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PEQUENAS TRAGÉDIAS E CORAÇÕES PARTIDOS >> Carla Dias >>


Não sou. Deixei de sê-lo ainda ontem, quando coloquei meu sonho na boca da fome da curiosidade... nos olhos do tempo. Eu juro que me benzi, meu caro, eu me embrenhei em ladainhas, eu colecionei relicários. Até que Deus deixou de fazer sentido na estante das minhas necessidades.

Não frequento mais certezas, tampouco santuários.

Não sou, desde há pouco, quando verbalizei o meu desejo de voar. Pássaro, quem nunca quis sê-lo? Jogar-se ao ar e reconhecê-lo: rede de proteção. Asas acolhendo sopros e direções que não levam ao destino idealizado.

Idealizações são tempo gasto em nada, meu caro. Um nada para lá de profundo. E acontece de destino ser apenas um alvo, um lugar onde se perder de si.

Que não sou, desde o instante em que me percebi na terra das carnes enterradas sob enxurradas de lágrimas e das sementes que brotam alheias às despedidas. Como entender fins a chegarem sem a percepção sobre a vida acontecida, ali, no meio do tudo, na entressafra, saltando do em cima do muro?

Que eu me despi de ser gente, rastejando-me nesse chão de suspiros falidos. Quando é que desejaremos com mais desejo e daremos à conquista o uso devido? O de inspirar transformações que valham o trabalho da reconstrução e que comunguem com os nossos sentidos.

Que não estou gente, talvez fique assim por um período que não sei definir. Que me sinto mais ampla, inquieta, irrestrita. Que tudo em mim reverbera o que não se contenta em ser somente o que sempre foi. Evolui aquele meu desejo, caindo da boca dos sonhos, sobre as mãos espalmadas da realidade.

O mundo, espiado daqui, dessa minha condição de transformação em andamento, parece-me muito mais perigoso. Saboroso. Desafiador.

Parece-me mais mundo.

Lanço-me a ele, que ando precisada de abraço.

Imagem: O grave, where is thy Victory © Jan Toorop

carladias.com

Comentários

Cristiana Moura disse…
Carla, hoje, estas tuas palavras me caem como roupa feita sob medida a acompanhar o desenho do corpo.
Eu, aqui, também precisada de abraços.
Carla Dias disse…
Cristiana, que então, meu abraço a alcance. <3 Beijos e obrigada por me receber na sua emoção.
Zoraya Cesar disse…
Duas Princesas do Lirismo e da Delicadeza!

"Que não sou, desde o instante em que me percebi na terra das carnes enterradas sob enxurradas de lágrimas e das sementes que brotam alheias às despedidas." o que dizer disso? Nada.

Que meu abraço de admiração gentil chegue até vocês duas, mesclado ao agradecimento pelos momentos em que saio da realidade crua para entrar numa realidade - às vezes nem menos dolorosa - sutil.
Analu Faria disse…
Lirismo transbordando desde a primeira linha. Adorei, Carla!

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