domingo, 4 de janeiro de 2015

ESTAMOS TODOS BEM >> Whisner Fraga

Aproveitamos os feriados prolongados de fim de ano para visitar nossas famílias, espalhadas por dois estados brasileiros. Entupimos o carro com malas e brinquedos, com patinetes, bolas e outros adereços, que prefiro nem mencionar para não encompridar a conversa, e vamos para a rodovia. Com medo, é verdade, sempre com um pouco de medo, pois nossas estradas são muito violentas, quase terras-de-ninguém. Basta qualquer um conectar nos noticiários para encontrar a prova do que estou falando.

Há muita imprudência, é evidente. Tentamos respeitar todos os limites de velocidade impostos pelas autoridades e divulgados em centenas de placas ao longo do caminho e, por pensar que todos agem como nós, às vezes nos assustamos com a quantidade de corredores que povoam nossas pistas. Não raro passam carros por nós a 160 km/h ou mais. Aí, podem ter certeza: não serão air bags, freios ABS ou outros equipamentos de segurança que salvarão as vidas que estão lá dentro: será a sorte. Até aí tudo bem: não vou me meter na vida de ninguém. O suicida deseja qualquer coisa, mas raramente ser salvo. O problema acontece quando, com essa atitude estúpida, ele acaba provocando um acidente que machuque outras pessoas.

Outro dia saí de São Paulo um tanto tarde para uma sexta-feira e, depois de enfrentar um pouco de congestionamento, consigo chegar à rodovia Bandeirantes e, logo de cara, outro engarrafamento. O motivo: um acidente. Olho para um lado e vejo um motor de carro no canteiro. Olho para o outro e dois corpos já cobertos por um plástico preto. Aí me pergunto: como alguém consegue bater numa estrada dessas? São cinco faixas de cada lado da pista e um canteiro separando-as, para maior segurança do usuário. Ora, a resposta é simples: imprudência.

E não é só isso. Há também a idiotice. Ora, um indivíduo que enche a cara e depois vai dirigir só pode mesmo ser um idiota. Aí não bastam campanhas de conscientização, multas elevadas e apreensão de carteiras de motorista, infelizmente. Seria preciso, num primeiro momento, intensificar a fiscalização, arrochar as leis e oferecer cursos de socialização, cultura de paz e convivência em grupo o ano inteiro, para aqueles que forem pegos dirigindo bêbados.

Mas mesmo pessoas como nós, que saem para a rodovia sóbrios, obedecendo as regras do jogo, correm riscos. Temos de ser gentis no trânsito. Sair calmamente para o lado quando aquele sujeito que vem a 180 km/h começar a dar sinais de luz, a ligar a seta como se gritasse “saia da frente”. Ser educado, abaixar a cabeça, respirar fundo, fazer uma brincadeira interna quando uma SUV dessas caríssimas sair cruzando as faixas, daqui prali, como se quisesse fazer em meia hora um percurso que normalmente é vencido em hora e meia.

E a gentileza vale também para a cidade. É mais do que direção defensiva. Hoje, prever a ação do outro é condição sine qua non para quem não quer chegar em casa com o carro amassado sempre que sair para encarar o tráfego de qualquer cidade. Peça desculpas, mesmo que estiver certo. Dê um sorriso, levante a palma da mão e grite, delicadamente: sinto muito. Desmonta qualquer um. Como tanta gente andando armada, é fácil levar um tiro em uma discussão de trânsito. Antes de mais nada, o importante é chegar vivo em casa.

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