quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

QUEM APRENDEU DIZER ADEUS? >> Fernanda Pinho



Eu tinha 26 anos e minha vida era completamente diferente do que é hoje, aos 31. Revendo nossas primeiras conversas, percebo que cheguei meio tímida. Preferia flutuar em temas leves, como lembranças da minha infância num jardim chamado João Bolinha, a arriscar mergulhos mais profundos.  Mas você me deu corda e eu sou dessas que não precisa de muito para já me achar amiga.

Naturalmente, me senti à vontade para partilhar sentimentos intensos, meus relacionamentos frustrados, minhas dúvidas existenciais. Falei da minha mãe, do meu pai e da minha irmã. Falei das minhas crianças. Algumas, já nem são mais crianças. Outras, já nem são mais minhas. Falei de gente que me amava sem que eu soubesse. Falei de gente que eu achava que me amava (e que eu achava que eu amava) e hoje sei que não. Falei dos que ainda me amam e de quem nem merece dividir uma frase com o verbo “amar”.  Chorei a morte da minha avó, de uma amiga e de alguns relacionamentos.  Mas celebrei as superações, as amizades, as viagens, os bons livros e as festas.

Você viu, e registrou, quando tudo mudou completamente.  Quando conheci meu marido, me casei, mudei de país, voltei para o Brasil, montei duas casas, aprendi a cozinhar e me tornei do tipo de pessoa que acredita no amor e tem uma marca de alvejante preferida.

Você aproximou algumas pessoas de mim, permitindo que elas me conhecessem melhor. Você me aproximou de mim. Melhor que qualquer terapia que eu já tenha feito. Me deu a chance de registrar o período mais construtivo da minha vida. Através de você, palavras carinhosas, de apoio e de felicitações chegaram até a mim nos momentos em que eu realmente precisava. Palavras negativas, por incrível que pareça, não constam.

Por tudo isso, não tenho a menor condição de fechar as portas. Estou saindo por minha própria vontade, é verdade. Mas deixo a porta escancarada (e ainda levo uma chave de garantia) para a ter a certeza de que posso voltar.


Depois de 5 anos  transformadores, 152 textos de quinta, um livro delicioso, encontros memoráveis e amigos especialíssimos, eu, que passava tempos trabalhando numa frase para não ter que recorrer a clichês, terei de sucumbir a eles justo na derradeira: gratidão e até breve, Crônica do Dia.  


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5 comentários:

Paula Pimenta disse...

Ah, não... :(

Zoraya disse...

Fernanda, cheguei bem depois de você e lembro de como fui acolhida. Da minha parte, agradeço por todos os textos maravilhosos que li, por ter compartilhado coisas tão íntimas e legais e por ter me adicionado no seu FB! Por favor, volte em breve (e estou aguardando o guia de viagem, hein?) Beijos de boa sorte na sua nova etapa e parabéns pela coragem, pq deve ter sido duro tomar uma decisão dessas.

Fernanda Pinho disse...

Paula, Zoraya, pessoas lindas que conheci pela crônica e aprendi admirar. Continuarei por aí, pra gente sempre se acompanhar. Obrigada pelo carinho. E aproveito para agradecer também ao Eduardo, que me permitiu fazer parte dessa delícia.

Um beijo!

Eduardo Loureiro Jr. disse...

Fernanda querida,
Eu já deveria estar acostumado a tantas despedidas no Crônica do Dia, mas não estou. :(
Só tenho a agradecer pela beleza e graciosidade de suas tantas palavras durante tanto tempo. As portas estarão sempre abertas. :)

Kika Coutinho disse...

ah não! :(
E agora José? E agora Eduardo?? O que vai ser de nós sem ela!!??