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Mostrando postagens de Janeiro, 2015

CAÇADAS NOITE ADENTRO >> Zoraya Cesar

Tudo o que ela precisava eram o sangue e um chumaço dos cabelos de mais um, o sétimo, para que seu mentor completasse o ritual de magia negra que o fortaleceria indizivelmente. E traria a ela grandes recompensas.
O ritual exigia que os homens entregassem o material voluntariamente, em troca de sexo, e ela não encontrava grandes dificuldades para conseguir isso. Os caras cediam a qualquer pedido esdrúxulo – até a lhe dar sangue e cabelos – por sexo grátis ou pervertido.
Grátis? Ela gargalhou. Idiotas! Alguém pagou caríssimo por esse sangue, pagou com a própria vida, e aqueles otários entregavam, de bandeja, sua Energia Vital sagrada por uma noitada de sexo e às vezes drogas. 
As pessoas estavam caindo cada vez mais facilmente na lábia dos Desgraçados e Caídos.
Não tinham ideia de que isso custava a perda da conexão com seus  Anjos da Guarda, com a Centelha Divina, sua própria vontade e livre arbítrio. E se tornavam presas cada vez mais dóceis aos encantos promíscuos de sexo, bebida, d…

BEM-VINDOS À SELVA DA MÚSICA CLÁSSICA!
>> Carla Dias >>

Eu não sou conhecedora do universo da música clássica. Nunca conversei com um maestro como já conversei com muitos artistas, querendo saber como, quando... Por quê?

A questão é que eu adoro música. Em todas as áreas da minha vida ela está presente. Sendo assim, acabo lendo livros a respeito, assistindo a filmes nos quais ela também é personagem, e até séries de tevê, como o caso de Nashville, que relutei em conferir, mas ainda bem que o fiz, porque é uma ótima série sobre o cenário da música country.

Em dezembro de 2014, estreou mais uma série com músicos como tema. Ou seria a música? Na verdade, isso não importa, porque em terreno da arte os artistas se misturam às suas obras.

Baseada no livro homônimo da oboísta Blair Tindall, Mozart in the Jungle aborda os bastidores das orquestras e principalmente da vida dos seus maestros. O humor faz parte do tom da trama, mas isso não incute a ela qualquer leveza. O humor, quase sempre é ácido, é ferramenta poderosa para manter o espectador an…

IGNORÂNCIA É FELICIDADE >> Albir José Inácio da Silva

- Quem escreveu isto? - perguntou a diretora, mais séria que de costume, olhando para os quatro suspeitos.
Os quatro eram os alunos de melhores notas, que tinham direito a sentar nas carteiras duplas em frente à professora. Naquele mês, Silvinha, primeira colocada, sentava-se à esquerda. Celinha, segunda melhor nota, ao seu lado. Na carteira de trás estávamos eu e Hilda, como terceiro e quarto lugares respectivamente.
Eu estava entre os quatro por razões político-econômico-administrativo-pedagógico-aleatórias. E era, por isso, um garoto de muita sorte. Cheguei mesmo a ouvir de Dona Creusa - um misto de servente, inspetora e fofoqueira:
- Esse menino dá muita sorte nas provas. Está sempre nas primeiras carteiras!
É que as escolas públicas não comportavam todos os alunos e o governo dava bolsas de estudo em escolas particulares. Eram os bolsistas. E foi assim que eu fui parar numa escola, não digo de classe média, era um bairro pobre, mas que tinha alunos de classe média. Isso para de…

CELIBATO >> Sergio Geia

Eu não chego ao ponto de estabelecer uma relação lógica entre os casos de pedofilia praticados por sacerdotes e bispos da Igreja Católica e o celibato. Acho que não é o caso. Também não comungo da mesma opinião do Leonardo Boff, para quem o escândalo da pedofilia seria um sinal de Deus tentando dizer que é hora de a Igreja abolir o celibato imposto por lei eclesiástica.
Sinceramente? Acho que a exigência de abstinência sexual é uma regra que violenta o ser humano. Você não pode simplesmente mudar a natureza de uma pessoa. Deus, ou quem quer que seja, nos inventou com um órgão sexual no meio das pernas. Não foi pra ele ficar inativo, morto. Ele tem que funcionar. Ninguém muda a natureza. É impossível. Uma hora ou outra ela fala mais alto, e aí eu tenho uma bomba-relógio. Por mais que conscientemente o indivíduo opte pela vida celibatária e pela abstinência sexual, sua natureza humana em determinado momento vai gritar, pedir, reclamar.
Segundo estudos de psicologia, ainda citando Boff, o…

SILÊNCIO >> Paulo Meireles Barguil

[Lago no Parque Ecológico Visão Futuro. Porangaba - São Paulo] [Foto de minha autoria. Janeiro/2015]

ESPELHO, ESPELHO MEU >> Mariana Scherma

Era um vilarejo muito peculiar. As paredes das casas feitas de espelho, dentro e fora porque a vaidade era tanta que não se pode perder nenhum detalhe. Já pensou ser visto com o cabelo desarrumado? Já pensou passar quase uma hora inteira sem ver seu próprio reflexo. Aliás, qual a necessidade de pinturas, flores e esculturas para enfeitar os ambientes internos quando a gente só quer mesmo se deliciar com a própria imagem?
As pessoas do vilarejo tinham um dialeto bem peculiar. O bom dia ou o oi-tudo-bem fora extinto há tempos e trocado pelo uhuuu. Uhuuu aliás, segundo o dicionário deste povo, possui múltiplos significados: exprimir felicidade, quebrar o silêncio (porque, às vezes, o silêncio faz a gente pensar), celebrar um prêmio, celebrar um novo amor surgindo... Se a vida é feita de momentos, a melhor opção para a trilha sonora são uhus.
Este vilarejo era também povoado pelo amor livre. João beijou Márcia, que pegou o Marcelo, que também queria pegar a Flavia, que teve um lance com o C…

SONHO NÃO REALIZADO >> Carla Dias >>

Durante sete meses e dois dias, ela esperou por aquele momento. Sabe aquele? O momento, o divisor de águas, a realização de um desejo, um gosto, um dos sonhos mais sonhados – acordada e dormindo.

Preparou-se, dedicadamente, que aprendeu que dedicação é ferramenta poderosa para concluir realização. Leu todos os livros que lhe indicaram, de best-seller, os escritos pelos amigos dos amigos, os de autoajuda à bibliografia de Nicholas Sparks. Assistiu a todos os filmes baseados nos romances do escritor, para então assistir ao filme O Ponto de Mutação, quatro vezes seguidas, para se aprumar.

Também aceitou indicação de chás calmantes e decidiu dar um jeito na preguiça. Foi do Bio Boxe, na animada academia da cidade, passando pela Power Yoga do Centro Holístico do bairro, voltando ao alongamento por espreguiçamento no sofá de casa.

Acredita que, para se alcançar o ideal, é preciso gastar muito tempo a compreender os tombos, inclusive aqueles que levou na rua, na escada do trabalho, no aerop…

JORNALISMO OU ENTRETENIMENTO? >> Clara Braga

Com a aproximação do Oscar eu começo a minha corrida particular contra o tempo para assistir à maioria dos filmes que estão concorrendo. É quase impossível para mim assistir a todos, mas faço sempre questão de assistir ao máximo que puder. Dentre os que já assisti estão Garota Exemplar e O Abutre, que inclusive me decepcionei um pouco quando vi que quase não foi indicado a nenhuma categoria. 
Deixando de lado minhas impressões pessoais, os dois filmes levantam uma questão em comum que muito me preocupa: a forma como o jornalismo vem sendo tratado cada vez mais como uma questão de entretenimento e não de informação. O que importa é que mais e mais pessoas estejam ligadas naquele canal, naquela hora exata. O que importa é que o dinheiro entre, e se o que vende é tragédia, vamos dar tragédia para as pessoas! E as que mais vendem são exatamente as mostradas nos filmes, aquelas com muito sangue, de preferências que a gente possa ver os ferimentos das pessoas bem de perto, que é para sofre…

AMOR, OUVIDO DE TUBERCULOSO E UM VAGÃO DE METRÔ >> Zoraya Cesar

O último metrô da noite pegava os cansados; os notívagos; os insones; os fantasmas. Pessoas diversas com estados de ânimo ou desânimo diversos. 
Vamos escolher um vagão – não diria ao acaso, que acasos não existem, mas vamos escolher um vagão. 
Neste, um rapaz de sotaque latino, fartos cabelos negros e pulseiras coloridas, cantava ao violão amores traídos, perdidos, abandonados, enchendo o ambiente de sentimentos pungentes. Passava os dias tocando de vagão em vagão, coletando dinheiro para pagar sua clandestinidade. Mas, toda noite, na última viagem, ele cantava apenas pelo prazer, sem passar o chapéu após a derradeira nota. Era o seu momento.
Um homem, aparentando 40 anos, dormitava, ressonando. Seu corpo relaxado balançava suavemente ao ritmo da composição nos trilhos, numa dança silenciosa e íntima. A camisa social de manga curta estava bastante amarfanhada, e a barba, por fazer. As mãos entre os joelhos seguravam, frouxas, um paletó, também amassado, em cujos bolsos guardara os ó…

QUEM APRENDEU DIZER ADEUS? >> Fernanda Pinho

Eu tinha 26 anos e minha vida era completamente diferente do que é hoje, aos 31. Revendo nossas primeiras conversas, percebo que cheguei meio tímida. Preferia flutuar em temas leves, como lembranças da minha infância num jardim chamado João Bolinha, a arriscar mergulhos mais profundos.Mas você me deu corda e eu sou dessas que não precisa de muito para já me achar amiga.
Naturalmente, me senti à vontade para partilhar sentimentos intensos, meus relacionamentos frustrados, minhas dúvidas existenciais. Falei da minha mãe, do meu pai e da minha irmã. Falei das minhas crianças. Algumas, já nem são mais crianças. Outras, já nem são mais minhas. Falei de gente que me amava sem que eu soubesse. Falei de gente que eu achava que me amava (e que eu achava que eu amava) e hoje sei que não. Falei dos que ainda me amam e de quem nem merece dividir uma frase com o verbo “amar”.Chorei a morte da minha avó, de uma amiga e de alguns relacionamentos.Mas celebrei as superações, as amizades, as viagens,…

O TERRORISMO COTIDIANO >> Carla Dias >>

Desde o lamentável acontecimento de Charlie Hebdo, tenho assistido à ostensiva cobertura da mídia a respeito do assunto. Nada mais justo, que o ato terrorista fez suas vítimas. Muitos se solidarizaram e se mobilizaram em homenagem aos mortos e na defesa da liberdade de expressão, e não somente na França, mas no mundo.

Nas redes sociais, muitos são os que têm pontuado a tragédia francesa com as brasileiras. A ideia não é minimizar a violência que tomou de assalto o jornal Francês que usava o humor para questionar o extremismo, em todos os seus aspectos. Aliás, eu acredito que o humor seja uma importante ferramenta para fazê-lo. A questão é explicitar que a violência, justificada por ser cometida em nome de Deus ou da lei dos homens, espalha-se pela geografia do mundo.

Violência não é justificável, mas definitivamente atinge a todos os aspectos da vida do ser humano. A violência que tolhe os direitos, a verbalizada em ofensas, a cometida em nome da fé - ou da falta dela - e do amor. A …

VIVA A LASANHA DE BERINGELA >> Clara Braga

As férias sempre se dividem entre momentos para ficar sem fazer nada e momentos que devemos aproveitar para resolver aquelas pendências que não conseguimos resolver antes por estarmos sem tempo. Só que eu nunca fui do tipo que gosta de organizar as férias, ou seja, passo a maior parte do tempo curtindo preguiça e quando vejo as férias já estão acabando e eu não fiz nem metade das coisas que planejava fazer. Aliás, esse é meu mal, planejo as coisas só na minha cabeça, minutos depois já não lembro o que planejei, aí pronto, quando lembro o que precisava fazer já é tarde demais.
Foi pensando nisso que decidi esse ano fazer de fato, fisicamente em um papel, (não, não serve arquivo no computador, tem coisas que são melhores no bom e velho papel mesmo) a tal lista que eu sempre faço de cabeça sobre as conquistas que quero alcançar no ano. Dessa forma vou poder organizar o que devo fazer cada mês, cada semana e cada dia para alcançar meus objetivos. Muito metódico, alguns vão dizer, mas vai…

A BONECA >> Albir José Inácio da Silva

Acordou muito cedo, noite ainda, e teve de esperar a hora de levantar. Sozinha desembaraçou quanto pôde o cabelo, mais na frente que atrás, e lavou o rosto. Ninguém precisou mandar. Calçou o chinelinho maior que seu pé e sentou no banco da mesa do café. Hoje não queria que ninguém gritasse com ela.
A educadora percebeu o capricho e só não fez elogio porque Abrigo não é lugar de elogios. Entendia a euforia das outras crianças. Era Natal. Daqui a pouco as visitas chegariam trazendo roupas e presentes.  Mas Tica não recebia visitas. Não ganhava presentes. A cozinheira, acostumada já com aqueles cinco anos e quatro palmos de pirraça, até comentou: “Hoje vai ter manha grossa depois da visita”.
Tica estava alheia a essas preocupações. Saltitava feito passarinho pelo quintal. Quando as visitas começaram a chegar, ficou de pé, encostada na parede em frente ao portão, levantando e abaixando os calcanhares. Ainda estava assim quando a tia e a prima de Belinha chegaram, trazendo uma caixa grande. …