sábado, 10 de janeiro de 2015

NO BAR DA RUA DO PORTO >> Sergio Geia

A Mantiqueira acordou de ressaca, amigo, abraçada por uma cortina cinza. Juro que ela revela um quê de arrebentação, como se eu visse o próprio mar; sim, um mar brabo que cobre montanhas em desconstrução, avançando sobre um playmobil de pedra desse Vale, até chegar aqui, pertinho de mim, aos pés do Santorini.

Que imagem tosca! — cê tá pensando aí, né, não? Mas releve. Digo isso porque eu, assim como a Mantiqueira nessa manhã escura, também dei por mim com uma cortina cinza a me abraçar depois de uma noite trash, além de acordar com dor nas pernas. Logo eu, que caminho regularmente, que faço musculação. Mas muito mais pelo desajeito na forma de me sentar lá no bar da rua do Porto, que é bão, bicho, onde cachaças e brejas me botaram de venda e me fizeram acordar como um pobre Chaplin manco.

Mas ressaca é assim mesmo, uma azeitona de empada. Se não a quer, que dispense a empada e faça como meu amigo Gomes, que prefere uma coca gelada. Ultimamente ando mais pra Ricardo (meu camarada chegado num uisquinho) que pra Gomes. Não sem razão.

É que outro dia me deparei com uma notícia curiosa nos jornais. Ela dizia que quem tem o costume de beber, principalmente com os amigos, é menos estressado, e tem mais chance de alcançar êxito profissional, em comparação com aqueles que não bebem. No âmbito profissional, o cara que não bebe é visto com desconfiança, parece que sua caretice num momento de descontração pode atrapalhar futuros negócios.

Só uma pausa: estou escrevendo esta crônica e fui interrompido por um insuportável de um alarme. Há uma casa aqui na esquina, um ponto de comércio. Todos os dias, na mesma hora. Se tem ladrão, como ninguém aparece, eu pergunto: de que adianta o alarme a não ser atrapalhar o sono dos justos, o sexo dos amores e a inspiração dos cronistas?

Mas voltando, só sei que não sei se faz bem ou não. A ciência diz que se for com moderação, bem faz. Quem nunca ouviu a máxima que um cálice de vinho todos os dias é um santo remédio pro coração? Meu saudoso vô Assumpção é prova viva dos benefícios. Quer dizer, ele já morreu. Mas morreu bem, tomando sua cachaça todos os dias. É que ele viveu muito e com uma lucidez impressionante. Quando a morte bateu na sua porta na rua Barão, ele a aceitou de bom grado. Nada de enrolação. Acho que tomaram uma cachaça juntos e foram embora sem mais delongas.

A vida de solteiro anda me permitindo certos derivativos, e um deles é o contato mais íntimo com o álcool. Um uisquinho no final do dia, a boazinha... Outro dia um colega me disse que fez serão. Que chegou ao escritório e ficou lá, até de madrugada, trabalhando. “Só com um uisquinho, é claro; senão ninguém aguenta”. Pois eu o invejo. Sinceramente? Gostaria muito de ficar até tarde da noite escrevendo crônicas, mesmo que à base de uísque. Já ouvi relatos de artistas que usam desses expedientes como despertador de enlevadas inspirações. Comigo não funciona, amigo. Infelizmente. No máximo, a inspiração para um belo de um mergulho no inconsciente. De preferência, na cama.

 


Partilhar

Um comentário:

Brasilino Neteo disse...

Sérgio, nota 10. Legal.