão-se as férias. Designação cruel. Verdade seja dita, foi um período razoável. A todo caso, suficiente para o integral descanso. Mesmo assim, quando venci os degraus e destranquei a porta de casa, disposição renovada não foi bastante pra recordar alívios. Fosse o calor pouco aconchegante, ou as paredes vazias de quadros para evitar o atentado dos vazamentos, fosse o teto que parecia mais baixo…