sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

CAÇADAS NOITE ADENTRO >> Zoraya Cesar

Tudo o que ela precisava eram o sangue e um chumaço dos cabelos de mais um, o sétimo, para que seu mentor completasse o ritual de magia negra que o fortaleceria indizivelmente. E traria a ela grandes recompensas.

O ritual exigia que os homens entregassem o material voluntariamente, em troca de sexo, e ela não encontrava grandes dificuldades para conseguir isso. Os caras cediam a qualquer pedido esdrúxulo – até a lhe dar sangue e cabelos – por sexo grátis ou pervertido.

Grátis? Ela gargalhou. Idiotas! Alguém pagou caríssimo por esse sangue, pagou com a própria vida, e aqueles otários entregavam, de bandeja, sua Energia Vital sagrada por uma noitada de sexo e às vezes drogas. 

As pessoas estavam caindo cada vez mais facilmente na lábia dos Desgraçados e Caídos.

Não tinham ideia de que isso custava a perda da conexão com seus  Anjos da Guarda, com a Centelha Divina, sua própria vontade e livre arbítrio. E se tornavam presas cada vez mais dóceis aos encantos promíscuos de sexo, bebida, drogas, ganância, autodestruição, numa espiral descendente infinita. Acabavam por perder sua Alma, sem ter a mínima noção do que estava acontecendo.

E era exatamente o que seu mentor – e outros, havia muitos outros que trabalhavam nos subterrâneos da Magia Negra – queria.

Ela se arrepiou de medo ao pensar nele. Não podia falhar ou o castigo seria terrível.

Olhou-se no espelho. Estava linda. Estava linda e jovem há muito tempo, e assim pretendia ficar por incontáveis anos ainda; tudo o que precisava fazer era obedecer ao mentor, cumprindo fiel e corretamente suas missões. Ao contrário de muitos, que se perdiam sem perceber, ela fizera uma escolha consciente.

Partiu para a noite.

O inferno era o limite.

Boate lotada, música bate-estaca em altíssimos decibéis, luzes piscando intermitentemente, bebida a rodo.  A multidão pulava feito macacos enjaulados à guisa de estarem dançando, numa espécie de transe hipnótico coletivo.

Sozinho, encostado no bar, um homem jovem, cabelos presos num rabo de cavalo totalmente fora de moda, percorria com os olhos a pista e as mesas, parecendo esperançoso e um pouco desalentado. Não conseguiu arranjar ninguém ou levou um toco, concluiu ela, esse vai ser mole.

Aproximou-se, manemoleando o corpo, sinuosa e insinuante, e partiu logo para o ataque, beijando-o na boca. Sentindo o corpo dele estremecer e corresponder ao beijo, resolveu arriscar: convidou-o para saírem dali, ficarem juntos, divertirem-se só os dois, em qualquer lugar mais discreto, ela queria propor umas brincadeiras diferentes, que tal?

O cara aceitou de pronto, entusiasmado, dizendo conhecer o lugar perfeito, onde não seriam perturbados. Ela sorriu, o sétimo estava a caminho. Andaram pela noite já alta, até chegarem a uma propriedade de muros altos e brancos, totalmente às escuras. Pode ser aqui?, perguntou ele, os olhos brilhando.

Excitada com a perspectiva de tão rapidamente cumprir sua missão, ela nem questionou que terreno seria aquele, nem por que o grande portão de ferro não estava trancado àquela hora. Tinha pressa, queria terminar logo e voltar para seu mentor, receber sua recompensa.

Entraram. À medida em que caminhavam, a mulher foi se sentindo estranhamente fraca. Alguma coisa errada havia naquele lugar. Ia falar para irem embora dali quando percebeu, horrorizada, que estava em um cemitério dentro do terreno de uma Igreja. Alerta, agora, vislumbrou a torre do templo e as cruzes no chão. Caíra numa armadilha. Como?

- Sua voduzentinha infeliz, você entrou em solo sagrado por vontade própria, não te ensinaram o básico não? – e, tirando um pequeno frasco do bolso, o homem jogou-lhe algo no rosto.

Ela berrou, a água benta descascando dolorosamente sua podridão, mas ninguém ouviu, nem mesmo as almas perdidas, que ali não as havia. 

O sujeito murmurava orações de esconjuro ancestrais em língua crioula. A mulher caiu ao chão, retorcendo-se em agonia e medo. Sabia que o fracasso lhe custaria caro, mas tinha de avisar ao seu mentor sobre esse estranho, que não só reconhecera o que ela era, como também parecia ter profundos conhecimentos de santería e outras práticas mágicas. Ele daria um jeito naquele homem que ousara desafiá-lo. Talvez essa informação valesse um castigo menor.

Reunindo forças, levantou-se de um salto, mordeu profundamente o braço do homem e correu para a saída. Ele gritou de dor, interrompendo momentaneamente seus conjuros.

Cuspiu na ferida, amenizando os efeitos do veneno, e foi atrás da mulher, desesperado, não podia deixá-la chegar ao portão, se tentasse sair sem permissão os Guardiões a desencarnariam. E ele tinha de descobrir quem era o feiticeiro vodu que chegara à cidade, instaurando o terror, e pior, fazendo discípulos. Qual a sua linha? Suas intenções? Onde encontrá-lo?

Tarde demais. Não restava muito da mulher que não a pele totalmente envelhecida e engelhada, os ossos se descarnando rapidamente, o preço pago por aqueles que se envolvem com magia negra a serviço do Mal.

Ajoelhou-se, rezou e ligou para o Grupo:

- Venham me resgatar aqui na Igreja **, tô ferido e envenenado. Avisa ao Padre Tércio que tem um resto de espírito pra ser exorcizado e..., é, não consegui as informações e a criatura desencarnou.

Desligou e esperou, frustrado, mas resignado.

Quem combate o Bom Combate sabe que perder e ganhar são ilusões, pois a batalha jamis termina. As legiões do Mal crescem a cada dia, mas as forças do Bem não estão inertes e há muita gente de valor lutando em suas Hostes.

Lucrécio Lucas combatia o Mal. Sua luta não tinha tréguas, mas ele não estava só.

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6 comentários:

Anônimo disse...

Constantine brasileiro!

Anônimo disse...

Pensei que fosse vampiro, mas é mais assustador ainda. Bom.
Marcos

Anônimo disse...

Não devia ter lido de noite.

Anônimo disse...

Divertido apesar de assustador.Muito a ver com os dias de hoje.

Angela

sergio geia disse...

Muito legal, Zoraya. Envolvente.

albir silva disse...

Muito bom ser assustado por você, Zoraya. A gente fica com crise de abstinência quando demora.