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BRUTALIDADE >> Carla Dias >>


A respiração afobada. Tenta disfarçá-la com um sorriso esgarçado. Há dias em que melhor mesmo é se distanciar da verdade sendo esfregada na cara, como se fosse uma vergonha adquirida por gosto, quando, na verdade, é somente mais um algo do qual não depende seu desejo, seu esforço, sua dedicação. Uma impotência transgressora.

Melhor é pensar em acontecimentos singelos, como quando observa os varais, onde os vizinhos penduram seus panos, usando pregadores coloridos. Gosta da paisagem criada por essa cotidianidade. Pensa sobre como seria caminhar pelos corredores de uma fábrica de pregadores coloridos.

A lembrança singela desvanece. Sente-se, nesse momento, como um dos panos pendurados em varal de um quintal que não o seu. Grandes pregadores a lhe interromperem a circulação. Coloridamente infiéis ao seu desejo de liberdade. 

Há poucas situações que lhe fazem doer o estômago, assim, com a dor aos berros. Essa é uma delas. Mas o sorriso esgarçado, ele ajuda a controlar reflexos. Passou muito tempo a educá-lo, porque ele é arma poderosa para que não se renda ao desamparo da rasa conexão entre tantas verdades desfiadas e uma real utilidade para elas.

Verdades insignificantes, incapazes de iluminar uma ideia, de criar perspectiva, até mesmo de calar quem seja, independentemente da bondade ou da sordidez dessas verdades. Verdades de preenchimento de tempo, para justificar esforços vãos.

Não consegue evitar de se enxergar feito personagem. Deseja que a cena seja interrompida, talvez, por algo menos polido, menos acentuado nos seus termos técnicos que poderiam ser resumidos com poucas palavras. Por que temos a tendência de enxergarmos na simplicidade a falta de eloquência? Talvez porque estejamos em um processo de aprimoramento da nossa incapacidade de escutar, de fato, o que o outro diz.

O que dizemos a nós mesmos.

Há certa brutalidade na ausência de importância. Veja como se movimenta aos olhos dos observadores. É destaque de reunião de diretoria, tem o poder de mudar tanto para tantos, mas sente apenas cansaço. Um cansaço profundo, de querer se deitar debaixo do tempo, só para deixá-lo passar, sem que tenha de lhe dar atenção. De necessitar se deslocar de cenário, apenas para conferir se saberia viver outra história que não essa. 

Saberia viver sem o tempo agendado, desprovido do sorriso esgarçado?

Lembra-se de o pai falar sobre a importância de se tornar alguém na vida. É preciso ter um objetivo e dedicar-se para alcançá-lo. Então, é necessário desenvolver habilidades para manter esse objetivo pulsante, significativo. 

Lembra-se de sentir esse mesmo cansaço que sente hoje: exuberante. Mas o pai dizia que era cansaço de criança que ainda se enxerga nas brincadeiras. Que iria passar, renovar-se na necessidade de objetivo.

Mas aqui está.... nem se preocupa mais em sorrir seu sorriso esgarçado de interpretação de agrado. Não há nada no que os outros dizem que vá contra seu objetivo. Nada que não indique sucesso, realização. Não há nada que vá contra o sucesso.

Há certa brutalidade na ausência de conexão com quem se tornou. Reage, trazendo de volta seu sorriso esgarçado, que já foi matéria de artigo jornalístico, o que lamenta profundamente. 

Importâncias... 

Sente falta delas. 

Sente falta delas sendo realmente importantes.

Imagem © Max Ernst

carladias.com

Comentários

branco disse…
desespero, consolo, inocência, pesadelo, influências, encontrar-se novamente. incompletude escrita com talento e beleza.
Analu Faria disse…
Diáfano. De se ler com calma, de ser ler de novo e de novo.
Zoraya Cesar disse…
lá vou eu, reler e reler, ate´escolher apenas uma frase no meio de TODAS maravilhosas. "Um cansaço profundo, de querer se deitar debaixo do tempo, só para deixá-lo passar, sem que tenha de lhe dar atenção. De necessitar se deslocar de cenário, apenas para conferir se saberia viver outra história que não essa. " Carla, essa é uma daquelas pra vc, por favor, deixar em separado para aquele livro de frases espetaculares da Rainha do Lirismo, Sra. Carla Dias.
Carla Dias disse…
Branco... obrigada pela leitura e pelo mergulho nos meus escritos.

Analu... a cada leitura, um leito. Gosto muito de reler. Obrigada por me ler.

Zoraya... você fica me dando ideias, né? Olha lá que uma delas vingou. :)