terça-feira, 16 de outubro de 2018

REFLEXÕES DE UMA PROFESSORA >> Clara Braga

Sempre que passo trabalho em grupos para os meus alunos aviso logo: todo mundo do grupo tem que ter o trabalho inteiro em mãos, se não no dia de apresentar vão dizer que não podem apresentar porque justo a pessoa que tinha o trabalho faltou! É impressionante como nunca falta o cara que não fez nada, só falta o cabeça que estava com tudo.

Mas o problema maior nem é esse, o problema é que sou professora de coração mole, mesmo sabendo que a pessoa faltou de propósito e que os alunos estão tentando de qualquer jeito ganhar uns dias a mais para produzir os trabalhos, eu acabo dando uma nova chance. Tiro uns pontinhos e marco a nova data, e é exatamente aí que começam os problemas.

Quando chega a nova data o fulano que tinha faltado e que estava com o trabalho vai logo se justificando: professora, ninguém me avisou que você tinha deixado apresentar atrasado, então não trouxe o trabalho! Mais uma vez o coração amolece e, embora por dentro eu esteja querendo matar um, pergunto quando eles podem apresentar. Mais uma vez eles usam toda a sua criatividade para me tirar do sério: ah professora, agora vou ter que fazer de novo, como eu achava que não ia poder apresentar eu dei pro meu irmão brincar, ou então a moça que trabalha na casa jogou fora. Enfim, as desculpas são muitas, mas a clássica não muda: meu cachorro comeu.

Sempre tive pavor de aluno que põe a desculpa do trabalho no cachorro. Quando algum aluno tenta usar essa comigo eu falo logo que nem os meus professores de ensino médio caíam mais nessa desculpinha. Alguns batem pé, juram pela própria vida, mas não adianta, acreditar nessa desculpa é muito difícil.

Outro dia, chegando do trabalho, estava tão cansada que não guardei minhas coisas onde normalmente guardo, acabei deixando no chão da sala. Fui falar com meu filho e acabei me distraindo enquanto brincava com ele. Em questão de minutos eu lembrei da mochila aberta no meio da sala e quando fui olhar, pasmem, a cachorra estava comendo a ponta das atividades que estavam para fora.

Parece mentira, levei um tempo para acreditar no que estava acontecendo, mas aconteceu. Agora confesso estar enrolando para devolver as atividades dos alunos corrigida, digo que ainda não deu tempo de corrigir, mas essa desculpa não vai durar por muito tempo, uma hora vou ter que arrumar o melhor jeito de olhar para a cara de todos e dizer: a cachorra comeu o trabalho de vocês. 



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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

PRESSÃO >> Paulo Meireles Barguil

"Quando eu fui ferido
Vi tudo mudar
Das verdades
Que eu sabia
[...]
Não estou bem certo
Se ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura"
(Guilherme Arantes, Meu mundo e nada mais)

Algo importante: para você ou para outra pessoa?

Há uma meta a ser alcançada?
 
Ou é o caminho – melhor dizendo, o andarilho – que interessa?

Se optar pela primeira, a insatisfação e a pressão serão constantes, variando apenas, se for o caso, a intensidade.
 
Se escolher a segunda, é possível o crescente prazer fruto da tranquilidade de quem conseguiu, após tirar as pesadas armaduras, encontrar a sua ferida alma, pois aquelas não conseguem protegê-la, nem permitem que ela baile.
 
Sonho que a criança e o adulto descubram que cada um carrega o que o outro tanto busca em diversos espaços-tempos.


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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

EU. E VOCÊ? >> Carla Dias >>


a) Eu fui, muitas vezes, quantas eu não saberia dizer. Fui sem saber direito no que daria. Houve vez que deu em coisa boa, em outra, nem tanto. E você?

b) Eu usei! Pode acreditar, usei. Não usei mais de uma vez, mas tudo bem. Foi interessante, revelador, quente. Eu me senti meio aprisionada. Talvez eu use novamente, mas sabe como é? Depende muito do quando e do onde. E você?

c) Olha, eu saboreei... acho que esse é um bom verbo para descrever o que senti. O que senti? Frenesi, desolação... pois é, veio a desolação junto. Mas acontece... conheço quem passou pelo mesmo. Mas o interessante é que a desolação era porque não havia quem sentisse comigo, naquele momento. Tem coisa que não é para se saborear sozinho, ainda assim, dá gosto, aprecia-se. E você?

d) Ah, eu dei, e muitas vezes. Teve quem achasse isso muito absurdo. Onde já se viu eu dar desse jeito? Como assim eu sair por aí dando? Então, eu dei foi um tempo. Mas depois, dei mais algumas vezes. É meu, não é? Não interessa para quem dou, se sou paga ou não por isso. Agora, descabelei... saio por aí e dou mesmo! E você?

e) Descobri, recentemente, que fazia errado, acredita? Achei que tivesse acertado nas outras vezes, que aquilo tinha sentido, que a matemática estava certa... pura bobagem. Passei tanto tempo construindo o que não me cabia construir que me esqueci de aprender a fazer direito. Porque tem de aprender, sim! Aprender a fazer direito é colocar-se à disposição do que isso provoca. Daí que fiz isso - de me permitir ser tomada por, em vez de tomá-lo - há pouco. Tem gente que entende isso tão rápido, né? Eu demorei uma vida... tudo bem. O que importa é que agora faço de fato. Pode até não ser direito e com bons resultados, mas é de fato. E você?

f) Daí que eu me permiti, acredita? Assumi o risco e compreendi ser a única responsável pelas consequências. Claro que fiquei me perguntando se iria, como em muitas ocasiões, errar a mão. Mas me permiti, porque é permissão que ninguém mais poderia me conceder. Não interessava mais se me faria mais bem do que mal, apenas que faria. Eu precisava da emoção de colocar em prática o que essa permissão me oferecia. Dei um dane-se para os meus medos e escolhi. E você?

g) Eu.

h) E você?

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Independentemente do que você pensou, as respostas: 
a) balada para dançar    b) cachecol    c) uma garrafa de Bolla Valpolicella    d) meus livros    e) amar    f) escrever o primeiro texto de dramaturgia
g) mas nem sempre a mesma    h) sempre bem-vindo para uma xícara de café e uma boa conversa
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Imagem: Dans le gris © Wassily Kandinsky

carladias.com




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sábado, 6 de outubro de 2018

SALVE, SALVADOR >> Sergio Geia



Descemos no Aeroporto Luís Eduardo Magalhães, região metropolitana de Salvador, pouco depois do almoço, e tão logo coloquei os pés na capital baiana, uma voz começou a me cantarolar coisas no ouvido. A insistência foi tamanha que mesmo antes de pegarmos as malas eu já cantava: “Ah, que bom, você chegou, bem-vindo a Salvador, coração do Brasil...” Mesmo no carro da amiga da minha namorada que veio nos buscar, enquanto as duas conversavam altos papos sobre a vida, eu me via, vez ou outra, balbuciando baixinho palavras, coisas do tipo: “Ah, que bom, você chegou, bem-vindo a Salvador...”
Como um chiclete que gruda na sola do sapato e não sai, eu estava bem musical, bem axé, diga-se. Talvez só tenha parado de cantar e me silenciado quando deitamos nossas coisas e nossos corpos na praia de Vilas, e aí, quem cantou foi o mar, num espocar de ondas macio e sonolento. Acordamos com uma boa batida de limão, camarões, acarajé, que lindas baianas vendiam no mesmo lugar em que alugavam cadeiras.
Perambulando pelo centro, bati os olhos numa placa que indicava “Praça Castro Alves”; a lembrança foi instantânea: ”A Praça Castro Alves é do povo, como o céu é do avião”. Digo que a praça me acompanhou até o Pelourinho, quando foi substituída, entre fitinhas coloridas no braço, de Nosso Senhor do Bonfim, e baianos ambulantes vendendo de tudo, pelo clássico: “Salve, Salvador, me bato, me quebro, tudo por amor, eu sou do Pelô, o negro é raça, é fruto do amor, salve, Salvador...”, e mesmo numa feijoada carioca, lá estava ela: “Salve, Salvador...”, grudada nas entranhas, que até acho ter percebido um certo desconforto de minha companheira, talvez já cansada por ter uma vitrola ambulante, uma espécie de spotfy baiano ao seu lado.
Mas não me dei por vencido. Diga-me, amável leitor, com sinceridade: como passar uma tarde em Itapuã e não me lembrar dela? Ah, meu querido, impossível. Mesmo com um mar não tão limpo, mesmo com pessoas estranhas dançando funk na areia, embaladas por um som de estourar os ouvidos, em meio a coqueirais, sol, mar e água de coco, numa tarde belíssima, digna de cartão postal, timidamente eu comecei, mas logo já cantava a plenos pulmões: “Passar uma tarde em Itapuã, ao sol que arde em Itapuã, ouvindo o mar de Itapuã, falar de amor em Itapuã”, e mesmo no táxi, quando ela dormia, lá estava eu cantarolando baixinho, ainda emocionado com a beleza da vida.
Trago boas recordações dessa viagem, que ocorreu há mais de dois anos. Hoje, porém, ela me veio, e esses detalhes que me chegaram como notas musicais; você entende.
Ainda que tenha sido surpreendida por esse meu lado excessivamente axé, disse a ela, tentando contornar um pouco o constrangimento da situação, sem muito sucesso, é verdade, que a música torna a vida mais colorida, que não há nada mais energizante que cantar. Vivemos bons momentos e não será um repertório baiano de um cantor amador que irá apagá-los ─ ainda que não me saia da cabeça seu olhar felino ao me ver encarar São Paulo de cima e, com saudades, balbuciar: “É sempre lindo andar, na cidade de São Paulo... lembra dessa?”





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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

JÁ VI ESSE FILME >> Zoraya Cesar

A noite fora quente como uma fornalha do inferno. Os diabos estavam soltos e animados. Alguns tentaram esquentar meu couro, mas mandei-os de volta para o tártaro. Não estava a fim de conversa. Nunca estou a fim de conversa. Cheguei ao meu apartamento, peguei um saco de gelo para botar nos machucados e tomei um analgésico. Preciso parar de ser tão reativo. Com a idade a aparência custa a voltar ao normal e eu não podia visitar o cliente do dia seguinte com a cara toda amassada. Não pega bem.

Por mais cínico que eu tenha me tornado após esses anos de profissão, às vezes ainda me surpreendo com a imbecilidade de certos tipos. Creio que alguns simplesmente pedem para serem enganados. Depois me contratam para consertar o erro. Pra mim, quanto mais idiotas, melhor.

Vejam esse meu novo cliente, Dr. Tarcísio Dum Fruklost. Empresário rico, família tradicional, viúvo, todos os filhos espalhados pelo mundo, gastando o dinheiro que seus antepassados suaram muito para conquistar. Cansado da solidão, decidiu casar de novo, aproveitar as delícias do matrimônio antes que D. Morte o tomasse por esposo. Poderia ter escolhido alguém de seu nível social. Uma dama. Ou uma mulher mais madura, mais compreensiva quanto às suas limitações sexuais. Mas não. O velho sátiro resolvera casar com uma mulher quase 50 anos mais nova, apresentada por um 'amigo'. Folhetim brega e batido. As pessoas não aprendem. Pois, claro, depois de alguns meses, boatos surgiram questionando a fidelidade da jovem esposa. Dr. Tarcísio calou os boateiros mediante algumas ameaças, algumas pressões, algumas chantagens. Mas o veneno fora instilado. E ele me contratou.

Meu contratante era ainda forte. Tinha as espáduas largas de quem passara a vida nadando contra a corrente, a postura ereta dos que estão acostumados a mandar. Os olhos fulguravam com o brilho característico dos homens que sabem lidar com a malícia do mundo – e se servem dela muito bem. O tempo, no entanto enfraquece até os leões mais resistentes. E a fera perde a força de ataque, o instinto matador e, pior, seu lugar de macho alfa. A única maneira que vira para tentar frear, ou, ao menos, diminuir a marcha célere ladeira abaixo, fora casando com uma mulher capaz de fazer os outros homens virarem os olhos – e muitos, como ele próprio, também a cabeça.

Ele começou a mostrar fotos e vídeos. Quase soltei um palavrão. A mulher era uma enviada do demo. O próprio Asmodeus deve tê-la expulsado dos infernos a fim de que ela não o destronasse e dominasse os outros diabos. Confesso que, até então, pensei tratar-se de uma piranha vulgar. Dessas coitadas que encontramos em bares bem depois das altas horas, experts em saber escutar e fingir que o maior desejo de suas vidas miseráveis é abrir as pernas para que homens encharcados de bebida e desolação encontrem um pouco de calor humano. Eu sei. Já fui um desses homens.

Mas ela! Ela estava longe disso. Laura era seu nome e, mesmo vista na tela, sua presença era tão magnética que quase pude sentir seu perfume. Uma mistura de dama da noite com tabaco. Era cheia de curvas, todas sensuais, seios que saltavam da roupa, pura luxúria. E tinha classe. Movimentos comedidos, sorriso discreto e olhos profundos. Senti um arrepio. Aqueles olhos pareciam penetrar em você e dominar sua mente. Os cabelos castanhos, longos e ondulados emolduravam um rosto branco leite, que meu deu vontade de beber e...contive-me. Mais um pouco e eu estaria babando na frente do marido. Percebi o fascínio que ela exercia sobre os homens. Dr. Tarcísio, por experiente que fosse, não era páreo para ela. Ninguém era.

- Não quero escândalos nem provas de adultério para fins de divórcio. Quero apenas que Laura se sinta constrangida a não me trair por aí. É muito humilhante para um homem como eu. Estou velho, mas ainda tenho algum poder. E há quem possa usar as escapadelas de minha esposa contra mim. O senhor entende?

Sim, pensei, entendo muito bem. O pobre diabo estava viciado nela, como o enfisematoso ao seu tubo de oxigênio, o drogadicto à sua injeção de heroína E o desgosto de ser passado para trás, de ser visto como um corno manso no final da vida, eu também entendia. Quem foi rei não gosta de perder a majestade. Por isso eu jamais quis ser o fodão. Ninguém quer competir comigo para pegar o meu lugar. Nos westerns, sempre tem um novato idiota disposto a desafiar o pistoleiro lendário para provar que sacava mais rápido. Assim também na vida. Daí que escolhi andar pelas sombras. Você lida com gente mais perigosa. Mas se acender a luz todo mundo foge.

Dr. Tarcísio podia ser o maioral pra sua gente, os grandalhões do mercado, das finanças, do que fosse. Mas, para o comum dos mortais, não passava de um paspalho. Qualquer marciano lhe diria que uma mulher fogosa daquelas não se conformaria com sexo mixa nem seria constrangida a coisa alguma. Essa tentativa canhestra de manter a dignidade fazendo-a perceber que estava sendo seguida e impedi-la de dar o corpo para quem quisesse era risível. Dr. Tarcísio era digno de pena. Como não tenho pena de ninguém, cobrei um valor bem mais alto do que costumo cobrar para esse tipo de serviço. “Taxa otário”, como chamo.  

Minha fiel USP Heckler & Koch.
Nunca me falhara.
Confiava mais nela que em mim mesmo.
Passei num bar de nenhuma categoria, tomei duas doses de um uísque que deve ter sido batizado com água de privada, e fui andando para casa. Ao chegar, parei, peguei minha Heckler & Koch USP e empurrei a porta, tão delicadamente quanto meu estado etílico permitia, a porta entreaberta que eu deixara trancada ao sair.

O perfume de dama da noite com tabaco chegou aos meus sentidos antes mesmo de eu entrar. Acendi a luz. Lá estava ela, sentada no meu sofá como se tivesse feito isso a vida inteira. Sentada não. Lânguida e sensualmente recostada, olhando-me de soslaio, o cigarro nas mãos.

- Se vai apontar a arma – ela ronronou, como uma onça ao vislumbrar a caça – é melhor atirar.

Meu coração tentava saltar pela boca e cair nos braços dela. Engoli saliva diversas vezes, até colocá-lo de volta no meu peito. Então era esse o jogo. A pequena demônia fora mais esperta. Em vez de o detetive segui-la, ela seguiria o detetive.

Seduzindo-me, poderia continuar a trair o marido sem ser perturbada. Ele ficaria sossegado. Eu ganharia meu dinheiro. E mais que isso.

Sairíamos todos ganhando.

O problema é que no jogo da vida não existem partidas em que todos saem ganhando. Acreditem em mim. Sei do que estou falando. As mais das vezes, os otários perdem, e um único esperto se dá bem.

Largada no sofá de minha sala,
Laura testava o poder de seu fascínio sobre mim.
Aquela mulher exercia uma atração animal estonteante. Exalava feromônio até pelos cabelos. Cada movimento seu era naturalmente sedutor. Guardei a arma; não era de um revólver o que eu precisava, mas de cabeça fria. Já vira esse filme antes. O herói se dá mal. Ela me usaria, aniquilaria com a minha auto-estima, pisaria em todos os meus escrúpulos, me reduziria a um escravo de suas vontades, um viciado em seu corpo, rastejando para que ela me desse um olhar que fosse. Laura poderia transformar o mais espartano dos homens em um estulto lastimável. Já vi esse filme antes. 

Ela bateu as cinzas do cigarro na própria mão e soprou-as em minha direção. Amigos, aprendam: nenhuma mulher é tão perigosa quanto aquela que coloca dor e prazer no mesmo pote. A experiência me ensinou que, mais importante que saber usar uma arma, era conhecer a natureza humana. Isso podia ser a diferença entre a vida e a morte. Fechei a porta. Tirei o paletó. Aproximei-me e beijei-a selvagemente, apertando meu corpo contra o dela.

Gosto do que faço. É o que sei fazer melhor. Não suporto patrões, horários rígidos, rotina. Meu trabalho é cansativo; muitas vezes, arriscado; nem sempre paga o suficiente. Gosto também de testar meus limites. Correr riscos. Desafiar o abismo. Talvez, dessa vez, eu conseguisse mudar o final do filme.

Outra aventura da série Detetive Sem Nome: 

Foto Laura: Rudy Nappi - Pinterest
Foto Heckler & Koch USP (universal self-loading pistol)
https://www.guns.com/reviews/heckler-koch-usp-compact/


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quinta-feira, 4 de outubro de 2018

TIOZÃO>>Analu Faria

Eu não acreditava que era ele. Havia engordado. Tinha as bochechas levemente caídas. Camisa polo gasta, para fora da calça. Um corte de cabelo estilo tiozão. Cabelos brancos, muitos. Olhos cansados, sem vigor, testa franzida, uma papada. A postura denunciava tristeza, talvez desânimo. Sono? No melhor dos casos. Foi o tempo ou o serviço público? Eu quase perguntei. Seria indelicado, né? Vai que foram os dois.

Lembrei-me da última vez que o vi, há uns quatro anos. Ele já havia mudado um pouco, mas não tinha aquela cara de pai de família, de servidor público que esquece os sonhos à medida que bate o ponto. Já naquela época eu me assustava com o que o mundo fazia das minhas expectativas. Aquele homem não podia envelhecer, mas envelhecia. Envelheceria. Havia envelhecido, como eu agora constatava. Olhava o reflexo dele no metal da porta do elevador e via um borrão. Imaginava o homem se desmanchando em velhice, derretendo pelo chão em peles moles, gordura e cabelo branco.

Olhou para baixo. Tinha vergonha? Não me cumprimentou, mas certamente me vira. Logo levantou a cabeça de novo. Mexeu com as mãos, um gesto de impaciência. Fechei as mãos em torno da alça da bolsa, trazendo-a para a frente o meu corpo. Só percebi o movimento depois de fazê-lo. Alguns segundos depois o elevador chegava. Eu agora via a mim e ao homem pelo espelho, sem borrão. Até que assim, meio caidinho, sem tanto sex appeal, ele parecia mais meu número do que naqueles tempos.


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