sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

AMOR, OUVIDO DE TUBERCULOSO E UM VAGÃO DE METRÔ >> Zoraya Cesar

O último metrô da noite pegava os cansados; os notívagos; os insones; os fantasmas. Pessoas diversas com estados de ânimo ou desânimo diversos. 

Vamos escolher um vagão – não diria ao acaso, que acasos não existem, mas vamos escolher um vagão. 

Neste, um rapaz de sotaque latino, fartos cabelos negros e pulseiras coloridas, cantava ao violão amores traídos, perdidos, abandonados, enchendo o ambiente de sentimentos pungentes. Passava os dias tocando de vagão em vagão, coletando dinheiro para pagar sua clandestinidade. Mas, toda noite, na última viagem, ele cantava apenas pelo prazer, sem passar o chapéu após a derradeira nota. Era o seu momento.

Um homem, aparentando 40 anos, dormitava, ressonando. Seu corpo relaxado balançava suavemente ao ritmo da composição nos trilhos, numa dança silenciosa e íntima. A camisa social de manga curta estava bastante amarfanhada, e a barba, por fazer. As mãos entre os joelhos seguravam, frouxas, um paletó, também amassado, em cujos bolsos guardara os óculos e a gravata. Tão plácido estava, que passava despercebido. 

Sentadas atrás dele, duas moças sussurravam entredentes. 

-  Se ele não largar a mocreia eu dou cabo dela. – Falou a loura, de cabelos lisos e semblante delicado, um tipo mignon de grandes olhos azuis, a quem o imaginário popular associaria à imagem de uma fada, doce e frágil. 

- Tá louca. – ciciou a outra, uma morena de cabelos negros e franja comprida, cujos olhos sonsos e boca larga faziam suspirar boa parte dos homens. Vestia-se pra chamar atenção e estava acostumada a conseguir o que queria.

- Tô louca sim, louca de amor pelo Giba. E ele transou comigo, disse que me amava, queria ficar comigo, ajoelhou agora tem de rezar. Não sou mulher de deixar passar não.

- É isso aí, disse a morena, os olhos brilhantes, a boca úmida, esses caras acham que podem transar, prometer de um tudo e ficar por isso mesmo. Tô contigo. 

- Vou encostar ele na parede. Se ele não largar da mulher eu mato ela. 

- Nossa, isso é que é amor, hein, amiga?

- É. E quando eu amo é pra matar e morrer. O Giba tem de ser meu. 

- E o Roninho?

- Meu marido? Aquela besta? Meu amor é o Giba. 

- Tô contigo. Esses caras têm de aprender que com mulher de verdade não se brinca. Se ele prometeu, tem de cumprir. Mas o Roninho, o que vai fazer com ele?

- Chuto pra fora de casa ou mato ele também. Ninguém vai se meter entre mim e o Giba. Não tô nem aí.  Eu amo é o Giba. – repetia, obcecada.

O rapaz cantava ainda, preenchendo os espaços vazios do vagão com uma guarânia triste. O homem largado no banco da frente parecia dormir ainda mais profundamente, a boca aberta. 

A morena de olhos lúbricos sibilou:

- Eu te ajudo a ficar com o Giba, você deixa o Roninho pra mim. 

- Por quê? Tu gosta dele, é?

- Gosto, disse a morena, firmemente.- Pessoas assim não temem umas às outras. Respeitam-se ou se completam.  

- Tá feito. Se o Giba ficar comigo eu te deixo o Roninho. Vai consolar ele do chifre...

- Olhe, meu primo policial tem uma arma que ele tirou de um bandido aí. Sei lá. Sei que ele empresta pros amigos. Ninguém vai desconfiar. Se o Giba não largar da mulher, a gente mata ela e resolve o problema. E joga a culpa nele, pra aprender a nunca mais ficar enganando amiga minha. 

A fada loura sorriu, mostrando uma fieira de dentes brancos e miúdos.

- Tá feito. Se o Giba não ficar comigo também não fica com ninguém. Quando eu amo, amo pra valer.

As duas se calaram. A música também. 

O rapaz guardou o violão. Elas pegaram as bolsas.  Saltaram elas, o rapaz e o homem que dormia. 

Dormia? Jamais conseguira dormir em viagens ou trajetos. Apenas relaxava o corpo e mantinha a mente em atenção flutuante, conforme fora treinado. E a natureza o dotara do chamado “ouvido de tuberculoso”, ouvia coisas praticamente inaudíveis aos outros. Conseguira captar toda a conversa, apesar de as duas murmurarem, da música e do barulho do vagão nos trilhos.

Saltou atrás delas um átimo de instante antes de as portas fecharem, já de paletó e gravata, ajeitando os cabelos, colocando os óculos. Quem visse aquele homem de postura ereta e ar sério jamais o associaria ao dorminhoco de boca aberta largado num banco de metrô.

O plano das duas era cheio de falhas, seriam facilmente pegas, mas, aí, alguém já teria morrido. E ele queria muito descobrir quem era o policial que emprestava – ainda que ocasionalmente - uma arma não registrada. 

Mais de 20 anos como investigador – um dos 100 melhores do mundo – não o transformaram num cínico. Era, ao contrário, um romântico, e sabia que aquelas mulheres falaram sobre tudo, menos sobre amor.

Estava trabalhando quase que ininterruptamente sem comer ou dormir direito havia quatro dias. Só queria ir pra casa. 

Mas, mesmo exausto, um policial é policial 24 horas por dia.  

Seguiu-as. Felipe Espada descansaria depois. Como sempre.

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7 comentários:

Ana Luzia disse...

ah, meu nobre cavalheiro errante, ou melhor, acertante sempre!!! guerreiríssimo Felipe Espada não deixa passar uma!!!

beijos de início de anoa todos!!!!

Erica disse...

O Felipe Espada não dorme no ponto mesmo kkk

Anônimo disse...

Zoraya, como sempre, fantástica.

Anônimo disse...

O último vagão do metrô da linha 2 do Rio de Janeiro é de quem faz a integração com a Barra da Tijuca e Jacarepaguá e salta em Del Castilho. Se quiserem aprontar alguma, que seja depois dessa estação, ou não vai prestar, hehehe...

aretuza disse...

se não tiver continuação....chamo a loura para matar alguém!!!

albir silva disse...

Zoraya, mesmo dormindo seus heróis são imbatíveis.

Anônimo disse...

Espero a continuação na sexta!