Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de Outubro, 2018

MUDANÇA >> Paulo Meireles Barguil

"Você não sente nem vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança em breve vai acontecer
E o que há algum tempo era jovem e novo, hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer" (Belchior, Velha roupa colorida)
A característica mais marcante da natureza é a impermanência.

Conforme o Budismo, a Humanidade sofre porque desconhece ou reluta em aceitar essa máxima.

O apego é fruto do seu tolo desejo de eternizar o efêmero.

Cada fenômeno tem sua unidade de medida de tempo: ..., microssegundo, milissegundo, segundo, minuto, hora, dia, semana, mês, ano, década, século, milênio, milhênio...
A mudança sempre virá.

Muitas vezes, não se sabe quando, nem qual será...

Algumas vezes, ela acontece apenas na aparência, na superfície, na casca.

Todas as vezes, contudo, ela ocorrerá!

Podemos tentar: aumentar ou diminuir o atrito, aprofundar ou aplacar o sofrimento, diminuir ou acelerar a alteração. Essas ações são indícios de que ela está em curso.
Isso não significa diz…

CONSCIÊNCIA >> Carla Dias >>

Deixando meu apreço pelas voltas e indo direto ao ponto: não, eu não confio em quem panfleta a favor da violência. E o cenário se torna ainda mais perigoso quando a violência é construída, torna-se projeto de vida, político, social. É imposta ao outro, a uma sociedade. Nela eu não confio.

Aos que defendem que somos um país jovem, que não temos rebeliões, revoluções e guerras suficientes no nosso currículo, por isso tudo bem se perdermos vidas inocentes no trajeto rumo às conquistas, deixo apenas uma opinião baseada em fatos: nosso país não precisa passar por todas as guerras que outros países passaram. Para isso serve a História... para observamos os acontecimentos e compreendermos erros e trabalharmos em acertos.

Não confio em quem é partidário do preconceito, estabelece quem merece e quem não merece o benefício que nem benefício é, trata-se de direito. Quem não preza pela cultura do outro, pela sua crença, pela sua busca, e assim fragiliza qualquer oportunidade de esse outro ascende…

SINTO MUITO, PROFESSOR >> Clara Braga

Passou o dia do professor, acabou o dia de dizer que respeita e admira a profissão, de lembrar com saudosismo de um professor que te marcou, de pedir melhorias e respeito. Passada a data, gostaria de deixar aqui minha admiração e meus sinceros sinto muito a todos os colegas de profissão.
Sinto muito pelas aulas duramente planejadas que foram simplesmente ignoradas pelos alunos.
Admiro quem não desiste de estar sempre planejando uma aula diferente e dinâmica para garantir a atenção de pelo menos metade da turma e não se deixa abalar pela falta de respeito.
Sinto muito pela quantidade de alunos que preferem ficar com fone de ouvido ouvindo música.
Sinto muito por ter que abrir mão de estar com sua família para comparecer a eventos escolares pouco valorizados pelos alunos e pais.
Admiro quem, além de todo o trabalho necessário para desenvolver sua aula, ainda planeja festas, formaturas, saídas de campo e outros eventos.
Sinto muito por todas as reuniões de pais nas quais você teve que o…

EU ESTOU BEM >> Sergio Geia

Digamos que foi um susto. No último dia 11, eu voltava de Jacareí sentido Taubaté, seguia o fluxo normalmente quando no km 156 da Via Dutra, bem em frente ao posto de guarda, em São José dos Campos, os carros à minha frente — como em Blecaute, de Marcelo Rubens Paiva —, simplesmente congelaram. De 80 km, naquele trecho, para zero, em fração de segundo. Não tive tempo de rezar (ah, como eu queria!), nem sequer olhar pelo retrovisor, descobrir se havia ou não uma carreta atrás de mim. Quando a ficha caiu, pisei fundo no freio, consegui não atingir o veículo à minha frente, mas, também, só por outra fração de segundo. De repente, uma sensação esquisita: eu senti a estocada, os objetos que estavam em cima do banco do carona voaram, logo meu veículo era arrastado até atingir o da frente.

Desci. Os motoristas dos outros quatro carros desceram, todos confusos, querendo entender. Os três primeiros carros, incluindo o meu, pequenos danos materiais, levíssimos diante do susto. O penúltimo e o …

YUTL, QUE VEIO DA TERRA >> Zoraya Cesar

A casa era velha, velha, quase coitada. Por fora, poderia até parecer, ao primeiro olhar, abandonada. 
O observador menos distraído, no entanto, percebe uns detalhes aqui e ali: uma cortina de chita limpa de doer a vista esvoaçando pela janela; flores viçosas e um enorme pé de jurema no jardim, e aproxima-se, curioso. A porta está entreaberta e o observador dá uma espiadela no interior. A sala era pequena; de móveis, apenas o essencial - todos muito antigos, mas bem conservados.  
Movido pela curiosidade, Yutl entrou. Cheirava bem, a casa. Cheirava a alecrim, eucalipto, sálvia. Ervas de cura! Yutl ficou contente. Isso era bom sinal. Saiu para dar uma volta no quintal e pulou de contentamento ao ver diversos troncos podres cheios de cogumelos venenosos, prontos para serem colhidos e transformados na mais deliciosa cerveja do mundo. 
Flores, ervas, jurema, cogumelos... Era quase o Paraíso. Para ser um lar, só faltava conhecer seu morador. Mordiscando folhas de erva-doce para se acalmar, es…

SEXTO SENTIDO>>Analu Faria

Nunca acreditei nesse negócio de "poder do inconsciente", apesar de já ter lido um tanto sobre isso, apesar de saber que brigas fenomenais já haviam sido travadas em nome dos estudos da psique e do que ela tem de mais profundo. Apesar mesmo de ser a matéria com que lidam os psicólogos. Na verdade, eu secretamente achava os psicólogos meio charlatães, mais ou menos o que eu penso sobre a Xuxa falando da experiência dela com duendes.
Talvez por não acreditar nesse "poder", eu entendia os "insights" como maquinações que, malgrado fossem inconscientes, passassem pelo crivo do nosso entendimento e só aí manifestavam-se de forma consciente e mais ou menos controlada. Muito que bem, senhores: eu acho é que eu nunca tinha tido um insight! E eles vinham sendo numerosos. Obviamente, achei que estava ficando louca. Se você já teve aquela sensação de "Caraca, então... é isso?", aquele susto que acompanha o segundo de clarividência lúcida, você sabe do que …

REFLEXÕES DE UMA PROFESSORA >> Clara Braga

Sempre que passo trabalho em grupos para os meus alunos aviso logo: todo mundo do grupo tem que ter o trabalho inteiro em mãos, se não no dia de apresentar vão dizer que não podem apresentar porque justo a pessoa que tinha o trabalho faltou! É impressionante como nunca falta o cara que não fez nada, só falta o cabeça que estava com tudo.
Mas o problema maior nem é esse, o problema é que sou professora de coração mole, mesmo sabendo que a pessoa faltou de propósito e que os alunos estão tentando de qualquer jeito ganhar uns dias a mais para produzir os trabalhos, eu acabo dando uma nova chance. Tiro uns pontinhos e marco a nova data, e é exatamente aí que começam os problemas.
Quando chega a nova data o fulano que tinha faltado e que estava com o trabalho vai logo se justificando: professora, ninguém me avisou que você tinha deixado apresentar atrasado, então não trouxe o trabalho! Mais uma vez o coração amolece e, embora por dentro eu esteja querendo matar um, pergunto quando eles po…

PRESSÃO >> Paulo Meireles Barguil

"Quando eu fui ferido Vi tudo mudar Das verdades Que eu sabia [...] Não estou bem certo Se ainda vou sorrir Sem um travo de amargura" (Guilherme Arantes, Meu mundo e nada mais)
Algo importante: para você ou para outra pessoa?
Há uma meta a ser alcançada? Ou é o caminho – melhor dizendo, o andarilho – que interessa?
Se optar pela primeira, a insatisfação e a pressão serão constantes, variando apenas, se for o caso, a intensidade. Se escolher a segunda, é possível o crescente prazer fruto da tranquilidade de quem conseguiu, após tirar as pesadas armaduras, encontrar a sua ferida alma, pois aquelas não conseguem protegê-la, nem permitem que ela baile. Sonho que a criança e o adulto descubram que cada um carrega o que o outro tanto busca em diversos espaços-tempos.

EU. E VOCÊ? >> Carla Dias >>

a) Eu fui, muitas vezes, quantas eu não saberia dizer. Fui sem saber direito no que daria. Houve vez que deu em coisa boa, em outra, nem tanto. E você?

b) Eu usei! Pode acreditar, usei. Não usei mais de uma vez, mas tudo bem. Foi interessante, revelador, quente. Eu me senti meio aprisionada. Talvez eu use novamente, mas sabe como é? Depende muito do quando e do onde. E você?

c) Olha, eu saboreei... acho que esse é um bom verbo para descrever o que senti. O que senti? Frenesi, desolação... pois é, veio a desolação junto. Mas acontece... conheço quem passou pelo mesmo. Mas o interessante é que a desolação era porque não havia quem sentisse comigo, naquele momento. Tem coisa que não é para se saborear sozinho, ainda assim, dá gosto, aprecia-se. E você?

d) Ah, eu dei, e muitas vezes. Teve quem achasse isso muito absurdo. Onde já se viu eu dar desse jeito? Como assim eu sair por aí dando? Então, eu dei foi um tempo. Mas depois, dei mais algumas vezes. É meu, não é? Não interessa para quem dou…

SALVE, SALVADOR >> Sergio Geia

Descemos no Aeroporto Luís Eduardo Magalhães, região metropolitana de Salvador, pouco depois do almoço, e tão logo coloquei os pés na capital baiana, uma voz começou a me cantarolar coisas no ouvido. A insistência foi tamanha que mesmo antes de pegarmos as malas eu já cantava: “Ah, que bom, você chegou, bem-vindo a Salvador, coração do Brasil...” Mesmo no carro da amiga da minha namorada que veio nos buscar, enquanto as duas conversavam altos papos sobre a vida, eu me via, vez ou outra, balbuciando baixinho palavras, coisas do tipo: “Ah, que bom, você chegou, bem-vindo a Salvador...” Como um chiclete que gruda na sola do sapato e não sai, eu estava bem musical, bem axé, diga-se. Talvez só tenha parado de cantar e me silenciado quando deitamos nossas coisas e nossos corpos na praia de Vilas, e aí, quem cantou foi o mar, num espocar de ondas macio e sonolento. Acordamos com uma boa batida de limão, camarões, acarajé, que lindas baianas vendiam no mesmo lugar em que alugavam cadeiras. Per…

JÁ VI ESSE FILME >> Zoraya Cesar

A noite fora quente como uma fornalha do inferno. Os diabos estavam soltos e animados. Alguns tentaram esquentar meu couro, mas mandei-os de volta para o tártaro. Não estava a fim de conversa. Nunca estou a fim de conversa. Cheguei ao meu apartamento, peguei um saco de gelo para botar nos machucados e tomei um analgésico. Preciso parar de ser tão reativo. Com a idade a aparência custa a voltar ao normal e eu não podia visitar o cliente do dia seguinte com a cara toda amassada. Não pega bem.

Por mais cínico que eu tenha me tornado após esses anos de profissão, às vezes ainda me surpreendo com a imbecilidade de certos tipos. Creio que alguns simplesmente pedem para serem enganados. Depois me contratam para consertar o erro. Pra mim, quanto mais idiotas, melhor.
Vejam esse meu novo cliente, Dr. Tarcísio Dum Fruklost. Empresário rico, família tradicional, viúvo, todos os filhos espalhados pelo mundo, gastando o dinheiro que seus antepassados suaram muito para conquistar. Cansado da solidão,…

TIOZÃO>>Analu Faria

Eu não acreditava que era ele. Havia engordado. Tinha as bochechas levemente caídas. Camisa polo gasta, para fora da calça. Um corte de cabelo estilo tiozão. Cabelos brancos, muitos. Olhos cansados, sem vigor, testa franzida, uma papada. A postura denunciava tristeza, talvez desânimo. Sono? No melhor dos casos. Foi o tempo ou o serviço público? Eu quase perguntei. Seria indelicado, né? Vai que foram os dois.
Lembrei-me da última vez que o vi, há uns quatro anos. Ele já havia mudado um pouco, mas não tinha aquela cara de pai de família, de servidor público que esquece os sonhos à medida que bate o ponto. Já naquela época eu me assustava com o que o mundo fazia das minhas expectativas. Aquele homem não podia envelhecer, mas envelhecia. Envelheceria. Havia envelhecido, como eu agora constatava. Olhava o reflexo dele no metal da porta do elevador e via um borrão. Imaginava o homem se desmanchando em velhice, derretendo pelo chão em peles moles, gordura e cabelo branco.
Olhou para baixo. …