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TODA DESPEDIDA >> Fred Fogaça

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Ainda com um triz de receio, explorava crônicas dos meus colegas de dia, quando senti a precipitação do meu domingo. Sentado perante um café passado na engenhosa mariquinha, na companhia de pudins e bolos, calculava. Analisando riscos e medindo probabilidades, arquitetava novos clássicos. Inevitavelmente frustrado, claro, passei a régua pra sair: cartão recusado. Troquei bandeiras percebendo o fim do mês. Daí que eu vi. Fins são escolhas compulsórias; com exceção de, às vezes, não serem escolhas. Creditado a conta ao deus dará, saí pra considerar. 

Foi então que doeu: não o bastante com o mês, vão-se as férias. Designação cruel. Verdade seja dita, foi um período razoável. A todo caso, suficiente para o integral descanso. Mesmo assim, quando venci os degraus e destranquei a porta de casa, disposição renovada não foi bastante pra recordar alívios. Fosse o calor pouco aconchegante, ou as paredes vazias de quadros para evitar o atentado dos vazamentos, fosse o teto que parecia mais baixo ou a arrumação que já não era mais obra meticulosa de Dona Arlete, estanquei, e evitei olhar pra trás: podia não voltar a prosseguir. 

Com as férias, também vou, e pelo horizonte ficam os amigos, abanando os lenços brancos. Me remendei às novidades, não perdi a chance. Até conheci boas almas. Casas de parentes, mesas de bar e lugares de memória, foram presenças necessárias também. Mas meu teto é próximo demais do chão pras malas qu'eu trouxe da viagem; sem tempo de desfazê-las, tropeço a todo tempo nessas tristezas à caminho de formação, aulas e relatórios. Ainda falando com o grande Whisner, sentencia: que vai ser sempre assim. 

Mas aqui tudo é carnal. A burocracia dos dias não cauteriza o que sobrepõe, o sombreamento do que dou de ombros - ou tento - é cada vez menor. Quantas vezes bebi só a conta das mágoas e nunca mais lembrei os acontecimentos da noite passada? Férias prolongadas são nocivas à solidão; ainda pretendi dias além mas galguei apenas uma noite de fuga. Quantas vezes me despi pro calor do instante, mas a maresia era mais fria que o ar seco do pequeno sertão? A folga entre trabalhos amolece a apatia. 

Ainda por cima: eu lá, no luxo do meu café fugindo da crônica natural. Defendendo esquecer as recorrências, seguir adiante relatando sei lá o que com essas contrariedades me atravessando. Pois é, me rendi, despedidas são provas contra si mesmas. Mas a diligência não vai parar, esse é o combinado.

Comentários

sergio geia disse…
"Fins são escolhas compulsórias; com exceção de, às vezes, não serem escolhas" Fred, você é fera. Leitura obrigatória aos domingos.
Fred Fogaça disse…
Muito obrigado Sérgio! Digo o mesmo.
Zoraya Cesar disse…
"Mas a diligência não vai parar, esse é o combinado.". Amei essa frase. E concordo com o Sérgio, vc é imperdível.