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Mostrando postagens de Abril, 2022

O CÃO E O ESPANTALHO 1ª parte >> Zoraya Cesar

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Sei que estou sendo seguido. Sei que algo está perto de mim. Não vejo nada, mas eu simplesmente sei.   Tudo começou com aquele abominável cachorro pulguento. Ou melhor, antes. Começou antes, quando aquela gente estranha se mudou para a vizinhança. Não tenho nada contra gente estranha que não tenha também contra gente comum. Os vizinhos não gostam de passar na frente da minha casa, meus colegas de trabalho me olham ressabiados e não me chamam para as festas. Mantenho a casa sempre fechada, me visto de preto e ando pelo quintal jogando sal, para afastar os curiosos. Funciona. Todos, de certa maneira, acham que lido com magia negra. Claro que não tenho essas crendices, mas gosto que pensem assim. Mantenho um espantalho horrendo no quintal, mais assustador que a face de Belzebu. (Vocês estão ouvindo isso? Esse som, como se alguém estivesse batendo na janela?).  Mas deixem-me contar do início. Eles chegaram num automóvel que era uma verdadeira carroça, todo esbodegado, parecia que tinha sid

NA SALA DE ESTAR >> Carla Dias

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O movimento silencia em seu corpo. Desliga-se com as vozes que desaparecem no corredor, entre declarações de afeto e revelação de insatisfações. Seus dedos se agarram ao carpete mais antigo que ele. Lembra-se que ali se deitou muitas vezes para dormir, ainda menino, assistindo desenhos para entretenimento de quem tem de crescer para deixar a sala de estar. Nasceu com a seriedade que os desenhos não conseguem minar. Permitiu que tentassem. Insistiu que o fizessem. Dele nunca levaram um sorriso ou conquistaram seu apreço por personagem favorito. Queria experimentar a coragem dos que se movimentam em direção ao imprevisível. Eles têm o olhar desafiador que antecede à largada. Pena que ele se modifica durante o caminho. Já viu o de alguns embaçarem. Aprecia quando aquele olhar insiste em mostrar aos seus que ainda há chance de avistar a linha de chegada. Olhar também comete enganos, insiste no erro, desvia dos fatos. É apenas um covarde, enfiado em seu pijama, ancorando sua tristeza na sal

Alfonsina Salomão está de férias

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BOLERO >> Sergio Geia

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  Já contei para vocês. Não. Minto. Eu não contei. Mas vocês já perceberam, claro que perceberam, esses momentos estão presentes em muitas de minhas crônicas, difícil não notar. E mais uma vez volto a eles.  Prazer superlativo, taí a lógica do hábito. Logo pela manhã, abrir a sacada, sentar no sofá da sala, respirar, sem pressa, sem compromissos, ligar o som, ouvir Night And Day com Diana Krall, sentir o vento fino a entrar pela sacada, pegar um Rubem Braga na estante, ou um Caio Fernando Abreu, ler uma crônica, talvez duas.  Faço isso aos sábados e domingos, dias em que tenho tempo. Já li umas quatro vezes as 200 crônicas escolhidas do Rubem. Já li todas as crônicas publicadas em livro do Caio, outras tantas em jornais, e é sempre bom encontrar textos novos. Viver um pouco a intimidade do cronista, a sua varanda, a areia da praia, aquele almoço mineiro, ou mesmo a noite iluminada de Paris ou Londres, a lua quadrada, o fim de noite em um boteco do Rio.  Ultimamente, além do Rubem, do C

HOJE, NÃO TEM... >> Paulo Meireles Barguil

"Sabe esses dias Em que horas dizem nada" (Biquini Cavadão, Tédio ) Não é só hoje. Faz tempo que está faltando! A minha lista não é grande, mas o pouco ausente é muito. Na verdade, é o mais importante. Até parece que não estou procurando. Ou que estou deliberadamente caminhando na direção errada. Só pode. Ademais, o rol de coisas (áridas) a fazer não diminui. Muito pelo contrário: insiste em crescer, apesar do meu gingado. Seu tamanho é inversamente proporcional ao que realmente tem valor. Não adianta eu resmungar que não o elaboro. Participo quando me omito. Quando aceito o que não me apetece. Não é a primeira vez. Nem será a última. A aflição dilacerante é abrandada pela convicção de que hoje não dura para sempre. Amanhã, quem sabe, terei...

TANTO FAZ >> Carla Dias

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Retrai-se. Enclausura-se em desculpas. O mundo caótico embaça os seus sentidos, arregala seus medos, fortalece suas fugas. Pés descalços, apoiados na mureta aquecida pelo sol de verão. Escalda-se apenas para criar espaço para o desejar — livre do pudor condicional — o abrigo no frio, o timbre da chuva ao açoitar as janelas, o entusiasmo do  vento. Trafega com frequência no cenário das contravenções sensoriais. O avesso cultivado é cúmplice do seu direito a caminhar por um universo de dúvidas mancomunadas com a certeza absoluta de que as incertezas são amparadas pela totalidade. Elas moram nos vincos, nas rugas, nas fissuras. Brotam nos arredores dos fatos, envergando-os até se aninhar no colo dos floreios. Acredita que há floreio que embeleza, mas quase sempre inflama em culpa, rótulo, solidão. Envolve-se com alardes, dos diminutos aos escandalizadores. Reconhece a recusa pulsando na face corada dos afetos imaginários, nas infinidades controladas, no amortecimento da dor. Deseja a libe

UM OBJETO ESQUECIDO E ENFERRUJADO >> Carla Dias

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Ela o escolheu entre outros objetos deixados à porta de sua casa. Estava sobre o tapete, onde se estampava a mensagem “dispensa-se visitas”. Sem relutância, ela o levou para dentro da casa. Pensou que um cuidado extra, quem sabe uma pintura atenciosa, e ele voltaria a ter serventia. Ter serventia é importante para ela. Desfaz-se com facilidade do que já deixou de utilizar. Despe-se do que um dia ambicionou ao sinal de esgotamento de interesse.  Reconhece que faz por objetos o que nunca aprendeu a fazer por pessoas. Oferece a eles a dedicação necessária, insistindo que se trata de consciência ambiental e social. O planeta e os desalentados ganham com a forma como ela conduz sua rotina. Sua própria vida sai ganhando, apesar de sua mente insistir em cochichar que lhe falta algo, que há espaço sobrando, que aquele tapete é um tanto indelicado. Ela gosta da indelicadeza do tapete da entrada. É um aviso aos que nele pisam somente por curiosidade mordaz. Entende a linha do tempo dos objetos,

Jasmim >> Alfonsina Salomão

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Sexta passada uma amiga me convidou para jantar na sua casa. Fui feliz da vida porque, além de encontrar duas pessoas queridas, este era um programa que eu podia fazer com minha filha mais velha, Jasmim. Não tanto porque adoro sair carregando cria, mas principalmente porque assim o marido não pode dizer que ficou com as crianças para que eu saísse. Embora ele repita que eu faço o que quero, sei que não é bem assim e prefiro não usar minhas fichas inutilmente. Sair com um dos filhotes não conta, é como seu não tivesse saído. Em outras palavras, levando a Jasmim continuo com crédito para outras noites da semana. A amiga que me convidou tem um menino de onze anos. Estava também outra amiga nossa, acompanhada dos filhos de nove e dez anos. Jasmim acaba de completar nove anos. Embora eu quase morra de nostalgia quando vejo uma mulher amamentando ou carregando o bebê na echarpe, e me sinta algo velha quando digo que sou mãe de duas crianças “grandes”, nestas horas fico super feliz por ter de

A MISSA, O BAR >> Sergio Geia

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  Ele vai à missa aos sábados. Ele também vai ao bar aos sábados. Como um bom espectador, observo: uma coisa não exclui a outra; quase sempre.  Então, ontem, como todos os sábados, quase quatro horas, céu lindamente azul e ensolarado, ele desceu o elevador destino bar. Uma. Era para ser apenas uma cerveja. Depois ele planejava voltar pra casa, tomar banho, vestir-se com roupa limpa, e aguardar até próximo das sete, o horário da missa, para então se deslocar até a igreja.  Mas aí uma moça chega. Alta, magra, loira. Assim como ele, ela pede uma cerveja. Parece bem à vontade, conversa com um, com outro, depois puxa conversa com ele. Banalidades tipo o calor que se faz nesta terra, a falta de chuva, é, o Cantareira está secando, cervejas artesanais que ela parece conhecer muito bem, as cachaças da região que ele conhece bem. Mais à vontade, ela se senta à sua mesa e então, depois disso, ele esquece a missa e não vê mais o tempo passar.  — Nunca vi você aqui, e olha que sou freguesa antiga,

ATRASO >> Paulo Meireles Barguil

 Atire o primeiro relógio, neste cronista, quem nunca atrasou! Pode ser de pulso ou de bolso, analógico ou digital, usado ou novo. Pouco importa se ele esteja funcionando: depois do lançamento, dificilmente, ele terá manterá sua integridade física. O meu único pedido, embora desconfie que não tenho direito a ele, é que você não recorra ao relógio de sol. Para lhe sensibilizar, não lhe prometerei que, caso sobreviva ao lançamento destes objetos, nunca mais irei atrasar a minha crônica, nem os comentários das produções de quem compartilhar este espaço digital comigo. O que posso lhe confessar, de coração contrito, é que lamento pelos eventuais infortúnios causados pela não observância da pontualidade: aqui e em outros espaços.

SOL SOMBRIO - PARTE IV: A DANÇA DA MORTE>>> Nádia Coldebella

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A lua minguava no céu, deixando uma tênue e nervosa luz perpassar pelas frestas das nuvens. A chuva há pouco havia cessado, mas as poças d'água ainda acumulavam-se na estrada de terra. Refletiam a luz dos faróis de alguns carros vagarosos, que insensivelmente se lançavam sobre elas, destruindo a efêmera paz que pareciam ter encontrado. Eles subiam a íngreme estrada, cercada de arbustos e árvores tropicais ainda em estado bruto, que terminava na parte mais alta da colina. Bem no topo, erguia-se uma construção toda feita de pedras revestidas por uma textura fina de calcário branco, que, agora, molhada pela chuva, resplandecia a parca luz da lua.  O arquiteto esmerara-se para imprimir na construção um inconfundível estilo gótico. E o fez com maestria. As colunas imbricadas e as paredes altíssimas encontravam-se no ponto mais alto, como se fossem orações feitas em profunda reverência na tentativa de elevar ao Criador as almas que  passariam, com o inegável intento de pecar, pelas porta

ÀS ESCÂNCARAS >> Carla Dias

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Já não me rendo aos olhares habituados a domesticar. Ainda que me falte direção, permaneço fora do círculo.  Eduque-se com o que digo , insistia em repetir, seja quem evita a discórdia, o interesse indigesto. Seja dócil, breve no discurso, elegante no gesto. Seja de acordo com o que digo, porque é o certo. Todo resto é bobagem criada para nublar o justo. Os olhares me engolem, famintos do que não tenho mais a oferecer.  Eduquei-me no que proferiu. Deitei-me aos seus pés e escutei histórias sobre verdades irrefutáveis. Acreditei nas regras impostas e aprendi as preces entregues. Alimentei-me das comidas adequadas, contive meus impulsos, banhei-me no tempo cronometrado. Impedi que minha mente perambulasse na companhia de desejos autorais. Seja silenciosa no caminhar pelos cômodos. Serena no acomodar em seu dia as tarefas a executar. Seja paciente durante as esperas. Seja quem acalma, tranquiliza. Seja aquela que renega a fúria, a adepta da resignação. Seus olhares me enfeitam com punição

MUITO BARULHO PARA UNS, MUITO SILÊNCIO PARA OUTRAS >> Clara Braga

Johnny Depp é homenageado por atuação em filme, mesmo após ser acusado de abuso e violência contra a ex-esposa. Woody Allen já recebeu homenagem pelo conjunto de sua obra, e seus filmes concorrem ao Oscar sem grandes problemas. Ele não vai aos eventos porque não gosta de premiações, mas não está impedido de frequentar nenhum lugar, mesmo que sua história de vida, principalmente no que diz respeito à casamento, seja no mínimo bizarra. Aliás, os casos de assédio são tão pouco considerados pela academia que em 2018, o próprio presidente da academia do Oscar era investigado por assédio sexual. Morgan Freeman foi premiado pelo sindicato dos atores mesmo após oito mulheres o denunciarem por abuso sexual. Charlie Sheen era um dos atores mais bem pagos quando foi acusado de violência doméstica e estupro. E se você pesquisar o motivo de seu afastamento do seriado Two and a Half Men, vai encontrar divergência salarial e uso de drogas, mas bater em mulher não é motivo suficiente para fazer um hom

E AGORA? - terceira parte >> Albir José Inácio da Silva

  (Continuação de 07/03/2022)   O ESTUDANTE   - Foi um tiro no pé – disseram os críticos, incapazes de compreender aquele momento, aquela onda . Mas parecia tão óbvio, tão libertador!   Eu não estava satisfeito com aquela vida, apesar das mordomias. Escola particular, roupas de marca e dinheiro pro rolé, mas havia também cobranças e até humilhações.   De repente o país foi sacudido por um tornado de ideias simples – os detratores dizem “simplistas” - que consagravam nossas certezas antes tão atacadas pelos sabichões, professores e colegas,   que viviam de citações, nomes de livros e autores.   Era a redenção.   Agora sabíamos tudo, bastava consultar algum site amigo dos novos mestres, gurus e filósofos da astrologia. Não seríamos mais oprimidos por toneladas de páginas que precisávamos ler. As verdades chegavam rápido pelo zap, e tínhamos as respostas em caixa alta para esfregar na cara dos esquerdopatas.   Um novo tempo. Eu poderia mostrar para os velhos que nã

UMA TARDE DE VERÃO NA VIDA DA SRA. CHARLOTE >> Zoraya Cesar

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De longe, a senhora Charlote observava, disfarçadamente, o homenzinho que gerenciava o descarregamento das mercadorias. Um forte cheiro de frutas maduras, húmus e suor impregnava tudo ao redor, grudando sensualmente nos cabelos e pele da senhora Charlote.    Sentava-se numa cadeira de balanço velha que rangia melancolicamente. De vez em quando, a mulher se abanava com um leque de lâminas gastas e gravuras descoloridas. Era um mulherão, grande mesmo, alta, corpulenta, abundante.  Observava o vai e vem dos descarregadores enquanto ouvia a voz altissonante do homenzinho e o som seco e ruidoso que as palmas de suas mãos faziam ao bater nas coxas, como a marcar um ritmo invisível ou a mostrar a força de sua pancada. A voz, as batidas compassadas, o cheiro e o calor provocavam um estranho langor na Sra. Charlote. Sua testa porejava e o suor escorria suavemente por seu rosto. Parecia derreter ao calor da tarde, mas permanecia imóvel. Quem sabe se, naquele estado, os sonhos voltassem?  Adminis